Refugiados afegãos encontram na gastronomia uma oportunidade de gerar renda no Brasil
Refugiados afegãos encontram na gastronomia uma oportunidade de gerar renda no Brasil
Curso voltado para gastronomia está sendo oferecido para 12 mulheres e oito homens afegãos refugiados no Brasil
Em São Paulo, a criatividade está sendo o principal ingrediente de um curso oferecido a pessoas refugiadas afegãs. A turma, composta por 20 pessoas, tem recriado receitas de pratos típicos brasileiros com temperos afegãos, e adaptado receitas afegãs com produtos encontrados com mais facilidade no Brasil. A intenção é impulsionar pequenos empreendimentos de gastronomia que já existem e inspirar o começo de novos negócios.
O curso é oferecido pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em parceria com Cáritas Arquidiocesana de São Paulo, Migraflix e Instituto Pão de Açúcar, com apoio de Islamic Relief USA. Com duração de 44 horas, as aulas iniciaram em junho e encerram na primeira semana de agosto. Além de encontros práticos, a programação conta com aulas teóricas, abordando temas como técnicas de gastronomia profissional, higiene e segurança alimentar, técnicas para catering, padronização de processos e formalização profissional.
A afegã Bibi Naz Popal (à direita) planeja abrir um restaurante de comida típica
“Aprendemos a nos preparar para eventos, a como tratar os clientes e a como trabalhar dentro das normas brasileiras, cuidando da higiene nossa e do local. Também aprendemos a adaptar nossas comidas típicas com os produtos que existem no Brasil e que agradam mais aos brasileiros”, conta a participante Bibi Naz Popal. Ela ainda não trabalha na área, mas vê na aprendizagem uma oportunidade. “Com o que aprendi no curso, vou começar a testar algumas comidas com meus amigos brasileiros e, quem sabe, abrir um restaurante de comida afegã em breve”, planeja.
“A comida afegã ainda é muito nova no Brasil, e nós estamos apresentando nossa cultura por meio da gastronomia. Neste curso, estamos pensando a culinária afegã de uma maneira brasileira, para alcançar mais clientes”, conta Mohammad Hesaby, que adotou o nome de Pedro no Brasil. Ele já trabalha com a produção de comidas típicas em eventos e feiras e, a partir do curso, pensa também a começar a trabalhar com empresas. “O curso é muito importante porque aprendemos sobre administração e gestão do negócio, a como participar de mais eventos e como apresentar nossa culinária para empresas, além de padrões brasileiros de limpeza e de higiene. É um curso maravilhoso e vou aplicar muito do que aprendi no meu restaurante”, declara.
Mohammad Hesaby, que adotou o nome de Pedro, mostra coxinha que aprendeu a fazer durante o curso
Valorização da cultura no empreendedorismo
Abrir o próprio negócio é uma das principais estratégias para geração de renda e integração socioeconômica de pessoas refugiadas e migrantes no Brasil. Nesse cenário, a gastronomia acaba mais da metade dos empreendimentos – 55,7% do total, de acordo com pesquisa realizada com integrantes da Plataforma Refugiados Empreendedores, iniciativa do ACNUR e do Pacto Global da ONU - Rede Brasil. Do total de pessoas refugiadas empreendedoras ouvidas pela pesquisa, 95% residem no Brasil há mais de três anos, o que reforça o empreendedorismo como alternativa sólida para geração de renda e estabilidade de pessoas refugiadas no país.
“A gastronomia é um dos setores onde pessoas refugiadas encontram oportunidades para empreender e ter mais autonomia no Brasil. Com esse curso, buscamos levar conhecimento sobre as normas sanitárias e gestão dos empreendimentos, além de gestão de recursos e insumos, atendimento ao público, possibilidades de inovação, entre outros temas, tanto para quem já trabalha na área quanto para quem quer iniciar. São iniciativas que buscam aliar os saberes e a cultura com possibilidades”, explica a chefe do escritório do ACNUR em São Paulo, Maria Beatriz Nogueira.
“Mais do que desenvolver competências técnicas em gastronomia, o curso fortalece a confiança, amplia oportunidades de geração de renda e cria caminhos concretos para a integração no mercado de trabalho e na sociedade brasileira. Para a Migraflix, essa parceria representa a união de organizações comprometidas com a construção de soluções sustentáveis para a integração de refugiados, valorizando seus conhecimentos, suas culturas e seu potencial empreendedor”, completa a coordenadora de Projetos na Migraflix, Mariana Ramos Freddi.
"Quando reunimos organizações em torno de um propósito comum, fortalecemos a transformação social. A parceria da ACNUR com o programa Mãos na Massa, do Instituto Pão de Açúcar, potencializou o alcance da iniciativa e ampliou seu impacto: o desenvolvimento de pessoas e ampliação de perspectivas profissionais, reforçando nosso propósito de alimentar sonhos e vidas", ressalta o diretor executivo de Gente, Gestão e Sustentabilidade do Grupo Pão de Açúcar, Jorge Jubilato.
Curso estimulou produção de comidas típicas do Brasil com tempero afegão, como a coxinha de frango temperada com especiarias
Apoio para integração
O curso fez parte das ações previstas na parceria firmada entre ACNUR e IRUSA, em fase de finalização. Anunciada em setembro de 2025, a parceria buscou, ao longo de um ano, beneficiar diretamente cerca de 2 mil pessoas afegãs em todo o Brasil, por meio de ações voltadas à integração local e ao fortalecimento de meios de vida, além de alcançar indiretamente outras 10 mil pessoas, incluindo comunidades brasileiras de acolhida.