Negócios liderados por pessoas refugiadas e migrantes são destaque na Feira do Empreendedor 2026
Negócios liderados por pessoas refugiadas e migrantes são destaque na Feira do Empreendedor 2026
Feira do Empreendedor 2026 contou com 15 empreendimentos liderados por pessoas refugiadas e migrantes
O empreendedorismo liderado por pessoas refugiadas no Brasil foi um dos destaques da Feira do Empreendedor 2026, realizada entre os dias 19 e 22 de outubro em São Paulo (SP). Com o apoio da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e do Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC), 15 empreendedoras e empreendedores de sete diferentes nacionalidades levaram para o evento histórias, cultura e produtos típicos de seus países.
Em sua 15ª edição, a Feira do Empreendedor é o maior evento de empreendedorismo do país, com estimativa de mais de 100 mil visitantes. Os produtos levados por pessoas refugiadas puderam ser adquiridos nos 15 estandes instalados na área “Shopping Compre do Pequeno – Sebrae Comunidades”. Foram comercializados alimentos e pratos típicos dos países de origem, artesanato, roupas e demais itens relacionados à cultura de cada país.
A venezuelana Melitza de Valle Quinonez levou sua arte em kokedamas para a feira. Ela afirma que, ao chegar ao Brasil, ela e a família não entendiam português e contaram com a ajuda de uma senhora para se comunicar. “Meu projeto nasceu pela gratidão. Sempre gostei muito de plantas por causa da minha avó, e ela me ensinou a dar plantas como uma forma de carinho. Então, quis fazer um kokedama para dar para essa senhora, por ter nos ajudado na comunicação”, conta.
No Brasil, a venezuelana Melitza de Valle Quinonez encontrou nos kokedamas uma forma de gerar renda
Embora considere o primeiro kokedama como “o mais feio do mundo”, ela viu nele uma oportunidade. “Eu trabalhava com comércio exterior na Venezuela, e aqui, tive que me reinventar”, afirma. Por meio de aulas on-line, ela foi aprimorando a técnica e desenvolveu um estilo próprio. Diferente dos kokedamas tradicionais, com os musgos visíveis em forma de vaso na base da planta, ela passou a fazer uma estrutura mais rígida de barbantes, criando, assim, sua marca pessoal. “Eu estava em um momento muito triste e pensativa. Então, enquanto fazia um kokedama, comecei a enrolar o barbante no musgo e segui enrolando e pensando, esqueci o que estava fazendo. Quando me dei conta, tinha enrolado muito, e criado essa forma. Vi que ficou lindo e passei a fazer assim”, lembra.
Hoje, a produção e venda de kokedamas faz parte do orçamento da família. Mas a participação na feira não serviu apenas para trazer renda à Melitza. Além de ter participado em palestras (inclusive como palestrante), ela reforçou a rede de contatos pensando no sucesso das vendas que tem alcançado. “Estamos tentando ampliar nossas vendas on-line no momento, porque temos muitos pedidos de pessoas que não moram em São Paulo, mas não conseguimos enviar, porque são produtos vivos e delicados. Então, fizemos alguns contatos aqui na feira para fecharmos alguma parceria que nos forneça embalagens que nos permitam enviar para todo o Brasil”, planeja.
Nacionalidades representadas e reconhecidas
A maior parte das mulheres empreendedoras que levaram seus produtos para a feira integram o projeto “Mulheres Migrantes em Movimento: Construindo Sonhos e Autonomia”, realizado pelo CDHIC em parceria com a organização espanhola Manos Unidas. O projeto tem como objetivo fortalecer empreendimentos liderados por mulheres refugiadas e migrantes, em áreas como artesanato, gastronomia, moda, entre outras, promovendo a autonomia econômica, a geração de renda e a valorização de seus saberes e talentos.
Entre os 15 estandes apoiados por ACNUR e CDHIC na Feira do Empreendedor, estiveram representados Haiti, Venezuela, Senegal, Afeganistão, Bolívia, Paraguai e Irã. Em um dos espaços, porém, ainda mais nacionalidades estiveram representadas.
“Somos um coletivo de 23 mulheres de distintos países, como Afeganistão, Irã, Nigéria, Haiti, Palestina”, destacou a boliviana Vanessa Tatiana Azeñas Maltea, do coletivo Fio Migrante. Localizada em Guarulhos (SP), a iniciativa une produção e venda de produtos de costura e bordado com oficinas de escuta, acolhimento e autocuidado. “Temos espaços semanais de encontros, onde as mulheres bordam, cantam, dançam, choram, riem e conversam no idioma delas. Essa mistura nos enriquece e nos faz sentir em casa. É muito lindo fazer algo além do empreendedorismo em si, que gera um retorno econômico”, declara.
A boliviana Vanessa Tatiana Azeñas Maltea representou o coletivo Fio Migrante, que une 23 mulheres de diferentes nacionalidades em torno do bordado
Ela conta que essa foi a primeira vez que o coletivo participou de uma feira grande, com a relevância e o tamanho de público da Feira do Empreendedor. “Estamos muito felizes porque estamos chegando em pessoas que a gente nunca chegaria por nossos meios, estamos aumentando nossa audiência nas redes sociais. Também porque estamos vendendo para pessoas que reconhecem o valor e o diferencial do nosso produto, que é um bordado autoral, com muita história”, comemora.
Compartilhamento de experiências
Além do apoio aos empreendimentos, o ACNUR participou do painel “Empreendedorismo de pessoas refugiadas e ESG: fortalecendo a inclusão produtiva por meio de cadeias de valor mais diversas e sustentáveis”. A associada de Soluções Duradouras do ACNUR, Vivian Holzhacker, debateu com as empreendedoras Shogofa Farahmand (afegã) e Melitza Quinonez Moreno (venezuelana) a importância do incentivo aos pequenos negócios liderados por pessoas refugiadas e as vantagens oferecidas a setores e segmentos que buscam aumentar a diversidade cultural em suas cadeias produtivas.
A experiência do empreendedorismo entre mulheres refugiadas também foi tema de palestra durante a Feira do Empreendedor 2026
Saiba mais
Confira a lista completa de negócios liderados por pessoas refugiadas que estiveram na Feira do Empreendedor 2026:
Torres de Tentação – doces e confeitaria da Venezuela
Sabor da Casa Afegã – doces e salgados típicos do Afeganistão
Confeitaria Gabby Vargas – bolos e doces produzidos por boliviana
RCIB Salgados e Bolos – culinária do Haiti
Bolivita Café – sucos saudáveis e salgados típicos da Bolívia
Chevere restaurante – sucos naturais e bolos orgânicos, sem glúten e sem lactose, com sabores da Venezuela
Néctar Puro – doces e pães tradicionais afegãos
Malu Dulces Doces – doces, bolos e salgados típicos do Paraguai
Hanukkah Confeitaria – doces finos iranianos
Nilarts – peças de madeira entalhada e joias artesanais com pedras naturais, feita por artista afegã
Mama Nossa Cultura – bijuteria e tecidos africanos escolhidos por refugiada senegalesa
Melitza Kokedama – kokedamas e arranjos naturais produzidos por empreendedora venezuelana
Fio Migrante – decoração, acessórios, roupas e bijuterias feitas artesanalmente por coletivo de mulheres refugiadas e migrantes de diferentes nacionalidades
Ezansel – modas e acessórios autorais, produzidos por haitiana
Aeternum Bijoux – joias feitas a mão por empreendedor venezuelano