“A revalidação do meu diploma foi um processo maravilhoso, me senti profissional outra vez, e isso trouxe esperança para mim e para meus filhos”
“A revalidação do meu diploma foi um processo maravilhoso, me senti profissional outra vez, e isso trouxe esperança para mim e para meus filhos”
A dentista Maria Julia precisou deixar Cuba em 2023 grávida e com dois filhos pequenos, entre eles, Jorge (na foto)
Em 2023, María Julia Rosales Concepción precisou deixar Cuba. Grávida e com dois filhos pequenos, tudo o que ela queria era encontrar um local onde pudesse recomeçar a vida e garantir um futuro digno aos filhos. Encontrou no Brasil a segurança e o acolhimento que buscava. Três anos depois e com o diploma de Odontologia revalidado, ela comemora os direitos reconhecidos e sonha em voltar a exercer a profissão à qual sempre se dedicou.
“Em 2023, pegamos um avião em Cuba para a Guiana e, de lá, pegamos um carro com destino ao Equador. Cerca de 10 dias depois, quando estávamos passando pela Venezuela com destino à Colômbia, fomos parados pela polícia, que não permitiu que a gente seguisse com a viagem”, lembra. “Chegamos a Pacaraima [no Norte do Brasil] e lá falamos do nosso medo de retornar a Cuba. As pessoas na fronteira foram muito acolhedoras, nos explicaram que não precisaríamos retornar. Por nossa situação, também falaram que podíamos solicitar asilo”, relata.
Em Roraima, María Julia formalizou a solicitação de reconhecimento da condição de refugiados para ela e os filhos, tiraram documentos, atualizaram as vacinas necessárias. Um mês depois, por meio de pesquisas na internet e contatos com amigos e familiares, chegaram a Campo Largo, na região metropolitana de Curitiba (PR), onde vivem até hoje. “E foi assim que ficamos – com direito a trabalhar, com escola para as crianças estudarem, com possibilidade de fazer uma nova vida. O acolhimento, a humanidade do brasileiro nos deram paz”, declara.
A cubana Maria Julia encontrou na UFPR a possibilidade de revalidar no Brasil o diploma de Odontologia
Jornada profissional
Maria Julia trabalhava há 10 anos como dentista, em uma clínica estatal cubana. Além do bacharelado de cinco anos, ela cursou dois anos de especialização em Estomatologia Geral Integral, se tornou cirurgiã e finalizou um mestrado em Medicina Natural Tradicional, onde aprofundou conhecimentos sobre fitoterapia aplicados à profissão. Antes de deixar o país, ela trabalhava em uma clínica que atendia pacientes com câncer.
“Eu fazia o atendimento intermediário, entre o cirurgião dentista e o cirurgião bucomaxilofacial. Atendia pessoas que estavam tratando algum câncer, fazia avaliação, acompanhava o tratamento. E eu via que a qualidade de vida que essas pessoas tinham, muitas vezes, não era apenas consequência de um hábito, como cigarro. Às vezes, tinha também alguma emoção, tinha o estresse”, explica. “Eu fui estudando para ver como podia garantir para essas pessoas uma qualidade de vida melhor. E foi assim que fui complementando a parte da medicina tradicional com a natural, com o uso de plantas, acupuntura, homeopatia. Estudei não apenas para ter conhecimento, mas para poder ajudar meus pacientes.”
Reconhecimento e recomeço
Assim que chegou ao Paraná, María Julia buscou informações sobre o processo de revalidação do diploma de Odontologia. Foi assim que ela conheceu a Sala 28 da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde são realizadas ações de acolhimento e atendimento de pessoas que foram forçadas a se deslocar, a partir de atividades ligadas à Cátedra Sérgio Vieira de Mello, da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR).
O processo de revalidação do diploma de Maria Julia iniciou na Sala 28 da UFPR, onde são realizadas ações de acolhimento e atendimento de pessoas que foram forçadas a se deslocar
Com inscrição feita, ela iniciou uma jornada intensa de estudos. “Durante a semana, eu trabalho como massoterapeuta e cuido sozinha dos meus três filhos. Nós tínhamos apenas o domingo para ficar juntos. A gente chama o domingo de o ‘dia da família’, e, por um tempo, tivemos que abrir mão dele para que eu me preparasse. Meus filhos entenderam e sempre me apoiaram”, conta.
