Líbano trabalha um turno extra para que crianças refugiadas sírias possam ir à escola

Cerca de 350 escolas em todo o país encaixam dois dias de aulas em um, fornecendo educação para 150 mil crianças refugiadas sírias.

Escolas no Líbano estão trabalhando um turno extra para que crianças refugiadas sírias tenham acesso à educação. © ACNUR/Andrew McConnell

Durante a semana, no horário do almoço, as paredes da Escola Bar Elias, no Vale do Bekaa no Líbano, ecoa as vozes das mais de 1.600 crianças que caminham para as salas de aula.

Cercada por hortas, a escola é uma das 350 no Líbano que opera em um “segundo turno”. O sistema foi criado para encaixar dois dias escolares em um, proporcionando acesso à educação para 150 mil crianças refugiadas sírias.

O Líbano abriga cerca de 987 mil refugiados sírios, sendo 490 mil crianças em idade escolar (3 a 18 anos). Infelizmente, mais da metade dessas crianças não estão na escola, enquanto 220 mil crianças sírias frequentam a escola como parte do segundo turno ou em aulas matinais com alunos libaneses.

Na escola Bar Elias, 770 alunos sírios frequentam a escola durante o turno da tarde em turmas de cerca de 35 alunos. O currículo, os materiais de ensino, e a maioria dos professores são os mesmos das crianças libanesas que frenquentam a escola durante a manhã.

“Fiquei muito feliz por ter esta oportunidade de frequentar a escola.”

Moaed, de 13 anos, é um dos alunos sírios no turno da tarde. Ele foi forçado a fugir de Raqqa há quatro anos com sua família para escapar dos extremistas que controlavam a cidade. Ele ainda se esforça para deixar essas memórias para trás.

“Ainda me lembro de como eles decapitaram as pessoas na minha cidade”, disse ele. “Eu vi com meus próprios olhos. Isso é uma coisa que eu não consigo esquecer, mas eu tento apagar essas memórias. ”

Pouco depois de chegar ao Líbano, Moaed e sua família aprenderam que os sírios poderiam se matricular em escolas públicas libanesas, e os certificados seriam reconhecidos na Síria. Ele aproveitou a oportunidade para retomar seus estudos.

“Fiquei muito feliz por ter esta oportunidade de frequentar a escola. Eu adorei desde o primeiro dia”, disse ele. “Eu perdi dois anos de escolaridade por causa da guerra. Eu deveria estar na sétima série, mas agora estou na quinta série.”

O diretor da escola, Ehsan Araji, diz que a escola está operando em plena capacidade para tentar oferecer uma educação para o maior número possível de refugiados sírios, mas mesmo assim, às vezes não conseguem acomodar todos.

“Como a escola está localizada em um local onde vivem muitos refugiados sírios, às vezes fica difícil para nós”, disse ele. “Temos listas de espera e, às vezes, se não podemos acomodar mais alunos, os enviamos para outras escolas próximas”.

O ACNUR fornece apoio a essa e outras escolas no Líbano na forma de livros, móveis e outros suprimentos, além de financiar a reabilitação e expansão de prédios escolares. Também apoiamos programas para incentivar que as crianças sírias a se matriculem e permaneçam na escola, incluindo clubes de estudos, grupos de engajamento dos pais, e voluntários que atuam como um elo entre escolas, alunos e pais.

“Com essa educação, eles construirão algo para o futuro.”

O desejo de Moaed de se tornar um engenheiro significa que ele deve estudar muito a matemática, e seu professor, Mohammed Araji, nos contou que sua habilidade e motivação é típico de muitos de seus alunos sírios.

“Eles tiram boas notas e aprendem rápido. Os estudantes sírios têm grandes esperanças. Alguns querem ser engenheiros, outros querem ser médicos, apesar de suas situações difíceis. Às vezes, o acampamento pode ficar longe da escola, mas os alunos insistem em conseguir obter um certificado e melhorarem a si mesmos”.

Mohammed espera que as crianças refugiadas que ele ensina durante o turno da tarde, um dia, possam usar o que aprenderam para poder trabalhar quando puderem voltar para casa.

“Com essa educação, eles construirão algo para o futuro”, disse ele. “Eles dirão aos seus filhos: ‘Nós já fomos estudantes refugiados sírios, longe de casa, quando houve uma guerra aqui, mas nós tínhamos ambições e conseguimos realizá-las’. Isso incentivará outros a fazerem o mesmo”.

Seja um doador e nos ajude a apoiar mais programas de educação para crianças refugiadas sírias!