Contratação formal de pessoas refugiadas aumenta no setor privado
Contratação formal de pessoas refugiadas aumenta no setor privado
Mais de 200 pessoas, representando empresas, organizações da sociedade civil, agências da ONU e governos, participaram do 5º Encontro Anual do Fórum Empresas com Refugiados
Mais pessoas refugiadas estão conseguindo ingressar no mercado formal de trabalho, com destaque para pessoas negras, mulheres e com mais de 50 anos. É o que aponta o Monitoramento Anual 2026 do Fórum Empresas com Refugiados, iniciativa da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e do Pacto Global da ONU – Rede Brasil. Os dados foram apresentados nesta quinta-feira, 5, durante o 5º Encontro Anual do Fórum Empresas com Refugiados, realizado em São Paulo (SP).
O Monitoramento Anual 2026 do Fórum Empresas com Refugiados reúne dados atualizados sobre a inclusão de pessoas refugiadas por empresas participantes da iniciativa. Neste ano, ele foi respondido por 75 representantes do setor privado e mostra avanços importantes na inclusão socioeconômica de pessoas refugiadas no Brasil. Entre as empresas participantes, 90,7% já realizam contratações desse público e, em 2026, foram registrados 22.656 funcionários trabalhando em regime CLT, um crescimento de 33,5% em relação ao levantamento do ano anterior.
O número de pessoas refugiadas contratadas pelas empresas analisadas mais que dobrou desde a adesão ao Fórum, com aumento de 105% entre a entrada na iniciativa e o monitoramento de 2026. Além da ampliação das oportunidades, os dados mostram a consolidação de práticas de inclusão e diversidade no ambiente corporativo.
Entre os profissionais contratados, 72,5% se declaram pretos ou pardos, 42,2% são mulheres e 12,3% têm mais de 50 anos. Pessoas vindas da Venezuela (56,2%) e do Haiti (22,5%) são os grupos mais representados entre as contratações. Entre os estados que mais contratam estão São Paulo (57,3% das vagas relatadas), seguido por Minas Gerais (26,7%) e Paraná (22,7%).
Para o representante do ACNUR no Brasil, Davide Torzilli, esses números são reflexo da ação integrada de diferentes setores a partir do Fórum Empresas com Refugiados.
“Em 2026, o Fórum Empresas com Refugiados completa cinco anos, com impactos significativos nas empresas participantes e na vida de milhares de pessoas refugiadas”, destaca o representante do ACNUR no Brasil. “Hoje, o Brasil acolhe mais de 1 milhão de pessoas que foram forçadas a se deslocar e que trazem consigo uma diversidade de conhecimentos e de experiências profissionais. Em um cenário de redução dos recursos destinados à resposta humanitária global, o engajamento, as parcerias e o apoio financeiro de diferentes setores tornam-se ainda mais relevantes para ampliar oportunidades de emprego, geração de renda e integração sustentável, contribuindo para soluções de longo prazo para a população refugiada”, completa.
O representante do ACNUR no Brasil, Davide Torzilli, destacou a importância da ação integrada para a promoção de empregos formais e dignos para pessoas refugiadas
Para o diretor executivo do Pacto Global da ONU - Rede Brasil, Rodrigo Favetta, quando o setor privado abre as portas para pessoas refugiadas, ganha em diferentes frentes. "Contratar pessoas refugiadas não é filantropia, é estratégia. As empresas que abrem espaço para esses talentos ganham em diversidade, inovação e produtividade, e ainda contribuem para uma sociedade mais justa. O Fórum Empresas com Refugiados mostra que o setor privado brasileiro tem um papel decisivo nessa integração", destaca.
Reconhecimento de habilidades e oportunidades de desenvolvimento
O Fórum Empresas com Refugiados reúne empresas e organizações do setor privado comprometidas com a inclusão produtiva, a diversidade e a promoção de oportunidades para pessoas que foram forçadas a deixar seus países de origem devido a conflitos, perseguições ou violações de direitos humanos.
De acordo com a diretora do Banco Mundial para o Brasil, Cécile Fruman, o primeiro passo para a promoção da inclusão laboral das pessoas refugiadas é reconhecer que elas têm um histórico profissional e que as habilidades apresentadas podem favorecer o ambiente empresarial – caminhos que vêm sendo trabalhados pela instituição.
