Mediadores interculturais apoiam a inclusão e autossuficiência de pessoas refugiadas no Brasil
Mediadores interculturais apoiam a inclusão e autossuficiência de pessoas refugiadas no Brasil
Josefina é mediadora intercultural voluntária para questões de saúde e educação em sua comunidade Warao no Pará
Inúmeros aplicativos auxiliam a traduzir idiomas, falar melhor e enviar mensagens. Entretanto, só há comunicação quando há também entendimento entre os interlocutores e, para isso, é necessário interpretar a linguagem não-verbal, o contexto, a cultura. É o que faz um mediador intercultural: atua como ponte, ajuda a facilitar a comunicação, o entendimento e a convivência entre pessoas de origens distintas. Neste ano, a função foi incluída na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), um reconhecimento destes profissionais que têm sido tão relevantes para a inclusão de pessoas refugiadas e em necessidade de proteção internacional no Brasil.
“No contexto de deslocamento forçado, o mediador intercultural precisa construir vínculos. Como é que a pessoa vai contar sua história se ela não confia? Como vai confiar no profissional se ela não sabe quem é? Então, o mediador precisa criar um vínculo verdadeiro”, explica José Lopez, venezuelano que está no Brasil desde 2016.
Para Jose, a função de mediador intercultural exige mais do que saber idiomas, mas criar conexões verdadeiras com as famílias atendidas.
Lopez atua como mediador intercultural em Belém (PA), apoiando o governo municipal no processo de acolhida e inclusão de pessoas refugiadas e migrantes. Formou-se bombeiro na Venezuela e é graduado em Comunicação Visual com especialidade em desenho editorial. Trabalhou em organizações não-governamentais com terapia comunitária integrativa e ioga na educação. É casado com uma brasileira que morou na Venezuela por 15 anos. Ele acredita que essa versatilidade de formações e vivências contribuem para que tenha uma melhor compreensão social e consiga exercer sua função.
O primeiro trabalho de José como mediador intercultural no Pará foi em setembro de 2017, junto à Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho e Renda (SEASTER), na recepção dos primeiros grupos de indígenas da etnia Warao. “Ninguém sabia o que fazer, ninguém estava entendendo nada. Eles [os indígenas] só falavam Warao e alguns espanhol. Mas ninguém estava conseguindo mediar, nem dialogar com eles para saber o que queriam e porque estavam aqui. Então, eu fui lá na secretaria me apresentar a convite de uma amiga antropóloga”.
Atualmente, trabalha no Serviço de Acolhimento Institucional para Refugiados e Migrantes Indígenas da Etnia Warao da Prefeitura de Belém. Seu trabalho e contribuição já lhe renderam o título honorário de Cidadão de Belém na Câmara Municipal e Honra ao Mérito concedida pela OAB do Pará.
Desde que José começou seu trabalho, 1300 indígenas Warao chegaram ao Pará – dos quais 900 estão na região metropolitana de Belém. Para facilitar o acesso a direitos fundamentais e serviços públicos, foram formados mediadores interculturais, muitos deles da própria comunidade Warao. Em 2024, 20 indígenas refugiados participaram de uma formação de interpretação comunitária oferecida pelo Grupo Mobilang da Universidade de Brasília (UnB) em parceria com o ACNUR e apoio do Instituto Internacional de Educação do Brasil (IEB) e o Conselho Warao Ojiduna (CWO).
Norberto e Josefina são casados e participaram do curso. Ele trabalha na Secretaria Municipal de Cidadania, Assistência Social e Trabalho de Ananindeua (SEMCAT) e também realiza a função voluntariamente com a esposa Josefina em sua comunidade. Os dois estiveram em Brasília entre 7 e 11 de abril para participarem da 21ª edição do Acampamento Terra Livre (ATL), maior encontro de mobilização indígena do Brasil, e contaram como exercem a função de mediador intercultural para suas comunidades.
Enquanto expunha seus artesanatos na feira do ATL, Josefina contou que para fazer o trabalho de mediadora intercultural tem sempre um caderno e caneta na mão e se sente muito feliz ao escutar e ajudar seu povo Warao, que tem muita dificuldade de ser compreendido aqui no Brasil. Ela apoia em situações de saúde e educação.
No âmbito da saúde, o aplicativo LUA (Linguagem Universal Acessível) desenvolvido pela UnB e implementado por meio do Fundo de Inovação Digital do ACNUR está sendo testado junto à Secretaria Municipal de Saúde de Belém com o objetivo de aprimorar a comunicação entre os povos indígenas Warao e os profissionais de saúde. Saiba mais aqui.
A classificação ocupacional de mediador intercultural está inserida na CBO na categoria de Trabalhadores de atenção, defesa e proteção a pessoas em situação de risco e adolescentes em conflito com a lei. A demanda surgiu da sociedade civil e apareceu também nas propostas priorizadas da 2ª Conferência Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia, no Eixo 2 sobre Inserção socioeconômica e promoção do trabalho decente.
