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Dados sobre comunidade haitiana são destaque em censo realizado em Piraquara (PR)

Notas informativas

Dados sobre comunidade haitiana são destaque em censo realizado em Piraquara (PR)

Presença expressiva de pessoas refugiadas e migrantes, necessidade de infraestrutura local e de acesso a equipamentos públicos estão entre principais informações de levantamento divulgado pela Prefeitura em parceria com ACNUR e UFPR
18 Agosto 2026
Censo ouviu mais de 2,5 mil pessoas na comunidade Andorinhas, em Piraquara, região metropolitana de Curitiba (PR)

Censo ouviu mais de 2,5 mil pessoas na comunidade Andorinhas, em Piraquara, região metropolitana de Curitiba (PR)

De cada 10 pessoas que vivem atualmente na comunidade Andorinhas, em Piraquara (PR), três são haitianas. Além da presença expressiva de pessoas refugiadas e migrantes, a comunidade apresenta falta de infraestrutura básica, como saneamento, acesso a energia elétrica e pavimentação das vias. Como um primeiro passo para responder a essas demandas, a prefeitura do município, em parceria com a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), realizou um censo na região. Os dados foram apresentados publicamente nesta terça-feira, 18.

Localizada na região metropolitana de Curitiba, Piraquara é um município com 127 mil habitantes. Andorinhas está entre as comunidades que se formaram a partir de ocupações espontâneas de grandes terrenos nas regiões mais periféricas da cidade, com número significativo de pessoas que chegaram recentemente ao local, em 2025 e 2026. Atualmente, são 1.002 domicílios. Destes, 876 foram alcançados pelo censo, reunindo informações sobre 2.557 pessoas.

O censo aponta que a população registrada é majoritariamente brasileira, mas há presença expressiva de pessoas migrantes e refugiadas. No total, são 821 pessoas não brasileiras registradas na comunidade, ou 32,1% do total com base na nacionalidade registrada. A população haitiana é o maior grupo, com 727 pessoas em 270 domicílios.

Para o haitiano Walnet Etienne, os dados colhidos a partir do censo devem servir para trazer melhorias à comunidade, atendendo às demandas mais urgentes

Para o haitiano Walnet Etienne, os dados colhidos a partir do censo devem servir para trazer melhorias à comunidade, atendendo às demandas mais urgentes

Walnet Etienne faz parte dessa estatística. Ele está há três anos na comunidade, onde possui um pequeno mercado. “Eu gosto de morar aqui, é muito tranquilo, me sinto seguro. Mas ainda falta muita coisa. Temos muito problema com luz e com as ruas, principalmente. Quando chove, fica difícil de sair de casa, não consigo receber mercadoria”, explica. Para ele, ter profissionais da prefeitura envolvidos no censo foi fundamental. “A prefeitura veio aqui e viu o que falta, o que tem que ser feito. Esse censo é muito importante, porque vai ajudar a comunidade.”

Parcerias e mobilização para levantamento de dados

O censo foi realizado de abril a julho de 2026. No total, 96 pessoas estiveram envolvidas nas entrevistas, entre profissionais das diferentes secretarias municipais, estudantes e pesquisadores da UFPR, equipe do ACNUR e membros da própria comunidade. O objetivo do levantamento foi reunir informações sobre perfil, necessidades e prioridades da população – informações essenciais para orientar políticas públicas, fortalecer ações locais e apoiar soluções construídas em diálogo com a comunidade.

“O trabalho de campo foi realizado por servidores de diferentes secretarias municipais, durante os dias de semana e também aos finais de semana, com o objetivo de ouvir o maior número possível de moradores. Além da aplicação dos questionários, os imóveis foram identificados com um selo e os moradores receberam materiais informativos”, explica a vice-prefeita de Piraquara, Loireci Dalmolim. “Antes do início das atividades, a Prefeitura realizou um trabalho de conscientização junto às lideranças da comunidade, esclarecendo que a ação não tinha caráter fiscalizatório, mas buscava aproximar o poder público dos moradores, compreender a realidade local e subsidiar o planejamento de futuras ações”, completa.

Como muitas pessoas haitianas não dominam o português, o engajamento da própria comunidade foi essencial para a realização das entrevistas. Há 13 anos no Brasil, o pastor Rony Remy foi uma das lideranças locais envolvidas na aplicação dos questionários. “Recebemos o convite da prefeitura, que mobilizou diferentes secretarias para poder coletar dados. Esse exercício vai ajudar a saber quantas pessoas vivem na comunidade, quantas crianças temos, quantas são haitianas, quantas são venezuelanas, cubanas, brasileiras”, afirma. “Meu papel foi ajudar, orientar, traduzir e ir até as casas, inclusive após o horário de trabalho das pessoas. Alguns jovens da comunidade ajudaram com famílias que não falavam português. Esse censo foi muito importante para a comunidade se sentir pertencente a esse município, ter suas demandas ouvidas. Conhecer as necessidades é essencial para poder criar políticas públicas para a população”, completa.

