Por meio do empreendedorismo, refugiada afegã busca recomeço no Brasil
Por meio do empreendedorismo, refugiada afegã busca recomeço no Brasil
Entre os produtos de maior destaque de Frözan estão as caixas e artes talhadas em madeira, atividade que, no Afeganistão, é prioritariamente feita por homens
Promover a arte em suas diferentes expressões, em espaços que permitam a autonomia das mulheres e que ofereçam oportunidades de recomeço para pessoas refugiadas e migrantes do Afeganistão que buscaram no Brasil um recomeço. Esse é o principal objetivo buscado pela afegã Frözan Sediqui, que há cerca de três anos chegou a São Paulo fugindo dos conflitos e da insegurança em seu país natal.
Formada em Relações Internacionais, Frözan deixou de lado a carreira executiva para se dedicar às artes. Durante quatro anos, ela manteve uma galeria na capital, Cabul, onde, além de comercializar sua própria arte, abria as portas para outras artesãs. “Comecei com gravura em madeira e pinturas. E, com isso, vi que muitas mulheres precisavam de ajuda para trabalhar e vender seus produtos de bordado, tapetes, roupas e joias. Então, começamos a nos ajudar – elas traziam a arte delas, e a gente vendia na galeria, como em uma loja colaborativa”, lembra.
“Estávamos indo muito bem no Afeganistão, crescendo bastante, vendendo muito para outros países. Até que o talibã chegou e não aceitou o nosso trabalho. Foi quando fecharam minha galeria, colocaram fogo nas obras. Foram dias muito difíceis para mim”, lamenta. Por algum tempo, ela e as mulheres resistiram – se encontravam escondidas e se organizavam para seguir exportando. Até que o mercado se fechou totalmente e a única saída foi a decisão por deixar o país.
Oportunidades e recomeço
Desde que chegou ao Brasil, Frözan tem participado de capacitações e aproveitado as oportunidades que surgem em seu caminho. Tem feito curso de português, empreendedorismo e gestão de negócios. Já participou de mais de 30 feiras culturais e de artesanato. Também trabalha como professora de maquiagem e de pintura em henna. “Aprendi com minha mãe a ser uma mulher forte e independente. E sempre acreditei que a minha arte iria me salvar”, conta.
Em novembro, ela integrou a primeira turma de empreendedorismo oferecida especialmente para pessoas afegãs, em parceria com o Sebrae-SP e a Cáritas Arquidiocesana de São Paulo. A partir dessa oportunidade, recebeu incentivo para aprimorar o negócio e o convite do Sebrae-SP para expor na loja colaborativa mantida em um shopping na capital.
Durante o primeiro semestre de 2026, a arte de Frözan pode ser adquidida também na loja colaborativa do Shopping Cidade de São Paulo
“Esse curso foi uma oportunidade muito direta para mim, e que tem me ajudado a chegar aonde eu quero. Aprendemos muita coisa, como documentação, financeiro, empreendedorismo no Brasil. No final, escrevi um projeto e me aceitaram para a loja colaborativa, que está sendo muito boa”, comemora.
O espaço na loja colaborativa está garantido até o final do primeiro semestre de 2026. Nesse tempo, ela se prepara para, um dia, conseguir abrir o espaço cultural afegão. “Quero fazer um espaço bastante cultural para mostrar que o Afeganistão não é só um país em guerra. Quero abrir um espaço onde possam ser oferecidas aulas de persa, comida afegã, escultura em madeira, gravuras, joias. Eu sei que a arte me ajudou bastante, me salvou, me deixou mais forte. Quero dividir isso com a comunidade brasileira.”
Apoio para a integração local
Grande parte das atividades oferecidas, como o curso de empreendedorismo, integram o projeto realizado em parceria entre ACNUR e a organização Islamic Relief USA (IRUSA). Anunciada em setembro, a iniciativa prevê beneficiar diretamente cerca de 2 mil pessoas afegãs em todo o Brasil, por meio de ações voltadas à integração local e ao fortalecimento socioeconômico. Com ações previstas até junho de 2026, a parceria visa alcançar indiretamente outras 10 mil pessoas, beneficiando também comunidades brasileiras de acolhida.
Além do curso de empreendedorismo, a parceria inclui ensino da língua portuguesa, assistência jurídica, aconselhamento sobre o mercado de trabalho, promoção de oportunidades de emprego formal, revalidação de diplomas, prevenção da violência baseada em gênero e apoio à saúde mental e psicossocial. Nas comunidades brasileiras, a parceria prevê o apoio a atividades culturais e de convivência pacífica. Inclui, ainda, formações e troca de experiências com organizações da sociedade civil que trabalham diretamente com a população afegã no Brasil, além da produção de pesquisas que servirão de base para advocacy e políticas públicas baseadas em evidências.