ACNUR: Agravamento da violência no Norte de Moçambique força 22 mil pessoas a fugir em uma semana
ACNUR: Agravamento da violência no Norte de Moçambique força 22 mil pessoas a fugir em uma semana
Famílias recém-deslocadas do Norte de Cabo Delgado aguardam para receber assistência em uma escola no distrito de Macomia, em 1º de outubro.
A Agência das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) está profundamente preocupado com o rápido aumento do número de deslocados no Norte de Moçambique, à medida que o conflito, que entra no seu oitavo ano, parece estar se intensificando novamente, forçando quase 22 mil pessoas a fugir das suas casas numa única semana no final de setembro.
O recente aumento da violência marca um ponto importante no Norte de Moçambique. Após anos de incerteza, as famílias estão chegando ao seu limite. Algumas permanecem, apesar do perigo, e outras fugem novamente com pouca esperança de retorno. A nova onda de deslocamento está entre as maiores registradas este ano, com mais de 100 mil pessoas já forçadas a fugir.
Desde o início do conflito em 2017, mais de 1,3 milhão de pessoas foram forçadas a se deslocar, presas entre a insegurança, a perda e repetidas turbulências. Pela primeira vez desde o início do conflito, todos os 17 distritos de Cabo Delgado (epicentro do conflito) foram diretamente afetados, à medida que ataques simultâneos em toda a província espalharam o medo e a instabilidade. Muitos dos deslocados nos últimos dias haviam sido anfitriões que tinham aberto as suas casas a outras pessoas e agora encontram-se desalojados e passando necessidade.
As preocupações com a segurança estão aumentando. Civis continuam sendo alvos em meio a relatos de assassinatos, sequestros e violência sexual. As crianças estão entre as pessoas mais afetadas, com relatos de recrutamento forçado e ataques deliberados por grupos armados não estatais. Mulheres e meninas estão particularmente expostas à violência doméstica e sexual, especialmente quando vão buscar água ou lenha longe dos locais de deslocamento. Pessoas com deficiência e idosas têm enfrentado dificuldades para fugir durante os ataques, e algumas foram deixadas para trás. Muitos dos deslocados estão em profundo sofrimento psicológico e precisam urgentemente de apoio psicossocial.
Durante 2025, a violência aumentou drasticamente. Até ao final de agosto, foram registados mais de 500 incidentes de segurança que afetaram civis, incluindo invasões a aldeias, raptos, assassinatos de civis, saques e destruição de casas e infraestruturas. Em 2022, considerado um dos períodos mais intensos do conflito, foram relatados 435 incidentes.
A crise no Norte de Moçambique evoluiu para uma das situações humanitárias mais complexas da região. Além da violência, as famílias enfrentam os efeitos combinados de ciclones, inundações e secas prolongadas. Os meios de subsistência foram destruídos, os preços dos alimentos sobem constantemente e os serviços básicos são escassos. Os impactos agravantes do conflito e dos choques relacionados com o clima criaram um ciclo de vulnerabilidade que é cada vez mais difícil de se quebrar.
Apesar da redução do financiamento a nível global, o ACNUR e seus parceiros continuam apoiando as populações deslocadas e as comunidades de acolhimento em todo o Norte de Moçambique. Foram criados serviços de apoio para identificar indivíduos com necessidades específicas, prestar aconselhamento e apoio à saúde mental, distribuir kits de dignidade e dispositivos de mobilidade e ajudar as famílias a substituir documentos civis perdidos, em coordenação com as autoridades locais. No entanto, com apenas 66 milhões de dólares recebidos dos 352 milhões necessários este ano, a nossa capacidade continua limitada, ao mesmo tempo que as necessidades aumentam.
Oito anos depois, o recente aumento da violência é um forte lembrete de que a crise no Norte de Moçambique está longe de ter terminado. Milhares de famílias estão deslocadas há anos, reconstruindo suas casas para perde-las novamente. O ACNUR apela à comunidade internacional para que renove seu apoio a Moçambique. É urgente proteger os civis, restaurar o acesso a serviços essenciais e investir em soluções de longo prazo para evitar mais sofrimento.
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