Realização do censo contou com mobilização e participação da comunidade local, como a do pastor Rony Remy, que fez tradução de entrevistas e aplicação de questionários fora do horário comercial

Realização do censo contou com mobilização e participação da comunidade local, como a do pastor Rony Remy, que fez tradução de entrevistas e aplicação de questionários fora do horário comercial

"O Brasil é hoje o segundo país com maior número de pessoas haitianas em necessidade de proteção internacional fora do Haiti. Também acolhemos todos os anos dezenas de milhares de pessoas venezuelanas que buscam por proteção e uma vida digna. Muitas dessas populações que foram forçadas a se deslocar buscam por um recomeço no Paraná, onde as comunidades e os governos precisam estar preparados para protegê-las e acolhê-las adequadamente, garantindo que seus direitos sejam respeitados. Nesse sentido, a realização deste censo foi essencial para conhecer quem são essas pessoas, quais as suas demandas mais urgentes, e para a construção e o aprimoramento de políticas públicas locais”, completa a chefe do escritório do ACNUR em São Paulo (SP), Maria Beatriz Nogueira.

Junto com o ACNUR, o projeto Altas da Migração Internacional no Paraná, da UFPR, esteve envolvido na elaboração dos questionários, no treinamento das equipes de recenseadores e na sistematização dos dados levantados. “Reconhecemos ali uma comunidade composta por brasileiros e pessoas de mais cinco nacionalidades, vivendo de maneira bastante integrada. São famílias, a maioria haitianas, que estão buscando o último degrau da integração econômica, de tornarem-se proprietárias de casas e terrenos, o que dá uma garantia imensa para sua permanência no Brasil”, afirma o coordenador do projeto, professor Márcio Oliveira. “Esse censo mostra o quão importante a migração tem sido para o desenvolvimento do Estado e a diversificação de sua cultura. O Brasil, por meio de suas políticas públicas, mostra mais uma vez que é uma sociedade muito acolhedora, capaz de integrar, prestar assistência e fornecer os serviços básicos para toda a população”, destaca.

Perfil e demandas da população de Andorinhas

De maneira geral, a divisão por gênero na comunidade é similar (50,6% de homens e 49,4% de mulheres) e a faixa etária predominante é de 30 a 59 anos (39,2%). Crianças e adolescentes (de 0 a 17 anos) somam 34,1%, enquanto pessoas idosas correspondem a 6,1% da população local. No recorte de escolaridade, parte significativa da população de Andorinhas cursou o ensino fundamental (41,2%) e o ensino médio (38,2%). Pessoas sem escolaridade somam e com ensino superior correspondem a 4,1% cada.

Quanto às condições de habitação, o censo também aponta que, na comunidade, o acesso à água encanada, à coleta adequada de esgoto e à energia elétrica é precarizado, com a maior parte dos domicílios tendo ligações informais ou comunitárias. Apesar dos desafios estruturais, o acesso a serviços de saúde e de assistência social é realidade para a maioria da população – 84,9% afirmaram recorrer a Unidades Básicas de Saúde e 62,7% dos domicílios estão no Cadastro Único para Programas Sociais. Entre pessoas brasileiras, 35,8% recebem bolsa família, enquanto entre as pessoas não brasileiras, a taxa é de 23,5%.

Censo realizado em Piraquara (PR)

Sinalização indica que domicílio participou do censo na comunidade Andorinhas, em Piraquara (PR)

Desafios por nacionalidade e gênero

Devido à presença expressiva da população haitiana e da necessidade de se pensar políticas públicas voltadas para a integração e autonomia do público feminino, o censo também apresenta esses dois recortes. Na análise comparativa, o dado que mais se destaca é com relação à renda e ao acesso ao trabalho.

Do total dos moradores de Andorinhas, mulheres e meninas somam 1.263 pessoas. Dessas, 348 são haitianas, correspondendo a 27,5% de todas as mulheres e meninas da localidade. O acesso a oportunidades de trabalho e renda é o principal desafio para essa população e o recorte que mais reforça as desigualdades.

A taxa de empregabilidade da população geral de Andorinhas é de 72,4%, puxada principalmente pelos homens. Enquanto 83,4% deles têm acesso ao mercado de trabalho, entre as mulheres, essa taxa é de apenas 62%. As mulheres sem renda também correspondem a mais que o dobro dos homens na mesma situação – enquanto 26,3% delas não têm qualquer rendimento, entre os homens, essa realidade é de 11,9%.

Apresentação dos dados do censo nesta terça-feira, 18, em Piraquara, contou com participação de representantes do poder público, da academia e da comunidade local

Apresentação dos dados do censo nesta terça-feira, 18, em Piraquara, contou com participação de representantes do poder público, da academia e da comunidade local

No recorte por nacionalidade, apesar das pessoas não nacionais representarem taxa ligeiramente maior de acesso ao trabalho (74% contra 71,5% entre brasileiros), o rendimento costuma ser menor, em especial entre as pessoas haitianas. Enquanto a população de Andorinhas sem nenhuma renda é composta 16,2% por brasileiras e brasileiros, haitianas e haitianos respondem por 24,7% desse total.

No link a seguir, você encontra um resumo dos principais dados apresentados: