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“A luta indígena é a luta de todos”

Histórias

“A luta indígena é a luta de todos”

No marco do Dia Internacional dos Povos Indígenas do Mundo, celebrado em 9 de agosto, conheça a liderança indígena venezuelana Alida Gómez
6 Agosto 2026
Alida usa colares de contas amarelas posa ao ar livre durante o dia. A imagem foi feita em ângulo baixo, destacando a pessoa contra o céu parcialmente nublado. Ao fundo, aparecem árvores desfocadas e parte de uma tenda, criando um contexto de evento realizado em área aberta.

Alida se diz uma “mulher empreendedora, líder e decidida em relação as coisas que quer fazer”.

Aos 53 anos, Alida se reconhece, com firmeza, como uma liderança indígena Warao.

“Hoje sou uma líder de verdade. E não é porque sou boa, mas porque faço acontecer. Líder é a pessoa que trabalha, que está a frente da batalha”, explica.

Mas a história de Alida prova que ela é uma liderança há muito tempo. A filha de cacique é mãe de três filhos e formada em pedagogia. Atualmente, ocupa a posição de vice-presidente do Conselho Indígena Najakara Mooru (Cinamo) organização representativa do povo indígena com sede na comunidade Warao a Janoko no município de Cantá, Roraima. Antes disso, já liderava grupos de mulheres indígenas nos abrigos onde viveu em Pacaraima e Boa Vista.

“Me sinto muito contente de estar à frente de uma associação civil de comunidades indígenas onde se encontram dois povos diferentes da Venezuela, Kari’ñas e Warao, cada um com seus costumes. O objetivo da associação é zelar pela segurança da comunidade em todos os espaços: na educação, moradia, saúde”, relata.

Em 2019, mesmo ano em que Alida ingressou no Brasil, dados da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) mostravam que mais de 2,5 mil indígenas vieram da Venezuela em busca de proteção. Hoje em dia já são mais de 13.960 mil pessoas indígenas venezuelanas no país, de acordo com dados de março de 2026 extraídos do proGres, sistema do ACNUR voltado ao registro e à gestão de casos.

Na comunidade Warao a Janoko estão cerca de 150 pessoas de 28 famílias. Localizada a 35 quilômetros de Boa Vista (RR), conta com uma casa cultural, energia elétrica e banheiros. O ACNUR tem apoiado a comunidade por meio de um projeto de autoconstrução de casas. A comunidade se estabeleceu por esforço próprio na região e está, atualmente, trabalhando junto com a Prefeitura do Cantá, governo do estado de Roraima e o ACNUR para fazer parte da rota de turismo da região.

“A esperança é o movimento que impulsiona a vida. Meu sonho é ter uma comunidade organizada, com boas casas e com todos os serviços necessários. Que cada pessoa dê sua contribuição e impulsione o empreendimento voltado para o turismo, e que também o governo perceba isso. Nós, povos indígenas, somos trabalhadores e continuaremos sendo. Somos verdadeiros guerreiros neste país”, afirma Alida.

Pessoa segura um smartphone exibindo uma foto de um grupo reunido ao ar livre em uma área de solo arenoso. Em primeiro plano, são visíveis a mão que segura o aparelho e pulseiras coloridas no pulso. O fundo da cena está desfocado, destacando a tela do celular.

Orgulhosa, Alida mostra fotos do trabalho coletivo e do envolvimento das pessoas nas construções da comunidade.

Segundo a líder, a comunidade está organizada em grupos que compartilham seus saberes ancestrais: cultura, contação de histórias, dança e interculturalidade por meio das línguas. A comunidade fala Warao, Kari’ña e espanhol, além de conhecimentos básicos de português.

Na luta por reconhecimento, direitos e inclusão em políticas públicas

Em abril de 2026, Alida e outras lideranças Taurepang, Warao e Kari’ña representaram suas etnias e comunidades na maior mobilização dos povos indígenas do país, o Acampamento Terra Livre, em Brasília. Em articulação conjunta, o ACNUR e a Agência da ONU para Migrações (OIM) apoiaram a comitiva composta por 16 pessoas indígenas refugiadas e migrantes que se deslocaram dos municípios de Pacaraima e Cantá (RR), Manaus (AM), Belém e Ananindeua (PA) para a capital federal.

Mulher indígena em primeiro plano diante de um grande painel azul de evento ao ar livre. O painel exibe o texto “ATL Acampamento Terra Livre” e diversas ilustrações relacionadas a meio ambiente, energia, indústria e território. A pessoa usa colares de contas amarelas e está posicionada no centro da imagem, com a estrutura do evento e árvores ao fundo.

“É importante conhecer as leis brasileiras e indígenas, se não tivermos esse conhecimento, não poderemos expressar nossas ideias. Precisamos trabalhar com base nisso”.

Durante uma semana, as lideranças tiveram a oportunidade de participar de agendas e discussões políticas sobre seus direitos e se uniram às marchas com sete mil indígenas de todas as regiões brasileiras.

“Estou muito feliz por participar do ATL pela segunda vez. Nesse espaço, tive a oportunidade de participar de reuniões muito importantes com povos indígenas, representantes de direitos humanos e advogados. A questão da educação dos povos indígenas é uma das nossas bandeiras, e queremos continuar essa luta para o futuro”, explica.

Alida e outras mulheres indígenas Warao e Kari’ña participaram também do encontro Diálogos Fundo Brasil ONU: Rede Brasileira dos Povos Originários das Reservas da Biosfera e Sociobiodiversidade, organizado pela Unesco, com foco na valorização cultural e linguística a partir da produção de materiais educativos em dialetos indígenas.

Participação de Alida no encontro "Diálogos Fundo Brasil-ONU: Rede Brasileira dos Povos Originários das Reservas da Biosfera e Sociobiodiversidade", realizado pela UNESCO no ATL 2026

Para Alida, participar em debates e espaços como estes são oportunidades de reconhecimento e inclusão da população indígena venezuelana nas políticas públicas brasileiras por todas as esferas de governo.

“A luta indígena é a luta de todos. Espero que os indígenas venezuelanos sejam incluídos, e que não nos vejam como indígenas de outro país ou indígenas estrangeiros, mas sim como povos indígenas da América Latina que convivem com a mesma realidade e enfrentam os mesmos desafios.”

Alida participa de uma reunião segurando um microfone e falando enquanto está sentada em um ambiente coletivo. A imagem destaca Alida, quem está com a palavra, usando colares de contas amarelas, enquanto outras pessoas aparecem desfocadas ao redor e ao fundo, acompanhando a discussão.

“Líder é a pessoa que trabalha, que está à frente, que enfrenta a batalha, que vai a qualquer espaço onde possa ter a oportunidade de estar e falar”.

A participação de Alida e dos demais indígenas venezuelanos no Acampamento Terra Livre contou com apoio do Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia - uma iniciativa das Nações Unidas no Brasil, Consórcio Amazônia Legal, Governo do Brasil e financiamento do Governo do Canadá.