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Como projetos ambientais podem gerar renda e proteção para pessoas refugiadas

Discursos e declarações

Como projetos ambientais podem gerar renda e proteção para pessoas refugiadas

Novo fundo do ACNUR conecta reflorestamento e cozinhas sustentáveis a financiamento climático de longo prazo
1 May 2026
Duas mulehres sentadas em apresentação de painel diante de plateia.

Pilar Pedrinelli, gerente de Financiamento inovador no ACNUR, lidera o REP Fund

O ACNUR está lançando uma nova forma de financiar ações humanitárias em contextos de deslocamento forçado: usar projetos ambientais para gerar recursos ao longo do tempo. A proposta conecta iniciativas como o plantio de árvores e o uso de fogões mais eficientes a mecanismos de financiamento climático, criando uma alternativa a modelos tradicionais, baseados em doações de recursos.

O Fundo de Proteção Ambiental para Refugiados (Refugee Environmental Protection - REP Fund), lançado durante a COP 30 (Belém, 2025), tem como meta, para os primeiros 10 anos, restaurar mais de 100 mil hectares de terra e expandir o acesso à energia limpa para 1 milhão de pessoas mundialmente.

Os primeiros projetos já começaram a ser implementados em Ruanda e Uganda —combinando reflorestamento, métodos de cozimento limpos e geração de empregos verdes, reduzindo emissões de CO₂ e receitas de créditos de carbono reinvestidas localmente. O Brasil e Bangladesh estão entre os próximos países previstos a ter uma aplicação da iniciativa. Por aqui, um estudo de viabilidade foi conduzido na Terra Indígena São Marcos, em Roraima, que verificou potencial para restauração ambiental e geração de créditos de carbono com forte participação das comunidades locais.

"Estamos conectando assistência humanitária, ação climática e financiamento baseado no mercado em um único modelo, com garantias robustas e participação das comunidades. Isso permite ir além de ciclos de financiamento de curto prazo e começar a construir soluções de longo prazo, que geram receita, em alguns dos contextos mais subfinanciados do mundo."

Pilar Pedrinelli, que lidera o REP Fund

Em entrevista para a newsletter Parcerias & Sustentabilidade do ACNUR no LinkedIn, Pilar Pedrinelli, gerente de Financiamento inovador no ACNUR, com base em Genebra, na Suíça, explica como o modelo funciona na prática e por que ele pode abrir caminho para soluções mais sustentáveis no setor humanitário com o apoio do setor privado.

Além de reduzir emissões de poluentes e recuperar o meio ambiente, a iniciativa busca melhorar a segurança, a saúde e as oportunidades de renda de pessoas refugiadas e comunidades de acolhida. Ao mesmo tempo, abre uma nova frente de atuação para o setor privado, ao oferecer acesso a projetos com alto potencial de impacto social e ambiental, além de oportunidades de engajamento de longo prazo por meio do mercado de créditos de carbono e de parcerias estratégicas.

Entrevista / Pilar Pedrinelli, gerente de Financiamento inovador no ACNUR

O que é o REP Fund e por que ele representa um modelo de financiamento inovador dentro do ACNUR?
O Refugee Environmental Protection (REP) Fund é a principal iniciativa do ACNUR para levar financiamento climático a contextos de deslocamento forçado de forma estruturada e escalável. No centro do modelo está a conexão entre ações de reflorestamento em larga escala e soluções de cozinha limpa com os mercados de carbono, permitindo que projetos em áreas de acolhimento de refugiados gerem créditos de carbono verificados e, ao longo do tempo, se tornem financeiramente sustentáveis.

O que torna essa iniciativa inovadora é a forma como esses elementos se integram. Estamos conectando assistência humanitária, ação climática e financiamento baseado no mercado em um único modelo, com garantias robustas e participação das comunidades. Isso permite ir além de ciclos de financiamento de curto prazo e começar a construir soluções de longo prazo, que geram receita, em alguns dos contextos mais subfinanciados do mundo.

Como o REP Fund conecta ação climática com proteção e assistência a refugiados e que impactos são esperados?