“Passei por várias provas durante os três dias do processo de revalidação. Teve prova escrita, objetiva e prática. São seis especialidades na minha área, e cada uma teve uma prova prática. Também teve redação e entrevista, tudo em português. O processo é eliminatório, e só avança quem passa por aquela prova”, explica. “Fiquei nervosa, claro, mas os professores foram todos muito gentis, muito amáveis. Foi um processo maravilhoso, porque me senti profissional outra vez, e isso trouxe esperança para mim e para meus filhos.”
María Julia fez parte de um grupo de 235 pessoas, com diferentes formações profissionais, que tiveram seus diplomas reconhecidos pela UFPR em agosto. A universidade realiza processo próprio desde 2016, que busca simplificar algumas etapas para pessoas refugiadas, solicitantes de refúgio, migrantes e portadoras de visto de acolhida humanitária em situação de vulnerabilidade. Em 10 anos, foram 384 diplomas, com recorde de reconhecimentos em 2026.
“Os diplomas revalidados são de pessoas que não desistiram e que seguem contribuindo para as sociedades que as acolheram. Em um país receptivo como o Brasil, sabemos que há dificuldades neste processo longo, custoso e restrito, mas esperamos que possamos ampliar o número de revalidações por parte de outras instituições de ensino superior e que as empresas possam se atentar para a contratação de profissionais refugiados que têm muito a aportar para os resultados dos diferentes negócios”, destaca Davide Torzilli, representante do ACNUR no Brasil.
"A revalidação de diplomas para pessoas em deslocamento forçado é uma forma de reconhecermos a formação e a qualificação de profissionais que, muitas vezes, já têm uma carreira consolidada e estão aqui no Brasil trabalhando em atividades que não condizem com a sua formação ou até em trabalhos precarizados. Além de afirmar um direito dessas pessoas, que por condições adversas tiveram que deixar suas casas, profissão e um projeto de vida construído no país de origem, a revalidação de diplomas é uma forma de reconhecer e valorizar as identidades construídas ao longo de uma vida, de gerar pertencimento pela profissão e reconhecer socialmente suas trajetórias", ressalta a coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello da UFPR, Elaine C. Schmitt Ragnini.
“No dia que minha mãe ganhou o diploma, tinha uma plateia. Eu estava lá vendo também. Quando eu vi que minha mãe ganhou, eu chorei de alegria”, conta o pequeno Jorge, de sete anos, filho do meio de Maria Julia, que acompanhou a mãe atento durante toda a entrevista.
Em agosto, 235 pessoas tiveram o diploma revalidado pela UFPR, um recorde nos 10 anos de revalidações realizadas pela universidade
Com o diploma revalidado, María Julia iniciará o processo de reconhecimento no Conselho Regional de Odontologia para, enfim, começar a exercer a profissão no Brasil. “Eu tenho o sonho de trabalhar com odontologia integrativa. Eu vi que existe no SUS, com políticas integrativas complementares de saúde, como acupuntura, homeopatia, fitoterapia. Estou fazendo um curso de medicina chinesa no momento, e vejo o quanto isso também pode ser aliado da Odontologia. Eu acredito que temos que humanizar a nossa cultura e as nossas profissões. Para mim, a Odontologia vai além de uma profissão para cobrir o tempo e conseguir dinheiro, é um propósito de vida.”
Saiba mais
Para ampliar o acesso ao direito de revalidação de diplomas e orientar pessoas refugiadas nesse sentido, o ACNUR e o Ministério da Educação (MEC) lançaram o Guia de apoio para revalidação de diplomas de pessoas refugiadas. A publicação serve como uma ferramenta essencial para desmistificar e facilitar o processo de reconhecimento acadêmico no Brasil.
Ao sistematizar de forma clara e acessível os direitos e os trâmites burocráticos, a publicação funciona como uma ponte crucial para a autonomia, permitindo que profissionais refugiados superem barreiras institucionais, resgatem suas identidades profissionais e contribuam plenamente com a sociedade acolhedora, agregando os saberes já existentes ao novo mercado de trabalho, como é evidente no trajeto de Maria Julia.
As ações do ACNUR em apoio às universidades para revalidação de diplomas no Brasil são viabilizadas graças ao apoio do Governo do Canadá.