Para Equipe Olímpica de Refugiados, Rio 2016 mudará percepção sobre refúgio

Os atletas da Equipe Olímpica de Refugiados acreditam que a participação deles nos Jogos Olímpicos mudará a visão da opinião pública internacional sobre o refúgio e o deslocamento forçado.

RIO DE JANEIRO, Brasil, 31 de julho de 2016 (ACNUR) – Os atletas que integram a inédita Equipe Olímpica de Refugiados acreditam que a participação deles nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro mudará a visão da opinião pública internacional sobre o refúgio e o deslocamento forçado. Dos dez atletas selecionados pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), nove já se encontram no Rio de Janeiro.

“Milhões de pessoas, e também de refugiados, estarão olhando para nós. E vamos mostrar que podemos mudar nossas vidas”, disse hoje o sul sudanês Yiech Pur Biel, de 21 anos, em uma entrevista coletiva realizada do Centro de Imprensa da Rio 2016. “É a nossa change de mostra que os refugiados podem fazer coisas positivas”, acrescenta o compatriota James Nyang Chiengjiek, 28 anos, na mesma entrevista. Ambos vivem no Quênia – assim como os demais refugiados do Sudão do Sul – e competirão a prova de 800 metros rasos.

“Vamos fazer história nestas Olimpíadas”

Ontem, outros quatro atletas (dois nadadores da Síria e dois judocas da República Democrática do Congo) também concederam uma entrevista coletiva e revelaram suas expectivas quanto à mudança de percepção sobre os refugiados. “Vamos fazer história nestas Olimpíadas”, afirmou a judoca Yolande Mabika, 28 anos, que disputará na categoria peso médio. “Todo mundo fala que os refugiados não têm importância. Mas vamos mostrar, aqui na Rio 2016, que somos capazes de fazer tudo o que queremos”, completou Yolande, que vive no Rio de Janeiro.

A equipe, incluindo os técnicos e os chefes da delegação, está acomodada na Vila dos Atletas. A rotina tem sido dividida entre treinos intensos e diários e algumas oportunidades de conhecer as atrações turísticas da cidade. No sábado, parte da equipe foi conhecer o Cristo Redentor, uma das atrações turísticas do Rio de Janeiro mundialmente famosas.

Nas oportunidades que já tiveram de conversar com a imprensa, os refugiados demonstram consciência sobre a importância desta histórica participação nos Jogos Olímpicos. “Temos que nos mover e correr atrás dos nossos sonhos”, afirma o nadador sírio Rami Anis, 25 anos, que vive em Luxemburgo e competirá na modalidade 100 metros borboleta. “Hoje, represento todos os refugiados do mundo”, afirma o judoca congolês peso médio Popole Misenga, 24 anos, que mora no Rio de Janeiro.

Para a nadadora síria Yusra Mardini, a Equipe Olímpica de Atletas Refugiados reúne pessoas com têm algo em comum: “nunca desistimos e nos esforçamos muito para chregar até aqui. Passamos por maus momentos, mas prosseguimos porque temos sonhos”, afirma a garota de 22 anos, que vive na Alemanha. “Ser uma refugiada não quer dizer que você ficará assim para sempre. Tenho a esperança de poder voltar para meu país quando a guerra acabar”, diz a refugiada do Sudão do Sul Rose Nathike Lokonyen, 23 anos, que compete nos 800 metros rasos.

“Sendo refugiados, podemos fazer qualquer coisa que um ser humano é capaz de fazer”

Yiech Pur Biel, do Sudão do Sul, reforça a crença dos atletas no poder de mudança da Equipe de Atletas Refugiados. “Vamos mostrar que, sendo refugiados, podemos fazer qualquer coisa que um ser humano é capaz de fazer”.

Em meio a sentimentos de esperança, muitos dos refugiados não deixam de expressar sua tristeza com as consequências das guerras e dos conflitos que os obrigaram a deixar seus países. “Tivemos que deixar o Sudão do Sul por causa da guerra. E durante uma guerra, as casas são destruídas e as pessoas são mortas. E muitas crianças são convocadas para o combate. Isso aconteceu comigo quando tinha 10 anos. Então, minha mãe disse que era hora de partir para salvar minha vida”.

Durante a entrevista coletiva de ontem, o judoca Popole Misenga foi às lágrimas quando foi instigado a mandar uma mensagem para sua família que está no Congo, e que ele não vê há 18 anos. Com os olhos cheios de lágrimas e a voz embargada, ele mandou um beijo para os irmãos. “Espero que me vejam na televisão e saibam que eu estou vivo, aqui no Brasil, lutando judô”.

Por Luiz Fernando Godinho e Miguel Pachioni.