Em contextos de deslocamento forçado, a degradação ambiental e os riscos à segurança estão diretamente ligados. A coleta de lenha, por exemplo, além de contribuir para o desmatamento, expõe mulheres e crianças a riscos importantes. O Fundo enfrenta esse desafio ao combinar soluções de cozinha limpa com reflorestamento e restauração de ecossistemas.

A cozinha limpa reduz a dependência de biomassa e diminui rapidamente tanto emissões quanto riscos à segurança, enquanto ações de restauração recuperam recursos naturais e criam meios de subsistência. O impacto é duplo: reduzir emissões e restaurar ecossistemas e, ao mesmo tempo, melhorar segurança, saúde e oportunidades econômicas de refugiados e comunidades de acolhida. Com o tempo, a receita gerada pelos créditos de carbono permite manter esses benefícios e reinvesti-los localmente, inclusive com a criação de empregos verdes.

Como os projetos estão sendo estruturados em Ruanda e Uganda?

Este é um momento muito emocionante para nós e para o setor humanitário, especialmente com o anúncio dos nossos parceiros implementadores no início de abril. Esses projetos combinam a distribuição de fogões limpos em grande escala com atividades de reflorestamento e sistemas de monitoramento de longo prazo.

A execução é feita por consórcios do setor privado e ONGs, enquanto o ACNUR supervisiona para garantir o alinhamento com padrões de proteção, diretrizes dos governos e exigências do mercado de carbono. O objetivo nesta fase é demonstrar que este modelo pode ser implementado em escala, com alta integridade, gerando créditos de carbono verificados que possam sustentar o financiamento em longo prazo. Esses projetos-piloto são essenciais para validar tanto aspectos operacionais quanto financeiros do modelo.

Como funciona a conexão com os créditos de carbono e como o setor privado pode se engajar?

O modelo gera créditos de carbono de duas formas: por emissões evitadas, com o uso de cozinhas limpas, e por emissões removidas, por meio do reflorestamento. Esses créditos seguem padrões internacionais e podem ser adquiridos por empresas com compromissos climáticos. O ponto central é que isso cria uma fonte de receita de longo prazo. Em vez de depender apenas de doações, os projetos passam a gerar recursos ao longo do tempo, que podem ser reinvestidos nas comunidades e ampliados.

Para o setor privado, isso significa acesso a créditos de alta integridade, com benefícios sociais e ambientais relevantes. Ao longo do tempo, empresas podem se envolver com o ACNUR por meio de compras antecipadas, contratos de longo prazo ou parcerias mais amplas ligadas a metas de sustentabilidade. Os primeiros créditos são esperados a partir de 2027, dependendo das certificações.

Quais são os próximos passos do REP Fund?

Após os projetos iniciais em Ruanda e Uganda, o foco é consolidar a implementação e preparar novos projetos. Já há iniciativas em desenvolvimento em Cox’s Bazar, em Bangladesh, e um estudo de viabilidade concluído no Brasil, além da exploração de oportunidades em outras regiões da África, da Ásia e da América Latina. O pipeline atual inclui 17 países. A prioridade é garantir que os primeiros projetos sejam implementados com qualidade e possam servir de base para a expansão. A partir disso, o modelo pode ser adaptado a diferentes contextos e ampliado.

O que o estudo de viabilidade apontou para a aplicação no Brasil?

O ACNUR concluiu um estudo de viabilidade na Terra Indígena São Marcos, em Roraima. O processo mostrou que é possível desenvolver um projeto de créditos de carbono viável, tanto do ponto de vista técnico quanto jurídico, alinhado à governança comunitária e às regras nacionais. Também identificou potencial relevante para restauração ambiental e geração de créditos de carbono.

A consulta sobre o estudo envolveu as 49 comunidades do território e foi aprovado na Assembleia dos Tuxauas (líderes indígenas), o que garante legitimidade e participação local — elementos essenciais para esse tipo de iniciativa. As próximas etapas também irão seguir os protocolos de consulta livre, prévia e informada. O Brasil se destaca pela combinação entre liderança indígena, pressão ambiental na Amazônia e a evolução do mercado de carbono no país. Isso abre espaço para modelos que unam integridade técnica e governança local.

O que torna o contexto brasileiro único?