"O Banco Mundial e o ACNUR vêm estudando como se dá a inclusão produtiva de pessoas refugiadas e migrantes no Brasil e o que favorece sua entrada e progressão no mercado de trabalho. O reconhecimento das habilidades adquiridas fora do país é um gargalo chave para os refugiados no mercado de trabalho", afirma.
Além da abertura de vagas para pessoas em necessidade de proteção internacional, as empresas do Fórum têm investido em oferecer condições para que essas pessoas, de fato, se integrem e alcancem autonomia. Nesse sentido, o Fórum tem se estruturado como um espaço de troca de experiências, disseminação de boas práticas e construção conjunta de soluções para apoiar empresas em processos de recrutamento, contratação, integração e retenção de pessoas refugiadas no mercado de trabalho formal. A iniciativa também atua na sensibilização de lideranças e equipes, contribuindo para que a inclusão aconteça de forma estruturada e sustentável dentro das empresas.
“O acesso ao mercado de trabalho é fundamental para que pessoas refugiadas e migrantes conquistem autonomia financeira, construam vínculos com a sociedade brasileira e reconstruam seus projetos de vida”, completa a coordenadora-geral do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Amarílis Busch Tavares. “No Programa Nacional de Acolhida Humanitária por Patrocínio Comunitário, que já viabilizou a chegada de mais de 540 afegãos ao Brasil, temos acompanhado como as oportunidades de emprego, oferecidas por empresas de diferentes setores, contribuem para esse processo. Nosso desafio é ampliar essas parcerias e garantir que a integração profissional não se limite ao primeiro emprego, mas permita também o reconhecimento das qualificações e o desenvolvimento de carreiras”, ressalta.
Histórias de superação e inclusão por meio do emprego
A importância do emprego formal no país de acolhimento foi reforçada durante o evento por meio de relatos de pessoas que precisaram fugir do país de origem e encontraram no Brasil uma oportunidade de recomeço. Em painel dedicado a esses relatos, duas pessoas refugiadas formalmente empregadas no Brasil foram entrevistadas pelo jornalista Chico Felitti.
O jornalista Chico Felitti conduziu conversa com o congolês Tifani Ndangi Basakinina e a venezuelana Richeily Hernandez
Há quase 13 anos no Brasil, Tifani Ndangi Basakinina deixou a República Democrática do Congo com a família após sofrer perseguição política. Da época da chegada, ele lembra os desafios – precisou dormir na rua com a família até encontrar abrigo, passou por situações de xenofobia e, depois de estabelecido, teve que priorizar a busca por renda sobre os estudos. Mas as dificuldades não o fizeram desistir. A partir de seu histórico de engajamento político, em 2023 ele foi um dos 32 refugiados e migrantes eleitos para o Conselho Municipal de Imigrantes (CMI) de São Paulo, onde exerceu o mandato por dois anos. “Trabalhar essa pauta é algo que sempre gostei, me sinto representado”, diz.
Hoje, com 32 anos e diferentes cursos de formação para o mercado de trabalho brasileiro, ele integra a área de Responsabilidade Corporativa na construtora Tenda. Há pouco mais de um ano, ele é responsável pelas parcerias institucionais do programa Reconstrução, voltado para a empregabilidade de pessoas refugiados e migrantes, e que também se estende para atividades de empreendedorismo, educação e ações sociais.
“Eu precisei entrar no personagem para poder esquecer meu passado e encarar o futuro”, afirma. “Tento todos os dias levantar com a cabeça erguida e não deixar meu passado me consumir. Faço isso por mim e pela minha família”, reforça.
Garantir um recomeço digno para a família também foi o que motivou a venezuelana Richeily Hernandez a vir para o Brasil em 2018. Após ter que deixar o filho de apenas quatro anos com a mãe e irmãos, ela chegou a São Paulo decidida a levantar recursos que permitissem trazer toda a família. Nessa jornada, passou por situações degradantes de trabalho, como trabalho informal e falta de salário.
