Refugiada rohingya reconstrói sua vida em Bangladesh com ajuda da educação

Nazmun está entre os 740.000 refugiados rohingya que, desde 2017, fugiram de Mianmar para escapar da violência extrema

Retrato de Nazmun Nahar, de 19 anos, no Clube de Adolescentes Naf, no campo de refugiados de Kutupalong, Cox's Bazar, Bangladesh. © ACNUR/Vincent Tremeau

Nazmun, de dezenove anos, está parada em frente a um quadro-negro, diante da classe.  Com pó de giz no ar ao seu redor, ela explica pacientemente a lição do dia.


Seus alunos – normalmente um grupo de meninas rindo – absorvem cada palavra dela enquanto sua confiança silenciosa emana por toda a sala. Ela é muito mais sábia do que se espera de sua idade. Isso vem de sua natureza estudiosa, mas também de alguns traumas que Nazmun sofreu para chegar onde está.

Nazmun está entre os 740.000 refugiados rohingya que fugiram do conturbado Estado de Rakhine, em Mianmar, em um êxodo colossal desde 2017.

Muitos vilarejos na área onde Nazmun vivia eram pequenas comunidades de cultivo de arroz, onde as pessoas ganhavam a vida lavrando os campos. Suas memórias não são tão pitorescas. “Estávamos vivendo em meio a uma instabilidade”.

Enquanto o conflito varria a região, casas como a dela foram totalmente queimadas e os moradores temeram por suas vidas. “Eles costumavam sequestrá-los e matá-los”, diz Nazmun suavemente. Ela mesma era apenas uma adolescente e estava apavorada com o que poderia acontecer com sua mãe e seu pai. “Eles poderiam fazer algo ruim contra nossos pais.”

Ela se lembra do momento em que a violência atingiu o ponto crítico e sua família foi forçada a tomar a decisão fatídica de deixar sua casa e seguir para Bangladesh três anos atrás: “Quando havia assassinatos em massa, as pessoas vinham para cá fugindo”. Depois de deixar tudo para trás, Nazmun chegou em Bangladesh sem casa e encharcada pelas chuvas das monções.

“O que mais sinto falta é de estudar”

Mas o ACNUR estava lá para ajudar famílias como a de Nazmun com assistência imediata para salvar vidas. Cerca de 825.000 refugiados recém-chegados como ela já foram registrados pelo ACNUR. Eles receberam documentos de identidade das autoridades de Bangladesh, cuidados médicos, abrigo, comida e água.

Nos últimos três anos, Nazmun começou a reconstruir sua vida no assentamento Kutupalong, Cox’s Bazar. Junto com sua família, ela tem um abrigo que é seguro e seco, acesso a alimentos e água potável e serviços de saúde. Mesmo assim, Nazmun anseia por partes de sua antiga vida. “O que mais sinto falta é de estudar.”

Em Mianmar, Nazmun estava no 9º ano, no meio do ensino secundário, quando sua família teve que abandonar tudo e fugir de casa. Os extensos assentamentos de refugiados oferecem poucas oportunidades para as adolescentes continuarem seus estudos, apesar do fato de mais da metade de todos os refugiados rohingya em Bangladesh terem menos de 18 anos.

Nazmun foi sortuda. Ela pode frequentar um centro de aprendizagem temporário em Kutupalong apoiado pelo ACNUR, que oferece aulas de inglês, birmanês, matemática e outras habilidades. O centro é feito de uma estrutura de bambu humilde, mas bem decorada. Desenhos infantis adornam as paredes e guirlandas artesanais de vibrantes flores de tecido caem do teto.

Meninas adolescentes assistem às aulas no Clube de Adolescentes Naf. © ACNUR/Vincent Tremeau

Um grupo de adolescentes se reúne para cantar uma música. “A próxima parte significa ‘todos juntos em harmonia’ e, em seguida, fala sobre os professores ensinando os alunos”, explica Nazmun. É uma cena feliz.

Como muitos refugiados, Nazmun também deseja ser independente. Depois de fazer algumas aulas, ela decidiu se inscrever em um curso para se tornar uma facilitadora no centro de aprendizagem para atingir esse objetivo. “Se eu receber algum salário como professora, posso suprir as minhas necessidades”, ela argumenta.

Agora com 19 anos, Nazmun dá aulas no Naf Adolescent Club, proporcionando uma saída criativa às meninas com fome de aprender, bem como uma ponte para outras habilidades práticas. Mais de 1.300 pessoas como ela foram recrutadas, treinadas e enviadas pelo o ACNUR e seus parceiros para liderar aulas nos assentamentos de refugiados.

Nazmun Nahar, 19 anos, dá aulas no Naf Adolescent Club. © ACNUR/Vincent Tremeau

As aulas estão longe de ser uma educação formal, mas mantêm a mente das meninas ativa. “Se elas não tivessem habilidades matemáticas básicas, elas não seriam capazes de operar as máquinas de costura – elas precisam saber contar. Então, querem aprender a contar. Elas querem fazer mais desse tipo de trabalho.”

Nazmun é claramente uma inspiração para os outros: o número de alunos está crescendo. “Há 30 meninas matriculadas aqui, mas, às vezes, 40 ou 50 meninas vêm aos encontros,” Nazmun orgulha-se. Para muitas, esse grupo é como uma extensão da família.

“Aqui, não temos esse medo. Podemos viver em segurança”

Os rohingya querem voltar para Mianmar assim que for seguro. “Queremos voltar ao nosso país”, diz ela, assentindo. Mesmo com tudo o que ela testemunhou, Nazmun anseia por voltar.

Mas até que isso seja possível, ela se sente confortável para permanecer em Bangladesh sem se preocupar com tamanha brutalidade e derramamento de sangue. “Aqui, não temos esse medo. Podemos viver em segurança. ”


Desde o início da crise rohingya, o ACNUR está atuando para fornecer comida, abrigo, saúde e soluções duradouras que os permitam reconstruir suas vidas.

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