A arte de ensinar além das fronteiras
A arte de ensinar além das fronteiras
Professor venezuelano costura a ancestralidade indígena Taurepang com a trajetória acadêmica em projetos educacionais desenvolvidos no Brasil.
Franco Marval é o mais velho dos cinco irmãos criados em Santa Elena do Uairén, cidade da região de Gran Sabana na Venezuela. A mãe é indígena da etnia Taurepang e essa ancestralidade tem moldado sua história. Franco é o único da família que se tornou professor. Estudar e ensinar têm sido seu projeto de vida, junto com a meta de conhecer todos os estados brasileiros – já visitou 13. A inspiração para lecionar veio de seus professores, mas não só deles.
“Professores e a televisão. A gente está falando dos anos 90, quando eu era criança. [a televisão] era a única janela que tinha para conhecer o mundo. A partir dela eu percebi que tem muita coisa interessante para fazer. Os professores na escola falavam que estávamos em um pontinho do globo terrestre, que existia todo o mundo afora. Na universidade, os professores seguiam com o mesmo papo. Depois chegou a internet, a globalização se reforçou. Graças a esse a essas janelinhas é que eu pude construir meu projeto de vida” conta.
A cidade natal de Franco fica apenas 15 quilômetros de distância da fronteira com o município brasileiro de Pacaraima, no estado de Roraima. A proximidade geográfica fez com que ele tivesse convivência com a cultura nortista do Brasil, mas não com o idioma português.
“Acho que a gente se acostuma com a ideia de que entendemos o português e o espanhol e ninguém faz o esforço para falar, tanto do lado venezuelano como o lado brasileiro. Eu cresci falando a língua indígena Taurepang e a espanhola. O português nunca esteve inserido na minha vida”, relembra.
Em 2015, isso começou a mudar. Com o agravamento da crise na Venezuela e da doença renal crônica da mãe, ele e os irmãos foram para Boa Vista e solicitaram a condição de refugiado. Nesta mesma época, Franco decidiu que precisava aprender português. A determinação foi fundamental para ele conseguir ser naturalizado anos depois, revalidar seu diploma, concluir o mestrado e ser aprovado no doutorado.
Professor venezuelano é Orgulho de Roraima
Franco se graduou em Educação Intercultural Bilíngue na Universidad Pedagógica Experimental Libertador (UPEL), instituição pública da Venezuela dedicada à formação de professores e profissionais da educação, conhecida também como a La Universidad de los Maestros, “a universidade dos professores”. Apto a atuar com o ensino de espanhol e língua indígena Taurepang, ele trabalhou por sete anos no Ministério da Educação da Venezuela.
Em Boa Vista, enquanto lidava com a rotina hospitalar da mãe, estudou português para se comunicar com os médicos e se adaptar melhor ao Brasil. Fez o exame de proficiência, que era requisito para revalidação do diploma na época. Com o processo em andamento, ele começou a lecionar em uma escola particular da capital roraimense.
Foi a partir do trabalho nesta escola que Franco recebeu a Comenda Orgulho de Roraima, da Assembleia Legislativa do Estado. A honraria reconheceu o projeto desenvolvido junto a alunos do ensino fundamental. O grupo pesquisou as propriedades do tucupi negro, produzido a partir da fermentação da mandioca, para as comunidades indígenas conservarem carnes, já que muitas não possuem energia elétrica.
Contribuição do projeto de Franco e seus alunos às comunidades indígenas de Roraima lhe rendeu o reconhecimento na Assembleia Legislativa do Estado.
Do diploma revalidado à história de Macunaíma
Com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e da organização social Compassiva, o diploma de Franco foi revalidado pela Universidade Federal de Roraima (UFRR). Além da análise curricular, ele passou por uma entrevista detalhada de quatro horas de duração para testar seus conhecimentos.
“Lembro que a secretária da universidade me disse que eu estava levando um diploma de uma das melhores instituições de ensino da do Brasil. Ela me explicou o que as universidades federais representam para o país”, comenta.
A UFRR é uma das 54 instituições de ensino superior que fazem parte da Cátedra Sérgio Vieira de Mello e têm desenvolvido ações para fomentar o acesso e permanência de pessoas refugiadas no ensino superior.