Depois de alguns meses, com apoio de uma organização, ela conseguiu participar de um processo seletivo na empresa Foundever, onde foi contratada como analista de atendimento, atuando em pesquisas de satisfação para países hispanos. Mesmo com pouco domínio do português na época, encontrou acolhimento e a oportunidade de iniciar sua carreira em um ambiente onde podia trabalhar em seu idioma nativo. Após apenas seis meses, participou de um processo seletivo interno e foi promovida a supervisora de operações.
Empregada formalmente, Richeily organizou as finanças e promoveu uma campanha de arrecadação para comprar cinco passagens de avião: para o filho, a mãe, dois irmãos e a sobrinha. “Eu não dormia, eu não conseguia ficar em paz sem meu filho e minha família”, lembra.
Hoje, ela cursa o terceiro período de Gestão de E-commerce e, como supervisora de operações, coordena uma equipe de 20 pessoas, entre venezuelanas, cubanas e colombianas que, assim como ela, têm encontrado no emprego formal um recomeço digno.
Compartilhamento de experiências e incentivo à ação
O 5º Encontro Anual do Fórum Empresas com Refugiados reuniu cerca de 200 participantes, incluindo representantes de empresas, poder público, academia, agências da ONU, sociedade civil e pessoas refugiadas. A programação contou com debates sobre liderança empresarial, políticas públicas, expansão de iniciativas de inclusão em diferentes regiões do país e experiências de pessoas refugiadas que reconstruíram suas trajetórias profissionais e acadêmicas no Brasil.
Um dos destaques do evento foi a apresentação de como tem se dado a expansão regional do Fórum Empresas com Refugiados por meio dos Hubs locais, iniciativas que vêm fortalecendo a articulação entre empresas, organizações da sociedade civil e instituições públicas em diferentes estados brasileiros para ampliar oportunidades de inclusão socioeconômica de pessoas refugiadas. O Fórum já conta com hubs no Paraná, no Rio Grande do Sul e no Amazonas e planeja o lançamento de um Roraima.
Representantes dos Hubs do Fórum Empresas com Refugiados no Amazonas, Paraná e Rio Grande do Sul compartilharam experiências sobre mobilização do setor e promoção de oportunidades
O exemplo do Fórum para a inclusão socioeconômica de pessoas refugiadas no Brasil também tem inspirado iniciativas em outros países. Durante o evento, profissionais do ACNUR que atuam nas Américas, em países como Equador, Peru e Panamá, falaram sobre como a experiência tem sido replicada, reforçando possibilidades de cooperação e fortalecimento das estratégias.
Outro destaque do encontro foi o reconhecimento dado às melhores práticas de inclusão de pessoas refugiadas desenvolvidas por integrantes do Fórum. O reconhecimento Ações que Inspiram contou com três categorias. Em Empregabilidade e Inclusão, o Grupo Pão de Açúcar foi reconhecido por suas políticas e programas para contratação, permanência e desenvolvimento profissional de pessoas refugiadas. Na categoria Engajamento e Parcerias, que reconhece iniciativas que mobilizam organizações da sociedade civil, parceiros, fornecedores, clientes e outros atores para ampliar a inclusão dessa população, o destaque ficou com a empresa Fiasul. E em Transformação de Vida, que destaca histórias de pessoas refugiadas que conseguiram reconstruir suas trajetórias pessoais e profissionais com o apoio de empresas, o reconhecimento foi dado a Alberto José Rojas, funcionário da empresa MBRF.
Sobre o Fórum Empresas com Refugiados
O Fórum Empresas com Refugiados é uma iniciativa do ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, e do Pacto Global da ONU - Rede Brasil, que reúne empresas e organizações empresariais comprometidas com a inclusão socioeconômica de pessoas refugiadas no Brasil. Com 164 membros, o Fórum promove a troca de experiências, a disseminação de boas práticas e a capacitação de empresas para processos de recrutamento, contratação e integração de pessoas refugiadas. A iniciativa também atua na articulação do setor privado e de parceiros estratégicos para ampliar oportunidades de trabalho digno e fortalecer a inclusão dessa população na sociedade brasileira.
O 5º Encontro do Fórum Empresas com Refugiados teve o apoio de Accor Solidarity, Assaí Atacadista, Construtora Tenda e Foundever.
Para saber mais sobre a iniciativa, acesse empresascomrefugiados.com.br/forum.