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"Vejo todos os dias o impacto profundo de uma crise que não para de crescer", conheça o relato de trabalhadora humanitária brasileira no Líbano

Histórias

"Vejo todos os dias o impacto profundo de uma crise que não para de crescer", conheça o relato de trabalhadora humanitária brasileira no Líbano

16 Abril 2026
Raquel Trabazo enquanto trabalhava na operação do ACNUR na Ucrânia

Mesmo antes da escalada dos conflitos no Oriente Médio, a região já enfrentava uma das maiores emergências humanitárias da história: mais de 24 milhões de pessoas nos países afetados já estavam deslocadas à força e retornadas, enfrentando riscos significativos de proteção e necessidades humanitárias, juntamente com as comunidades anfitriãs.

Com presença em toda a região as operações do ACNUR ajustaram suas modalidades desde que o conflito se intensificou para garantir a segurança da equipe, ao mesmo tempo em que continuam a executar atividades essenciais, como monitoramento de fronteiras, serviços de proteção, distribuição de itens de socorro emergencial e assistência financeira.

No Líbano, mais de 1 milhão de pessoas - das quais 347 mil são crianças - foram forçadas a se deslocar desde o início de março, com mais de 2.100 mortes e 7.000 feridos, segundo o Ministério da Saúde Pública libanês. Entre as vítimas, já foram contabilizadas 48 mortes e 116 feridos entre a população refugiada.

Leia o relato completo de Raquel Trabazo, trabalhadora humanitária que atua como chefe do escritório de campo do ACNUR em Zahle, no Vale do Beeka, e compartilha como é estar na liderança de uma resposta emergencial em um país em guerra:

"No Vale do Beeka, no Líbano, vejo todos os dias o impacto profundo de uma crise que não para de crescer. Em poucas semanas, centenas de milhares de pessoas foram forçadas a deixar suas casas, muitas sem tempo de levar sequer itens essenciais. Chegam aos abrigos exaustas, com o olhar perdido e carregando apenas o que conseguiram salvar.

Uma história que me marcou profundamente foi a de uma senhora de 90 anos. Em 2024, ela perdeu 11 membros da família e teve que se abrigar temporariamente na mesma escola que, hoje, voltou a viver ao lado do neto — os únicos que restaram da família. Como ela, milhares de pessoas tentam reorganizar a vida em meio à dor, à perda e à incerteza.

As necessidades são imediatas e básicas: colchões, cobertores, alimentos, kits de higiene, iluminação e aquecimento. Muitas pessoas chegam sem nada. Mas há também uma dimensão invisível e igualmente urgente: o trauma. O sofrimento emocional é intenso. Em uma visita recente, uma mulher começou a chorar apenas ao mencionar de onde vinha, revivendo a destruição da sua casa e a perda de familiares.

A resposta humanitária enfrenta desafios constantes. A insegurança limita o acesso às áreas mais afetadas, e muitas vezes precisamos agir rapidamente, aproveitando pequenas janelas de segurança para entregar ajuda. Enquanto isso, milhares de pessoas continuam se deslocando para uma situação que, mesmo com a resolução do conflito, ainda permancerá por bastante tempo devido à escala da destruição de moradias e infraestrutura em geral.

Ainda assim, em meio à devastação, vemos gestos de solidariedade. Comunidades locais acolhem, compartilham o pouco que têm e tentam apoiar quem chega. Mas a escala da crise é enorme e assegurar um apoio efetivo às pessoas afetadas e comunidades de acolhida será essencial à prevenção de conflitos e aumento das tensões sociais.

É uma população profundamente traumatizada, vulnerável e com medo do que ainda pode acontecer — e que precisa, urgentemente, de apoio contínuo para sobreviver, recuperar a dignidade e, um dia, reconstruir suas vidas."

Raquel Trabazo é trabalhadora humanitária desde 2011, e atualmente é Chefe do Escritório de Campo do ACNUR de Zahle, no Vale do Beeka, Líbano. Antes disso, foi Representante-Adjunta da Operação do ACNUR no Brasil, e atuou em emergências junto ao ACNUR NA Ucrânia, Venezuela, Etiópia, Honduras, Guatemala e Sérvia.


Desde a significativa escalada do conflito no Oriente Médio - que tirou vidas civis, danificou e destruiu infraestruturas vitais e forçou milhões de pessoas a fugir de suas casas, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) se mobilizou para ampliar seu trabalho na região para garantir a proteção e recomeço de quem foi forçado a deixar tudo para trás.

Entre os sobreviventes, encontram-se famílias que já escaparam da violência uma vez e agora fogem novamente para salvar suas vidas, carregando apenas o que podem e com pouco ou nenhum apoio social ou econômico nos locais de deslocamento.

As equipes do ACNUR estão em campo em toda a região, fornecendo serviços de proteção jurídica e social, itens de ajuda emergencial e abrigo seguro para famílias que perderam tudo. Estamos presentes nas fronteiras e dentro das áreas afetadas, apoiando os mais necessitados e nos preparando para auxiliar muitos outros à medida que a situação evolui.

Considere apoiar nosso trabalho hoje para garantir que famílias recebam abrigo, alimentos e segurança.

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