“A inclusão dessa ocupação na CBO traz reconhecimento para profissionais que têm se mostrado fundamentais no acolhimento de pessoas refugiadas e na realização de nosso trabalho. Em termos práticos, possibilita a contratação formalizada de pessoas para essa função e garante que possam ter acesso a direitos e benefícios a partir de sua atuação profissional. Contribui ainda para os esforços que têm sido empreendidos para o estabelecimento da Política Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia” destaca Davide Torzilli, Representante do ACNUR no Brasil.
Além de “traduzir” o novo país para pessoas refugiadas, apoiar em tratamentos de saúde e inclusão social, os mediadores também contribuem para a inserção destas pessoas no mercado de trabalho, provando ser uma função fundamental para a promoção da autonomia e autossuficiência desta população no Brasil. É o caso de Steve, mediador intercultural na Missão Paz, em São Paulo, que apoia no atendimento da comunidade haitiana em busca por oportunidades no mercado de trabalho brasileiro. Confira a história completa aqui.
Para a Coordenação-Geral do Comitê Nacional para os Refugiados (CG-Conare), a criação deste CBO representa um avanço rumo à garantia do acolhimento e integração local de refugiados, migrantes e apátridas no Brasil.
“Países como França e Canadá já adotam essa figura [dos mediadores interculturais] para contextos de atendimento a refugiados e migrantes, no intuito de qualificar a comunicação em um nível mais profundo do que apenas da língua, incorporando também a mediação entre distintas concepções e compreensões acerca de direitos, educação, saúde, cuidado, etc.”, comenta Amarílis Busch Tavares, Coordenadora-Geral do CG-Conare.
Mediadores interculturais salvam vidas
A terapeuta ocupacional Rita Buttes coordena a Área Técnica da Saúde dos Imigrantes, Refugiados e Apátridas da Secretaria Municipal da Saúde (SMS) de Porto Alegre. É de lá que vem a iniciativa referência para o início do processo de reconhecimento da ocupação de mediadores interculturais na CBO. A motivação para pensar a saúde desta população veio com a intensificação da chegada de haitianos na capital gaúcha em 2014. Quando Rita começou a coordenar a área técnica, em 2018, era crescente também a presença de senegaleses e venezuelanos que chegavam por meio da Estratégia de Interiorização da Operação Acolhida.
“Em 2021 a gente começa a fazer um levantamento a partir do e-SUS*. Tínhamos um dado aproximado que eram em torno de 30 mil migrantes em Porto Alegre e apenas 10% dessa comunidade acessavam a atenção primária à saúde. A barreira linguística era um dos principais motivos, mas é também ausência de conhecimento do Sistema Único de Saúde”.
Rita conta que alguns profissionais da saúde já usavam aplicativo de tradução, mas a ferramenta não era efetiva para casos em que a pessoa falava um dialeto e que as traduções não garantiam entendimento e impactavam no acompanhamento dos casos.
“Porque a pessoa entendeu um pouco ou parcialmente não quer dizer que ela entenda qual é o procedimento a seguir, onde deve ser feito exame, qual serviço ela deve buscar, onde fica a farmácia distrital, onde consegue a medicação. Às vezes a pessoa até acessava, mas não seguia fazer o tratamento, não trazia os exames de retorno porque não havia esse entendimento”, comenta Rita.
Para justificar a necessidade de mediadores interculturais na SMS, foi necessário registrar as demandas atendidas e não atendidas, fazer um diagnóstico que passou a constar no relatório da gestão da secretaria. A formalização foi fundamental para conseguir financiamento na lei orçamentária anual. Atualmente, a Prefeitura de Porto Alegre conta com quatro mediadores interculturais contratados: dois haitianos, uma senegalesa e uma venezuelana.
Absa Wade deixou o Senegal há oito anos e veio para o Brasil em busca de proteção e acolhimento. Foi cuidadora de crianças e idosos e é promotora de saúde para população negra. Como mediadora intercultural na SMS de Porto Alegre, ela já vivenciou casos marcantes em seu dia a dia de trabalho.
Absa trabalha na Secretaria Municipal de Saúde de Porto Alegre desde novembro de 2021, com apoio especial à comunidade senegalesa.
“Consegui ajudar um senegalês com questões de saúde mental que estava vivendo na rua. Com a mediação, pude ajudá-lo a se tratar e voltar ao país de origem. Gosto muito quando eu consigo resolver ou ajudar uma pessoa que precisa”, celebra Absa.
O projeto Mediadores Interculturais concedeu à SMS de Porto Alegre reconhecimento nacional no Prêmio APS Forte no SUS: integralidade no cuidado, promovido pelo Ministério da Saúde e Organização Pan-Americana da Saúde no Brasil (Opas). Após a conquista da inclusão na CBO, Rita conta que para o futuro gostaria que fosse criada uma capacitação técnica para formar estes profissionais.
* E-SUS é uma estratégia da Secretaria de Atenção Primária (Saps) para reestruturar as informações da Atenção Primária à Saúde (APS) em nível nacional