"Hoje sou doutor, mas não seria nada disso se não fosse o auxílio no início"
"Hoje sou doutor, mas não seria nada disso se não fosse o auxílio no início"
Durante Rio Innovation Week, Delmany (à direita) compartilhou sua história de vida em palestra mediada pela Apoiadora de Alto Perfil do ACNUR, Danni Suzuki.
Delmany Rodrigues tinha apenas 8 anos quando chegou ao Rio de Janeiro, em 1994. Ele e o irmão foram trazidos pela mãe, Dona Amélia, que foi forçada a deixar Angola para protegê-los do agravamento da guerra civil que aterrorizava o país. Depois de uma passagem pela Espanha, a família seguiu para o Brasil, onde construiu um lar.
“A minha mãe tinha medo da rusga. Eram carros militares com caçamba que levavam os meninos maiores. Minha mãe sabia que mais cedo ou mais tarde a rusga podia levar seus filhos para a guerra. As mães escondiam os filhos homens”, relembra.
A decisão de partir trouxe novos desafios. A família pertencia à classe média em Angola, mas passou por dificuldades financeiras no Brasil. Ao decidir permanecer no Rio com os filhos, Amélia perdeu o emprego que tinha no país de origem e precisou solicitar refúgio.
Foi no atendimento humanitário da Cáritas e da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) que os três encontraram apoio para recomeçar. No início, receberam acolhimento e orientação para obter documentos e acessar serviços sociais, principalmente de saúde. Ao longo da infância e da adolescência, Delmany e o irmão também receberam cestas básicas, material escolar, auxílio para pagar o aluguel e cursos de qualificação profissional.
“Sempre nos ajudaram a conseguir o que precisávamos. Lembro até hoje de minha mãe conseguir remédios com apoio do ACNUR.”
Na primeira foto, Delmany e seu irmão crianças, em Angola. Hoje, com 40 anos, em sua clínica no Rio de Janeiro.
Para o menino, o mais difícil foi a integração. “Além da dificuldade do idioma e de viver todas as mudanças de casa, lembro da dificuldade de acompanhar a escola. Primeiro, aprendia a história de Angola, de Luanda. Depois, a história espanhola. Depois, a história do Brasil. Essa adaptação no início foi a mais difícil.”
Com o tempo, a família encontrou caminhos para se integrar, sempre em busca de capacitação. Delmany se formou primeiro em Educação Física, por meio de políticas públicas voltadas a estudantes de baixa renda. Depois, cursou Fisioterapia no Centro Universitário Maurício de Nassau (UNINASSAU), com uma bolsa viabilizada por um convênio da Cátedra Sérgio Vieira de Mello, do ACNUR.
“Há duas décadas, a nossa realidade era bem diferente. Enquanto eu conciliava os estudos, passava os dias vendendo chip de celular na rua. Correndo atrás, batalhando espaço e sonhando alto. O tempo passou, os caminhos mudaram, e hoje tenho o orgulho de liderar minhas próprias clínicas de fisioterapia e osteopatia.”
Mais de 30 anos depois da chegada ao Brasil, ele resume o que o apoio significou: “Foi um divisor de águas na nossa vida. Hoje as pessoas me chamam de doutor, tenho clínica e virei empresário. Mas eu não seria nada disso se não tivesse recebido esse auxílio lá no início. O suporte nos deu comida, remédio e acesso ao estudo. Formou cidadãos.”
Histórias como a dele, no entanto, dependem de recursos que estão cada vez mais escassos. O ACNUR enfrenta uma das piores crises de financiamento de sua história: até 9 de outubro, a agência contava com US$ 3 bilhões, o equivalente a 35% dos US$ 8,5 bilhões necessários para 2026, em um momento em que o número de pessoas forçadas a deixar suas casas segue perto de níveis recordes.
Segundo relatório recente, quase 8,3 milhões de refugiados e outras pessoas deslocadas correm o risco de perder a assistência da qual dependem. Apoiar o ACNUR é o que permite que famílias como a de Dona Amélia continuem encontrando comida, remédio, documentação e acesso ao estudo para recomeçar, e que outras crianças como Delmany possam, um dia, contar a mesma história.