Mediadores interculturais auxiliam a recepção de haitianos ao Brasil
Mediadores interculturais auxiliam a recepção de haitianos ao Brasil
O haitiano Jude Sam Mondesir trabalha como agente de Ação Social na Cáritas Arquidiocesana de São Paulo e tem auxiliado as equipes na recepção dos voos
O Brasil acolhe atualmente mais de 105 mil pessoas haitianas, a terceira nacionalidade com mais números de pedidos de reconhecimento da condição de refugiado no país. Apesar de o acolhimento brasileiro ser referência em todo o mundo, a diferença nos idiomas falados nos dois países costuma ser uma das maiores barreiras para a integração econômica e social dessa população. Sabendo dessa dificuldade, a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) tem disponibilizado, junto com organizações parceiras, mediadores interculturais para receber quem chega do Haiti desde o primeiro passo em solo brasileiro.
A recepção com mediadores interculturais e com pessoas haitianas apoiando na comunicação tem sido oferecida nos voos fretados que chegam semanalmente a diferentes cidades do Brasil, como Porto Alegre (RS), Manaus (AM), Curitiba (PR) e Campinas (SP). É por meio desses profissionais que a comunicação é facilitada e quem chega absorve melhor as informações sobre o processo de acolhimento, documentação, entre outras.
Há 13 anos no Brasil, o haitiano Jude Sam Mondesir trabalha como agente de Ação Social na Cáritas Arquidiocesana de São Paulo e tem auxiliado as equipes na recepção dos voos – tanto com a tradução do português para o crioulo quanto no repasse de informações importantes para a proteção e integração das pessoas recém-chegadas. Ele destaca a importância do trabalho realizado, em especial no momento de chegada, onde tudo parece mais difícil.
“Quando você é mediador, você ajuda a outra pessoa que não entende o idioma e está em uma situação desconfortável e vulnerável, se sentindo insegura. Quem está chegando ao Brasil não fala português, não conhece ninguém aqui, não sabe sobre seus direitos, chega com muitas dúvidas e preocupações. Então, é ali que o mediador intercultural pode ser um facilitador para essa pessoa”, explica. “O mediador está ao lado da pessoa para ela entender a cultura, como funcionam as coisas, o que precisa fazer. A gente ajuda as pessoas a se sentirem mais confortáveis, mais confiantes”, completa.
Renald Bossa (à direita) e o filho Friedrich foram auxiliados no idioma nativo no desembarque em Campinas (SP)
Renald Bossa foi uma das pessoas que recebeu auxílio de Jude na chegada ao aeroporto de Campinas nesta terça-feira, 14. Ele está há nove anos no Brasil, mas ainda não consegue se comunicar com facilidade em português. Ele estava no local para receber o filho, Friedrich, que precisou de ajuda para localizar bagagem esquecida e também para receber informações sobre documentação brasileira. “É muito importante ter esse apoio porque não conseguimos entender tudo e temos dificuldade em nos comunicar. Aqui, com meu colega haitiano, me senti mais seguro e consegui resolver o problema da bagagem. Agora, também já sei onde buscar informações corretas”, afirma.
No dia a dia, Jude trabalha no Serviço de Acolhida e Orientação para Refugiados (SAOR) da Cáritas, como ponto focal para pessoas haitianas, apoiando processos sobre documentação, preparação para o mercado de trabalho, encaminhamentos de saúde, entre outros serviços. Para ele, o respeito e a empatia devem sempre guiar o trabalho realizado.
“É importante na vida de quem chega ter uma pessoa de confiança, que fale seu idioma e acompanhe até que ela consiga falar português, achar um emprego e seguir a vida sozinho”, ressalta. “A língua portuguesa é uma das maiores barreiras para quem chega pela primeira vez ao Brasil. Quando a pessoa encontra alguém que fala o seu idioma, ela se sente mais tranquila, compreendida. Além disso, quem já passou por esse processo entende quais são os medos, as dúvidas e as dificuldades que surgem nesse momento. Eu passei bastante dificuldade quando cheguei e hoje consigo superar esses desafios. É importante ter um mediador para ajudar essas pessoas a superarem também", lembra.
Jude tem auxiliado com a tradução do português para o crioulo e com o atendimento a grupos recém-chegados
Para ele, estar na recepção dos voos é uma forma de retribuir o acolhimento que recebeu. “O mais importante é acolher as pessoas com respeito e com humanidade. Para mim, é muito emocionante sempre que recebo um voo do Haiti porque lembro de quando eu cheguei ao Brasil, com toda aquela incerteza e timidez, me sentindo muito inseguro. Mas o Brasil é um país muito acolhedor. Quando eu termino de atender uma pessoa e ela me agradece com uma palavra, com um sorriso, isso me dá uma grande satisfação.”