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“Agora tenho a liberdade de perseguir meu sonho”

Histórias

“Agora tenho a liberdade de perseguir meu sonho”

Aos 25 anos, uma nadadora iraniana que vive como refugiada no Brasil foi selecionada para o programa de bolsas para atletas refugiados, que apoia esportistas nessa condição em sua trajetória rumo aos Jogos Olímpicos
24 Setembro 2026
A nadadora iraniana Hannaneh Afsharr treina em Florianópolis (SC) para aprimorar suas técnicas e seu desempenho, com o objetivo de participar dos Jogos Olímpicos de Los Angeles

A nadadora iraniana Hannaneh Afsharr treina em Florianópolis (SC) para aprimorar suas técnicas e seu desempenho, com o objetivo de participar dos Jogos Olímpicos de Los Angeles

Quando Hannaneh Afshar entra na piscina todas as manhãs em Florianópolis (SC), ela traz consigo mais de 20 anos de treinamento e competições. Ela carrega um sonho que persegue desde a infância.

Aos 25 anos, a nadadora iraniana foi selecionada para o Programa de Bolsas para Atletas Refugiados da Fundação Olímpica para Refugiados (Olympic Refuge Foundation), o braço do Comitê Olímpico Internacional criado para apoiar atletas refugiados com talento esportivo. Um grupo de bolsistas será futuramente escolhido para integrar a Equipe Olímpica de Refugiados – um time de atletas refugiados de alto rendimento que competirá nas próximas Olimpíadas, a serem realizadas em Los Angeles, em 2028. O anúncio marca um marco importante em uma trajetória moldada pela determinação, pelo sacrifício e pela busca de um lugar onde ela pudesse perseguir plenamente suas ambições.

“Agora alcancei a liberdade de que precisava para realizar meu sonho”, diz Hannaneh, também conhecida no Brasil por Hanna. A natação faz parte de sua vida desde cedo. Ela tinha apenas quatro anos quando entrou em uma piscina pela primeira vez. Na verdade, ela foi empurrada para dentro da água.

“Meu primeiro treinador simplesmente me empurrou para a água, sem colete salva-vidas, e pediu que eu me virasse para sobreviver. Logicamente, isso fez com que eu não gostasse da piscina no início, mas hoje é o lugar onde mais gosto de estar”, disse a refugiada iraniana que buscou proteção internacional no Brasil há pouco mais de um ano.

Aos 12 anos, Hannaneh já havia alcançado os níveis mais altos de competição nacional no Irã. Mas, embora seu talento continuasse a crescer, oportunidades além das fronteiras de seu país permaneciam inalcançáveis. Em sua terra natal, as competições de natação para mulheres existiam apenas até os 17 anos. No entanto, ela não via isso como uma barreira para alcançar seu sonho. “Minha nacionalidade não poderia limitar meu sonho de me tornar uma atleta internacional, especialmente de competir nos Jogos Olímpicos. Dediquei minha vida a esse objetivo e nunca acreditei que o lugar onde nasci devesse determinar até onde eu poderia chegar”.

Essa inspiração veio de casa. A mãe de Hannaneh é ex-atleta de barco-dragão – um esporte aquático de equipe no qual os remadores se sentam em pares e conduzem embarcações semelhantes a canoas ao ritmo de um tambor – tendo alcançado marcos importantes, como a medalha de bronze no Campeonato Mundial Master.

“Chegar ao Brasil é diferente de chegar a outros países. Aqui, as pessoas refugiadas têm pleno acesso a direitos e podem conviver como brasileiros. Hoje, faço parte de uma equipe muito profissional que conhece meus objetivos e me prepara para alcançá-los com a atenção de que preciso”.

Hannaneh treina com a equipe Swim Floripa no Jurerê Sport Center, em Florianópolis, sob a orientação do técnico Albertinho Silva, que trabalhou com alguns medalhistas olímpicos brasileiros. Ela também conta com o apoio de treinadores e colegas de equipe que compartilham seu compromisso em alcançar o mais alto nível do esporte.

“A Hanna é uma profissional muito dedicada; ela é extremamente comprometida com o que faz. Pode estar chovendo, fazendo frio ou ser qualquer horário: a Hanna estará aqui para entrar na piscina e continuar seu treinamento. Mesmo quando estava lesionada, ela vinha treinar. Ainda precisamos melhorar os tempos dela, mas o caminho já foi pavimentado", disse a treinadora argentina Ana Presumido. "O fato de Hanna ser uma atleta no mundo do esporte, que ainda privilegia as competições masculinas de muitas maneiras, é um fator que me motiva ainda mais a acompanhá-la", complementa.

Com os aspectos técnicos da natação bem estruturados e sendo aprimorados a cada treino, o ganho de velocidade aumentará suas chances de ser selecionada para a Equipe Olímpica de Refugiados.

A velocidade também corre nas veias de Hannaneh. Um esporte que ela acompanha sempre que possível, após sua rotina de treinos e condicionamento físico, é a Fórmula 1. Entre as personalidades esportivas admiradas pela nadadora, o lendário Ayrton Senna e o atual piloto Lewis Hamilton estão entre aqueles que ela cita como inspirações para sua própria carreira, devido às suas trajetórias. Sobre Senna, ela menciona alguns aspectos que acredita terem em comum.

"Assisti à série sobre Senna e fiquei fascinada por sua personalidade, pela dedicação ao que fazia e pela maneira como vivia em um mundo dentro do carro e em outro fora dele – dois universos que se complementavam. É exatamente assim que me sinto quando estou dentro e fora da água. Penso na minha vida, nos objetivos que tenho quando estou nadando e, fora da água, reflito muito sobre como melhorar meu desempenho, sobre os ajustes a serem feitos", disse.

Longe da família e dos amigos, ela conta com o apoio emocional da pequena Tala, uma cadelinha de apenas seis meses adotada semanas após sua chegada ao Brasil. A parceria entre elas inclui caminhadas pelo bairro onde vivem e, embora a cadelinha tenha medo dos outros cães da vizinhança, ambas superam as adversidades e vencem suas barreiras gradualmente.

"Uma pessoa refugiada não deve ser vista como uma ameaça ou por motivo de desconfiança, mas sim pelo potencial que possui para buscar seus sonhos. Por mais difícil que a situação possa parecer em algum momento de nossas vidas, é preciso seguir em frente com a convicção de quem sabe onde quer chegar", afirmou a “determinada” nadadora – como ela mesma se define.

Enquanto Hannaneh prossegue com sua preparação no Brasil, seu foco permanece firme no próximo treino, na próxima competição e no próximo passo rumo ao sonho olímpico que ela carrega desde a infância.

"A jornada não terminou. Mas, pela primeira vez, sinto que o caminho à frente está realmente aberto", disse.

A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) no Brasil continua apoiando Hannaneh e outras pessoas refugiadas no país a alcançarem seus objetivos de vida – sejam quais forem seus sonhos ou onde quer que estejam. O esporte é uma ferramenta importante de inclusão e integração local e, assim como em outros aspectos da vida, permite que pessoas refugiadas demonstrem seus talentos e contribui para que seus esforços e conhecimentos impulsionem o desenvolvimento das comunidades que as acolhem.