Empresas e organizações debatem importância da empregabilidade de pessoas refugiadas
Empresas e organizações debatem importância da empregabilidade de pessoas refugiadas
Evento reuniu cerca de 100 pessoas, representando setor privado, sociedade civil, organizações lideradas por refugiados e governos
Representantes de diferentes setores estiveram reunidos nesta quinta-feira, 16/04, em São Paulo, para debater a importância e os desafios da participação de pessoas refugiadas no mercado formal de trabalho brasileiro, em especial, afegãs. O evento contou com relatos pessoais de refugiados empregados formalmente, com desafios apresentados por organizações de acolhida e com a troca de experiências de representantes do setor privado que possuem programas específicos neste tema.
O evento “Empregabilidade de pessoas afegãs no Brasil” faz parte das atividades realizadas pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), apoiadas pelo Islamic Relief USA (IRUSA), para promover a proteção, autonomia e integração de pessoas afegãs no Brasil. No total, cerca de 100 pessoas estiveram presentes, entre representantes de mais de 20 empresas, organizações lideradas por pessoas refugiadas, organizações da sociedade civil que trabalham no atendimento direto a pessoas afegãs, sociedades empresariais, câmaras de comércio e representantes do Governo Brasileiro.
Acolhimento e integração
Desde dezembro de 2020, o Brasil reconhece a situação de grave e generalizada violação de direitos humanos no Afeganistão, permitindo que os nacionais desse país tenham procedimento facilitado de reconhecimento da condição de refugiado. Em 2024, o Governo Brasileiro lançou o Programa de Reassentamento, Admissão e Acolhida Humanitária por Via Complementar e Patrocínio Comunitário, destinado inicialmente a pessoas afegãs, que busca associar a emissão de vistos com a capacidade de organizações da sociedade civil para a provisão de acolhimento e integração local a essas pessoas, incluindo o apoio com a inserção no mercado de trabalho. Atualmente, o Brasil acolhe mais de 7,6 mil pessoas afegãs que necessitam de proteção internacional.
“O governo brasileiro nos permite receber as pessoas afegãs com apoio, com dignidade, com possibilidade de direitos, com documentação e com a possibilidade de contribuir com a economia local. E isso só se torna concreto quando há a colaboração entre as comunidades, setor privado, governo e organizações da sociedade civil”, ressalta a chefe do escritório do ACNUR em São Paulo, Maria Beatriz Nogueira. “E fazemos isso não como um favor, mas reconhecendo capacidades e potenciais de inovação existentes em pessoas que estão querendo contribuir com as empresas e com a sociedade brasileira”, completa.
Para Amarilis Busch Tavares, coordenadora-geral do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), ligado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, o setor privado tem papel importante na integração da população refugiada à sociedade brasileira. “A gente sabe que as principais dificuldades da população afegã incluem o aprendizado da língua portuguesa e inserção no mercado do trabalho, que são elementos essenciais para a promoção da autonomia dessas pessoas no Brasil. A parceria com setor privado é muito importante para que a gente consiga, de fato, promover condições adequadas para que afegãos possam viver no Brasil de maneira independente”, afirma.
“O Brasil tem um calor humano muito importante, um grande coração, e nós estamos falando aqui de pessoas. É muito difícil a gente se colocar no lugar de alguém que foi forçado a se deslocar, porque é uma situação muito difícil”, ressalta o diretor de Projetos e Relações Internacionais da Federação das Associações Muçulmanas no Brasil (FAMBRAS), Delduque Martins. “Quando você conversa com os afegãos, a primeira coisa que escutamos é ‘preciso trazer meu irmão, minha mãe, a minha família’. Precisamos ter atitudes frente a isso, e ter o setor privado aqui é importante para que tenha atitude de fazer com que as coisas aconteçam. E para que as pessoas refugiadas se sintam realmente acolhidas no Brasil”, complementa.
Autonomia e contribuição
O evento contou com diferentes mesas com a participação de organizações da sociedade civil que recebem e acolhem afegãos por meio do Programa Brasileiro de Patrocínio Comunitário, de organizações lideradas por pessoas refugiadas, e de afegãos acolhidos e empregados formalmente no Brasil. Também participaram empresas que possuem iniciativas para contratação formal de pessoas refugiadas e migrantes - Grupo Pão de Açúcar, JSL, Hospital Albert Einstein e Cibal Halal.
“Quando uma pessoa chega ao país, ele não traz apenas necessidades, traz também capacidades, experiências e um desejo legítimo de recomeçar. Nesse processo, os recém-chegados não são apenas beneficiários de apoio, são contribuintes da diversidade cultural”, explicou Weiss Essa, refugiado afegão e mediador cultural na Caritas Arquidiocesana de São Paulo. “Antes de vir para o Brasil, eu tinha minha vida profissional, experiências e sonhos, assim como todos que estão aqui. Quando comecei a aprender o português e a interagir com a sociedade, estava me preparando para começar de novo. O Brasil teve um papel muito importante quando abriu suas portas para as pessoas refugiadas, e isso não é apenas uma questão de política migratória, é uma questão de humanidade”, ressalta.
Ação integrada
O evento “Empregabilidade de pessoas afegãs no Brasil” foi realizado por ACNUR, Fórum Empresas com Refugiados, Pacto Global da ONU – Rede Brasil, FAMBRAS, Caritas Arquidiocesana de São Paulo e Ministério da Justiça e Segurança Pública, com o apoio do Grupo Pão de Açúcar, do Governo do Canadá e de IRUSA.
A atividade fez parte das ações previstas na parceria firmada entre ACNUR e a organização Islamic Relief USA (IRUSA). Anunciada em setembro, a iniciativa prevê beneficiar diretamente cerca de 2 mil pessoas afegãs em todo o Brasil, por meio de ações voltadas à integração local e ao fortalecimento socioeconômico. Com ações previstas até junho de 2026, a parceria visa alcançar indiretamente outras 10 mil pessoas, beneficiando também comunidades brasileiras de acolhida.
A parceria inclui ensino da língua portuguesa, assistência jurídica, aconselhamento sobre o mercado de trabalho, promoção de oportunidades de emprego formal e empreendedorismo, revalidação de diplomas, prevenção da violência baseada em gênero e apoio à saúde mental e psicossocial. Nas comunidades brasileiras, a parceria prevê o apoio a atividades culturais e de convivência pacífica. Inclui, ainda, formações e troca de experiências com organizações da sociedade civil que trabalham diretamente com a população afegã no Brasil, além da produção de pesquisas que servirão de base para advocacy e políticas públicas baseadas em evidências.