Enchentes em Moçambique deslocam quase 400 mil pessoas e agravam riscos de proteção
Enchentes em Moçambique deslocam quase 400 mil pessoas e agravam riscos de proteção
Choques climáticos recorrentes voltam a provocar deslocamentos em massa em Moçambique. Desde o início do ano, enchentes severas atingiram comunidades nas regiões sul e centro do país, áreas já afetadas por outros eventos climáticos extremos, como tempestades tropicais, ciclones e secas. As enchentes mais recentes deslocaram cerca de 392 mil pessoas, aumentando a pressão sobre um país que já enfrenta um conflito no norte, responsável pelo deslocamento de mais de 300 mil pessoas apenas no último trimestre de 2025.
Nas províncias mais afetadas, incluindo Gaza, Maputo e partes do centro de Moçambique, o nível das águas subiu rapidamente, deixando pouco tempo para que as famílias se preparassem e forçando-as a fugir sem pertences essenciais, inclusive documentos de identidade. Pais relataram fugas caóticas para áreas mais elevadas, com algumas crianças separadas de suas famílias durante o deslocamento, enquanto pessoas idosas e com deficiência tiveram dificuldades para acompanhar o ritmo da evacuação.
Medidas preventivas e uma resposta rápida liderada pelo governo, coordenada com parceiros humanitários e com apoio do setor privado, ajudaram a evitar uma perda de vidas ainda maior. Apesar das severas restrições de acesso e das condições desafiadoras, cerca de 20 mil pessoas foram evacuadas por via aérea, aquática e terrestre, utilizando todos os meios de transporte disponíveis.
Estima-se que cerca de 100 mil pessoas estejam atualmente abrigadas em, aproximadamente, 100 centros temporários, incluindo escolas e prédios públicos. A superlotação nesses locais é grave e aumenta os riscos de proteção. Muitos centros, especialmente em áreas remotas, carecem de privacidade adequada, iluminação e serviços básicos, criando condições perigosas para as pessoas mais vulneráveis. Mulheres e meninas enfrentam riscos elevados de violência de gênero, exploração e abuso sexual. Muitas estão angustiadas e necessitam de apoio psicossocial imediato, em um contexto de deslocamentos repetidos ligados às grandes enchentes de 2000 e 2013. Ao mesmo tempo, pessoas idosas e com deficiência enfrentam dificuldades para acessar assistência em locais que não foram projetados para atender às suas necessidades.
Muitas pessoas permanecem isoladas nas áreas mais afetadas, sem acesso devido a estradas danificadas e terrenos alagados. Embora as chuvas mais intensas pareçam ter diminuído por enquanto, o acesso continua difícil, deixando famílias deslocadas isoladas e à espera de assistência. Estradas inundadas e pontes destruídas estão dificultando o acesso humanitário e atrasando a entrega de serviços às populações afetadas. A destruição de infraestruturas críticas, incluindo estradas, sistemas de água, escolas e unidades de saúde, está agravando as preocupações de proteção e interrompendo serviços essenciais. Escolas e unidades de saúde foram danificadas ou passaram a ser utilizadas como centros de acolhimento.
Em parceria com outras organizações, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) está apoiando o governo na prestação de assistência essencial, especialmente na província de Gaza. Equipes móveis de proteção estão identificando e respondendo aos riscos mais críticos enfrentados pelas pessoas mais expostas. Também estão em curso esforços para fortalecer mecanismos de prevenção e resposta, incluindo apoio à saúde mental e psicossocial. No entanto, a resposta humanitária está sob forte pressão. Esta emergência se soma ao deslocamento contínuo relacionado ao conflito no norte de Moçambique, que já esgotou os estoques disponíveis. Desafios de acesso, falta de financiamento e a dimensão das necessidades estão limitando a capacidade dos parceiros de estabilizar centros superlotados e alcançar, em tempo hábil, quem precisa de ajuda.
Esta crise evidencia a vulnerabilidade de Moçambique à convergência de múltiplos choques, que vão do conflito aos eventos climáticos extremos. Com a previsão de continuidade das chuvas e a manutenção de altos riscos de enchentes, novos deslocamentos são possíveis. O apoio internacional urgente é fundamental para ampliar a assistência vital e os serviços de proteção, reforçar comunidades anfitriãs sobrecarregadas e evitar a deterioração das condições de vida das famílias deslocadas.
O ACNUR em Moçambique necessita de 38,2 milhões de dólares em 2026 para atender às necessidades crescentes em todo o país e manter serviços essenciais de proteção e assistência básica para refugiados, pessoas deslocadas internamente e comunidades anfitriãs.