"A revalidação de diplomas muda vidas. Não se trata apenas de abrir portas para melhores oportunidades de trabalho e renda, mas também de resgatar a identidade profissional de pessoas refugiadas. Significa poder voltar a fazer aquilo para o qual se prepararam durante anos, sentir-se útil, reencontrar um espaço de reconhecimento e colocar suas capacidades a serviço da sociedade que as acolhe", destaca Andrea Zamur, oficial assistente de proteção do ACNUR no Brasil.
Recente relatório de educação lançado pelo ACNUR indica que, no contexto global, a matrícula de refugiados no ensino superior atingiu o recorde de 11% em 2025, acima dos 9% registrados em 2024, com mais de 450 mil refugiados ingressando no ensino superior pela primeira vez. Esse aumento mantém o ACNUR e seus parceiros no caminho para alcançar a meta de 15% de matrícula de refugiados no ensino superior até 2030, por meio da ampliação do acesso a universidades, formação profissional, oportunidades de aprendizagem conectada e bolsas de estudo.
No ano de 2025, 344 pessoas com necessidade de proteção internacional tiveram seus diplomas revalidados no Brasil com apoio da Cátedra Sérgio Vieira de Mello.
Após o falecimento da mãe em Boa Vista, Franco e uma irmã mudaram para Caxias do Sul (RS) em 2024. Buscaram um lugar no Brasil que tivesse um clima parecido com a terra natal. A revalidação do diploma abriu portas para que ele pudesse fazer o mestrado em Letras e Cultura pela Universidade de Caxias do Sul.
Naturalizado brasileiro, Franco foi bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Em junho deste ano, defendeu sua dissertação em português e na língua Taurepang. A pesquisa A Cosmovisão das Histórias de Origem na Literatura Indígena Pemon-Taurepang foi avaliada com nota máxima.
Franco quer seguir aprofundando os estudos em línguas e interculturalidade indígena. Incentivado pela orientadora doutora em História, Cristine Fortes Lia, ele aplicou para o doutorado e foi aprovado. Vai estudar o personagem mítico Makunaimö, abordado por Mário de Andrade na sua obra Macunaíma: um herói sem caráter (1928). “Meu povo junto com os Makuxi e Wapichana somos descendentes desse ente sagrado”, contextualiza que o autor modernista se inspirou nas etnias para escrever o clássico.
A sala de aula como segunda casa
Franco foi aprovado em concurso público e, atualmente, é professor da Escola Estadual Professora Ivonne Lúcia Triches dos Reis. Em junho deste ano, o governo do Rio Grande do Sul, por meio da Secretaria da Educação, lançou o projeto Acolhe RS, para reduzir as barreiras de acesso e de aprendizagem vivenciadas por estudantes vindos de outros países. Franco faz parte do piloto implementado em Caxias do Sul, com a proposta de integração linguística e sociocultural para a inclusão.
“Temos aproximadamente 700 alunos matriculados na escola, dos quais 12% são refugiados e migrantes. Nós oferecemos de um processo de alfabetização na língua portuguesa. Estamos recebendo também vítimas do terremoto na Venezuela, então temos palestras iniciais em espanhol. A parceria com professores e alunos brasileiros tem sido incrível”, explica.
Além de Caxias do Sul, o projeto piloto Acolhe RS também está sendo implementado nos municípios de Erechim e Porto Alegre.
Como parte do Acolhe RS, ACNUR e UNESCO lançaram o guia Direito à educação de pessoas refugiadas e migrantes: formação para o acolhimento escolar. O objetivo é fortalecer práticas pedagógicas inclusivas nas escolas que devem promover transformação social, valorização da diversidade cultural e respeito aos direitos humanos. Saiba mais aqui.
Sua vez de inspirar estudantes
A trajetória acadêmica já levou Franco ao Peru e ao México. Os planos de seguir viajando são muitos. Além de completar os estados brasileiros, ele quer conhecer todos os municípios do Rio Grande do Sul.
“Sou muito aberto, então viajar faz parte do meu projeto de vida. No fim de semana, pego uma bicicleta e conheço muitos lugares. Eu estou muito apaixonado pelo país. Meus alunos me acompanham na rede social, me apoiam bastante. Eu os incentivo a conhecerem o estado, o município”, compartilha o professor.
Franco está comprando sua casa própria e pretende comprar um meio de transporte ano que vem. “Já sou concursado, pretendo terminar o doutorado e fico por aqui”, planeja.