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De olho no mercado de trabalho, refugiadas em São Paulo aprendem sobre direitos, cultura brasileira e empreendedorismo

Projeto “Empoderando Refugiadas” ajuda mulheres a conquistar emprego e auto-suficiência no Brasil

SÃO PAULO, 19 de abril de 2017 (ACNUR) – Com diferentes origens e histórico profissional, 12 refugiadas que vivem em São Paulo têm um objetivo comum: trabalhar em áreas relacionadas ao seu conhecimento e currículo prévio. Reunidas pelo projeto “Empoderando Refugiadas”, elas participaram neste mês de uma nova rodada de debates para aprender mais sobre direitos das mulheres, cultura brasileira, finanças e empreendedorismo.

Implementado desde 2015 sob a coordenação da Rede Brasil do Pacto Global (por meio de seu Grupo Temático de Direitos Humanos e Trabalho), o projeto tem a participação do ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) e da ONU Mulheres. Mais de 30 refugiadas já participaram de edições anteriores, recebendo capacitação profissional, noções de empreendedorismo, contatos com empregadores, orientações sobre direitos e acesso a oportunidades de emprego.

E no encontro realizado no Instituto Carrefour, em São Paulo, uma das grandes motivações veio de uma outra refugiada, que já participou do projeto e hoje trabalha como atendente de turismo.

“Estou muito contente. Acredito que todos nós temos que colocar um grão de areia nessa batalha. Eu e minha família lutamos muito nesse país, desde o primeiro dia que chegamos. Temos sempre que acreditar que amanhã vai ser melhor”, contou ela, que veio da Colômbia e viva no Brasil há mais de dois anos. Sua recolocação no mercado de trabalho intermediado pelo Posto de Atendimento ao Trabalhador (PAT), serviço do Governo do Estado de São Paulo.

Em edições anteriores, o “Empoderando Refugiadas” capacitou 33 refugiadas e contou com a participação de empresas, consultorias em recursos humanos e entidades de assistência, que foram sensibilizados sobre a contratação de mulheres em situação de refúgio. Das 33 refugiadas participantes, 20 passaram por entrevistas de trabalho e nove foram efetivamente contratadas.

Consultora de Responsabilidade Social e Diversidade do Carrefour, Cibele Delbin ficou sensibilizada com a do refúgio e reforçou o interesse da empresa em contratar refugiadas. “Nosso interesse em trazê-las para fazer parte do nosso quadro é total. E a ideia é agregar valor na vida de vocês, e que vocês percebam mudanças positivas a cada workshop”, disse a consultora ao grupo de refugiadas.

Dos cerca de 9.000 estrangeiros reconhecidos no Brasil como refugiados, cerca de 30% são mulheres – segundo dados do Comitê Nacional para Refugiados (CONARE). Entre os documentos concedidos aos refugiados residentes no Brasil está a Carteira de Trabalho, que permite o ingresso formal no mercado laboral, nas mesmas condições de qualquer cidadão brasileiro.

A Promotora de Justiça do Ministério Público de São Paulo, Maria Gabriela Prado Manssur, falou sobre os direitos das mulheres no Brasil e os dispositivos legais com os quais o país conta para protegê-las. “A violência não é uma novidade para as brasileiras nem para vocês. Nós estamos vivendo uma fase em que as mulheres estão denunciando as violências que sofrem”, comentou ela ao apresentar casos práticos de situações de assédio e meios de realizar denúncias.

A segunda metade do encontro abordou aspectos da cultura brasileira e a importância do aprendizado do português para que as mulheres refugiadas consigam exercer suas profissões de acordo com seus conhecimentos e experiências anteriores.

Funcionário da EMDOC, uma consultoria especializada em imigração, deu dicas às refugiadas sobre particularidades da cultura brasileira, como a burocracia, a afetividade do povo brasileiro e as complicações dos contratos de aluguel. ©Pacto Global / Fellippe Abreu

Claudia Pirani, da empresa LanguageLand, foi categórica: estudar é algo que se leva para a vida, mesmo que já se tenha muito conhecimento. “Além de falar muito bem, vocês precisam escrever bem e abrir o ouvido. A novela ajuda a inseri-las no ambiente. A música é outra coisa que ajuda muito na questão de sonoridade, vocabulário e expressões”, comentou Claudia, destacando a importância de trazer o aprendizado do idioma para o cotidiano.

Vinicius Paris, representante da EMDOC, consultoria especializada em imigração que implementa o Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (PARR), comentou algumas particularidades marcantes da cultura brasileira, como a burocracia existente, a afetividade do povo brasileiro e a importância de se atentar aos detalhes dos contratos de aluguel.

Ao final do dia, as refugiadas participaram de discussões sobre carreira profissional e empreendedorismo com voluntários das empresas Carrefour, Sodexo, Renner, IBM, Emdoc e da ONG Migrafix.

Ao conversar com duas participantes do “Empoderando Refugiadas”, o analista de sustentabilidade da Renner, Leandro Parker, comentou sobre as intenções da empresa em aumentar o número de refugiados em seu quadro. Segundo ele, a Renner conta hoje com cinco refugiados, mas vai destinar 75 vagas em cursos de formação – com carga horária de 150 horas – as estrangeiros que estão reconstruindo suas vidas no Brasil. “Essa questão é de extrema importância para a gente, por se tratar de mulheres que estão numa situação duplamente vulnerável, não apenas pelo gênero, mas por serem refugiadas. Queremos ser parte da solução porque temos plena consciência de que os problemas do mundo são nossos também”, avalia o analista.

O “Empoderando Refugiadas” tem como parceiros estratégicos a Caritas Arquidiocesana de São Paulo, a Fox Time Recursos Humanos, o ISAE e o PARR. Além disso, conta com as seguintes empresas parceiras: Carrefour, EMDOC, Facebook, Lojas Renner e Sodexo.

O próximo encontro do projeto Empoderando Refugiadas será realizado na sede da EMDOC, em São Paulo, no dia 11 de maio.

Por Gabriela Bazzo e Miguel Pachioni, de São Paulo