O diferencial está na força da governança indígena e no papel central das comunidades nas decisões. A Terra Indígena São Marcos faz parte da Amazônia Legal, região essencial para o equilíbrio climático global. Projetos como esse só avançam com Consentimento Livre, Prévio e Informado, seguindo a Convenção 169 da OIT, e com estruturas que garantam a autonomia das comunidades.

Mais do que uma exigência, isso fortalece o modelo, baseado em confiança, legitimidade e visão de longo prazo. A governança indígena se baseia em decisões coletivas, responsabilidade entre gerações e uma relação integrada com a natureza — algo essencial na Amazônia, onde a restauração envolve dimensões ambientais, sociais e culturais. O Fundo foi desenhado para atuar dentro dessas estruturas, fortalecendo-as.

Por que o setor privado deve prestar atenção às regiões afetadas por deslocamentos forçados ao pensar em investimentos em clima e sustentabilidade?

Regiões afetadas por deslocamento forçado estão entre as que têm menos financiamento para questões climáticas, apesar de enfrentarem grandes desafios ambientais. Para empresas, atuar nesses contextos significa gerar impacto e acessar oportunidades ainda pouco exploradas, muitas vezes próximas de suas cadeias de valor. Esses investimentos contribuem para a estabilidade e a resiliência dessas regiões. Além disso, esses projetos oferecem benefícios sociais claros e resultados climáticos confiáveis — fatores cada vez mais relevantes para estratégias corporativas.

Qual mensagem você quer deixar para empresas interessadas em se envolver com soluções climáticas de alto impacto e que também gerem resultados sociais?

Existe hoje uma oportunidade concreta de apoiar soluções que combinam impacto climático e social. O mais importante é ir além de ações pontuais e apostar em parcerias de longo prazo — por meio de compras antecipadas de créditos, apoio estratégico ou participação no desenvolvimento dos projetos.

O Fundo REP oferece um caminho estruturado, com projetos em andamento, garantias sólidas e foco em resultados consistentes. Participar desde o início permite ajudar a moldar esse modelo e expandir o mercado de carbono para contextos historicamente excluídos — além de integrar uma das primeiras iniciativas desse tipo no setor humanitário.

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Há outras iniciativas de financiamento inovador em desenvolvimento no ACNUR?

Sim. O ACNUR também está desenvolvendo outras soluções de financiamento inovador para enfrentar a falta de recursos em contextos de deslocamento. Entre elas estão modelos de financiamento misto, mecanismos baseados em resultados e instrumentos que permitem respostas rápidas e escaláveis em situações de crise climática. As prioridades incluem energia sustentável, desenvolvimento de mercados em contextos de deslocamento forçado e fortalecimento da autonomia econômica de refugiados.

O objetivo é avançar para modelos mais estáveis, previsíveis e escaláveis, capazes de mobilizar capital privado, se alinhar a sistemas nacionais e gerar resultados concretos ao longo do tempo. No conjunto, essas iniciativas apontam para uma evolução no papel do ACNUR, que passa a atuar também como agente relevante na estruturação de soluções financeiras inovadoras em contextos frágeis e com poucos recursos.

Glossário

Créditos de carbono
💡 “Moedas do clima”: cada crédito representa menos poluição no planeta.

Mercado de carbono
💡 Onde empresas compram esses créditos para compensar suas emissões.

Biomassa
💡 Material natural usado como combustível, como lenha.

Cozinha limpa
💡 Fogões mais seguros que substituem a lenha — menos fumaça, menos desmatamento.

Empregos verdes
💡 Trabalhos que ajudam a proteger o meio ambiente — como reflorestamento, energia limpa ou gestão sustentável de recursos.

Reflorestamento
💡 Plantar árvores para recuperar áreas degradadas.

Remoção de carbono
💡 Tirar poluição do ar, por exemplo com árvores.

Emissões evitadas
💡 Poluição que deixa de acontecer graças a uma solução.

Emissões removidas
💡 Poluição que já estava no ar e foi retirada — por exemplo, quando árvores absorvem carbono da atmosfera.

Convenção 169 da OIT
💡 A Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho é um tratado internacional que reconhece e protege os direitos dos povos indígenas e tribais, incluindo sua terra, cultura e consulta prévia.

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