ACNUR: Cortes no financiamento deixam cerca de 11 milhões de pessoas sem ajuda humanitária
ACNUR: Cortes no financiamento deixam cerca de 11 milhões de pessoas sem ajuda humanitária
Famílias que fugiram do conflito no Sudão aguardam para serem realocadas do superlotado posto de fronteira de Renk, no Sudão do Sul.
Após cortes significativos nos orçamentos humanitários, até 11,6 milhões de refugiados e outras pessoas forçadas a fugir correm o risco de perder, ainda em 2025, acesso à assistência humanitária direta do ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, de acordo com um relatório publicado hoje. Esse número representa cerca de um terço das pessoas atendidas pela organização no ano passado.
O relatório destaca uma confluência fatal de fatores que assolam milhões de refugiados e deslocados: aumento do deslocamento, redução de recursos financeiros e apatia política. E, como sempre, mulheres e crianças são as mais afetadas.
No total, US$ 1,4 bilhão em programas essenciais estão sendo cortados ou suspensos, segundo a análise dos programas e dos fundos recebidos pelo ACNUR neste ano. Milhões de pessoas enfrentam agora condições de vida cada vez piores, riscos elevados de exploração e abuso, e podem ser forçadas a mais deslocamentos.
Por trás desses números, há vidas em risco. Famílias estão vendo desaparecer o apoio do qual dependiam, sendo forçadas a escolher entre alimentar seus filhos, comprar medicamentos ou pagar o aluguel, enquanto a esperança por um futuro melhor se distancia. Todos os setores e operações foram afetados, e apoios cruciais estão sendo suspensos para manter a assistência vital em funcionamento.
Os cortes forçaram o ACNUR a interromper a transferência de recém-chegados de áreas de fronteira para locais mais seguros em países como o Chade e o Sudão do Sul, deixando milhares de pessoas retidas em áreas remotas. Em Uganda, por exemplo, as taxas de desnutrição estão disparando em alguns centros de recepção, com acesso limitado à água potável e alimentos.
Serviços de saúde e educação estão sendo reduzidos, com escolas fechando e clínicas sem equipe suficiente. Em campos que abrigam refugiados rohingya em Bangladesh, a educação de cerca de 230 mil crianças está em risco de ser suspensa. Todo o programa de saúde do ACNUR no Líbano corre o risco de ser encerrado até o final do ano.
A assistência financeira e a entrega de itens de emergência foram cortadas em 60% em escala global, e os programas de abrigo foram gravemente reduzidos. Em locais como Níger, os cortes na ajuda financeira para abrigos deixaram famílias em estruturas superlotadas ou em risco de ficarem sem teto. Na Ucrânia e na região, os cortes também afetaram famílias deslocadas, que agora não conseguem pagar aluguel, comprar alimentos ou obter tratamento médico.
Registros, proteção infantil, orientação jurídica, bem como prevenção e resposta à violência de gênero, também sofreram cortes severos. No Sudão do Sul, 75% dos espaços seguros para mulheres e meninas apoiados pelo ACNUR foram fechados, deixando até 80 mil mulheres e meninas refugiadas, incluindo sobreviventes de violência sexual, sem acesso a cuidados médicos, apoio psicossocial, assistência jurídica, auxílio material ou atividades geradoras de renda.
Os cortes estão impactando, de forma preocupante, o reassentamento e o retorno seguro e voluntário de refugiados. Cerca de 1,9 milhão de afegãos retornaram ao país ou foram forçados a voltar desde o início do ano, mas a assistência financeira para os retornados mal cobre os custos com alimentos, muito menos aluguel, comprometendo os esforços de reintegração estável.
Em diversas operações, a falta grave de financiamento prejudicou investimentos em digitalização e fortalecimento dos sistemas de asilo e na promoção da regularização migratória. Em países como Colômbia, Equador, Costa Rica e México, a ausência de status legal significa insegurança prolongada, aprofundamento da pobreza — já que os refugiados ficam excluídos do mercado formal de trabalho — e maior exposição à exploração e abuso. Esses cortes estão minando os esforços para encontrar soluções duradouras. Os incentivos para voluntários refugiados também foram gravemente afetados, colocando em risco serviços vitais e cortando uma importante fonte de renda para essas pessoas.
As necessidades de financiamento do ACNUR para 2025 são de US$ 10,6 bilhões. Na metade do ano, apenas 23% haviam sido atendidos. Diante desse cenário, nossas equipes estão concentrando esforços em salvar vidas e proteger os que são forçados a fugir. Caso mais financiamento esteja disponível, o ACNUR possui sistemas, parcerias e expertise para retomar rapidamente e ampliar a assistência.
O ACNUR é grato aos doadores que mantiveram seu apoio nesses tempos difíceis e faz um apelo a governos, instituições e indivíduos para que aumentem significativamente suas contribuições financeiras, a fim de cobrir a lacuna atual de financiamento.
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No Brasil, de acordo com as projeções do ACNUR para 2025, cerca de 50% das pessoas em necessidade de proteção internacional que a agência planejava de apoiar ficarão sem assistência neste ano. Isso significa que o ACNUR e seus parceiros terão capacidade limitada para realizar triagem de proteção específica, prover orientações ou acesso a serviços essenciais e assistência complementar para se integrar no país - sem a devida integração para a autonomia, alimenta-se um ciclo de dependência da ajuda já escassa. Os serviços de apoio psicossocial e o apoio às organizações lideradas por pessoas refugiadas também serão drasticamente reduzidos, agravando os riscos à saúde mental e ao bem-estar geral dessas populações. O ACNUR Brasil segue atuando continuamente em todo o território nacional no atendimento às pessoas refugiadas por meio de seus escritórios e parceiros. Dentre as prioridades do ACNUR está a continuidade do apoio à Operação Acolhida liderada pelo Governo Federal, onde o ACNUR segue ativo nos eixos de documentação, acolhida em abrigos e interiorização. Devido aos recortes financeiros, no entanto, o ACNUR terá menos capacidade de apoiar a interiorização assistida de perfis mais vulneráveis. Da mesma forma, o ACNUR Brasil ampliou a busca de novos fundos e parcerias para cobrir as lacunas existentes, contando com investimentos específicos para a Operação Acolhida, o Programa Brasileiro de Patrocínio Comunitário para Pessoas Afegãs e para as ações de integração local no Rio Grande do Sul, em apoio ao programa de interiorização.
Para mais informações, favor contatar:
. Em Genebra, Olga Sarrado Mur, [email protected] +41 79 740 2307
. Em Brasília, Miguel Pachioni, [email protected] (61) 99914-4049
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