Violinista venezuelano sonha em voltar a tocar no Brasil

Antonio González chegou a viajar aos Estados Unidos como músico, mas teve que abandonar a profissão e deixar a Venezuela. Agora, espera por uma oportunidade.

O violinista Antonio González toca a música "Venezuela", uma espécie de segundo hino nacional do país.

“Com sua paisagem e meus sonhos eu irei,
por esses mundos de Deus,
e as memórias do pôr do sol,
vão tornar o caminho mais curto.”

Esse trecho, em tradução livre, da música “Venezuela” – considerada pelos venezuelanos um segundo hino nacional – inspirou e continua inspirando o violinista Antonio Rafael Rondon González, de 31 anos. Até alguns anos atrás, ele vivia da música, mas, devido à atual situação do país, teve que deixar seu instrumento de lado e se mudar para o Brasil como solicitante de refúgio. Agora, ele sonha em voltar a tocar as pessoas com seu talento em uma orquestra brasileira.

A relação entre Antonio e a música é antiga. Começou em 1999, quando o sistema de Orquestras Sinfônicas Infantis e Juvenis da Venezuela chegou à cidade onde ele morava, um pequeno povoado chamado Rio Caribe, na costa do país. Filho de pescador, o garoto de 12 anos não sabia o que era um instrumento musical, muito menos um violino.

“Desde então, minha vida mudou para sempre”, lembra. “Graças à música, tive a oportunidade de conhecer muitas cidades do meu país e do exterior. Viajei aos Estados Unidos em 2005.”

De aprendiz, o talentoso Antonio logo virou mestre. ensinando crianças que, como ele, nunca haviam visto um violino, e ajudando novos integrantes da orquestra do projeto. Na capital Caracas, estudou no Conservatório de Música Simón Bolívar, mas não conseguiu concluir. Por dificuldades financeiras, em 2013, voltou à região onde nasceu e parou de tocar violino. E a situação na Venezuela piorou.

A fim de ajudar a família, o músico resolveu deixar o país. Escolheu o Brasil por influência de um amigo brasileiro e pela proximidade territorial. “Sempre gostei do Brasil, mas nunca pensei em chegar aqui desta maneira. É desesperador não ter o que comer, sempre pensando no dia seguinte. Decidi vir para cá para poder ajudar meus parentes e amenizar o sofrimento deles – minha mãe é enferma, por exemplo. Quero dar dignidade a eles. Na Venezuela, não podia fazer isso, o que me entristece”, explica.

Atualmente, Antonio frequenta o curso de português do Programa de Atendimento a Refugiados e Solicitantes de Refúgio (PARES) da Cáritas RJ e trabalha vendendo peixe em uma das favelas da cidade. No entanto, seu sonho é voltar às cordas do violino.

“O violino é meu amigo fiel. Tenho um sentimento muito especial pelo instrumento. Graças a ele, consegui muitas coisas e fui a muitos outros lugares. A música para mim é me sentir vivo, e espero encontrar um lugar que possa me acolher como músico, uma orquestra sinfônica aqui no Brasil. Seria maravilhoso”, sonha.

Ao ouvi-lo tocar a música “Venezuela” – citada no início da matéria –, a também refugiada venezuelana Doris Garcia, que aguardava atendimento na Cáritas RJ, começou a cantarolar baixinho e se emocionou. Com os olhos úmidos, disse que lhe veio a lembrança da família, que ficou no país e também costumava tocar a canção, um clássico para os cidadãos. “A letra é muito bonita e nos representa como venezuelanos”, conclui.