Refugiados sírios reconstroem vida no Brasil através da gastronomia

A gastronomia é lembrança e é afeto, mas para muitos refugiados sírios significa também a chance de um novo começo no Brasil

A chef Paola Carosella e a também chef síria Salsabil apresentam receita de mini quibe recheado, em ação promovida pelo ACNUR. © ACNUR/Victor Moriyama

Há 10 anos a Síria sofre com o terror da guerra. Mais de 11 milhões de pessoas foram obrigadas a deixar suas casas em busca de segurança. Após ter que deixar sua pátria, refugiados enfrentam muitos obstáculos em novos países, como por exemplo a dificuldade de ter o seu diploma validado, impactando diretamente a sua procura por um novo emprego.
Na busca de um novo começo no Brasil, refugiados sírios empreenderam e encontraram na culinária uma maneira de reconstruir suas vidas e ao mesmo tempo lembrar de sua terra natal. Confira suas histórias:

Salsabil, 34 anos, chef em São Paulo

Foto: ACNUR / Victor Moriyama

Salsabil teve que deixar a cidade de Douma, na Síria, devido à guerra que persiste no país há quase dez anos. Sua formação profissional em Farmácia e anos de trabalho permitiram que ela pudesse ter a sua própria drogaria, vivendo bem ao lado de seu marido e filhos. No Brasil desde 2014, Salsabil teve o seu diploma de Farmácia revalidado pela Compassiva, organização parceira do ACNUR, mas trilhou seu caminho por outros rumos.

“Desde que cheguei no Brasil fui atrás do que queria. Revalidei meu diploma, fiz cursos de capacitação profissional com a Migraflix, Empoderando Refugiadas e Mulheres do Brasil. Com todos esses saberes, optei por abrir o meu próprio negócio, o serviço de catering que tem meu próprio nome: Cozinha de Salsabil”, disse com orgulho a empreendedora que até já cozinhou ao lado da Paola Carosella.

Assista aqui o vídeo de Salsabil cozinhando com Paola Carosella.

Leia a história completa de Salsabil

 

Lucia, 30 anos, chef em Curitiba

Foto: Yasmin Comida Árabe/Divulgação

Além de ser uma mulher multitarefa, a refugiada síria Lucia realiza com primor tudo o que faz. Chegou ao Brasil em 2013 e em pouco tempo se tornou a primeira universitária refugiada formada no Paraná, em arquitetura. Ao lado de seu marido e cunhados, montaram a banda Alma Síria, que já tocou em festivais consagrados e eventos internacionais. Mais recentemente, abriram sua casa em Curitiba para compartilhar a autenticidade gastronomia de Alepo, sua cidade natal na Síria.

“Nós já tínhamos experiência em gastronomia lá na Síria e acreditamos que seria uma oportunidade ter este negócio diferenciado aqui em Curitiba. Abrimos a nossa própria casa para receber grupos de pessoas para jantares temáticos, mas agora a situação é diferente”, afirma se referindo à pandemia.

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Joanna, 32 anos, empreendedora em São Paulo

Foto: ACNUR/Victoria Hugueney

Joanna é empreendedora nata. Aliás, está na raiz da família. Seu pai tinha um salão de beleza na Síria, seu país de origem. Um dos tios era gerente de um restaurante e seu irmão era chef de cozinha. Joanna até começou a estudar farmácia, mas o conflito no país e o ímpeto pelo empreendedorismo a fizeram seguir o caminho familiar.

A empreendedora chegou no Brasil em 2015 e começou a atuar como tradutora. Em paralelo criou uma plataforma de comércio online para venda de ingredientes árabes para atender a restaurantes e, na sequência, teve outro projeto selecionado por uma incubadora para o desenvolver. O OpenTaste foi então inaugurado. Trata-se de uma proposta que oferecia uma cozinha semi-industrial para que refugiados possam produzir seus pratos e apresentar aos clientes em um restaurante de São Paulo.

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Fatima, 45 anos, chef em São Paulo

Foto: ACNUR/Érico Hiller

Reviralvoltas têm sido uma constante na vida de Fatima. Ela se tornou refugiada antes mesmo de chegar ao Brasil, quando teve que deixar sua cidade natal, Alepo, no norte da Síria, no início dos conflitos no país, em 2011.  Fatima chegou ao Brasil em 2014 e se esforçou muito para que o processo de integração em São Paulo, cidade onde vive com sua família, fosse o mais rápido possível. O bem-estar dos seus filhos ditou toda as mudanças que ela tomou durante o longo caminho em busca de segurança e proteção.

Fatima passou a realizar uma série de cursos e capacitações promovidas pelo ACNUR e seus parceiros. Desde 2017 ela começou a empreender no segmento de gastronomia, atendendo festas e eventos de grande porte com as delícias da cozinha árabe – inclusive com cardápio vegetariano. Mas então a pandemia fez com que ela tivesse que mudar a clientela, passando a se direcionar para as demandas familiares, pelas redes sociais – e sem perder a essência da culinária árabe.

Leia a história completa de Fátima

 

Muna Darweesh, 39 anos, chef em São Paulo

Muna, refugiada síria, apresenta a vasta variedade de alimentos árabes em um dos serviços prestados antes da pandemia em São Paulo

Foto: Muna/divulgalção

Chegou ao Brasil em 2013, tendo deixado a Síria por conta da guerra. “Ainda que eu tive que sair da Síria sem trazer meus bens, carrego em mim as memórias e boas lembranças que fazem parte das receitas que se misturam com a minha história de vida”.

Atualmente, Muna tem uma variedade de opções que envolve quibes, esfirras de diferentes recheios, falafel e charutos de folha de uva. “Como amo cozinhar e os brasileiros adoram comida árabe autêntica, encontrei o que precisava para ajudar a sustentar minha família”, afirma.

Leia a história completa de Muna

 

Talal e Gazhal, 47 e 38 anos, empreendedores em São Paulo

Foto: Divulgação

O casal Talal e Gazhal chegou ao Brasil em dezembro de 2013 com seus filhos. Talal começou a trabalhar com gastronomia porque não conseguiu atuar em sua área de formação profissional, como engenheiro mecânico. O que a época foi uma decisão emergencial para gerar renda, transformou-se em uma grande paixão.

A família já teve um restaurante na zona sul de São Paulo e por uma decisão de gestão decidiram trabalhar com comida para entregas individuais ou para eventos (casamentos, aniversários, etc). Ainda que algumas adaptações foram feitas para satisfazer o paladar do Brasil, a essência da gastronomia árabe da Síria permanece. “Aqui você se alimenta com comida síria de verdade, desde os temperos que fazemos até os ingredientes que usados em cada receita. Cozinhar tem uma forte ligação com as nossas lembranças e por isso a base do que fazemos vem toda de lá (da Síria)”.

Leia a história completa de Talal e Gazhal

 

Kenanh e Omar, 40 e 35 anos, empreendedores em São Paulo

Foto: Ronny Santos/Folhapress

Omar e Kenanh chegaram ao Brasil em 2014. Na Síria, ela trabalhava como farmacêutica e ele como supervisor em uma empresa também do ramo farmacêutico, mas a guerra iniciada em 2011 – e que continua até hoje – forçou-os a deixar o país. Ao chegar em São Paulo, Omar começou a vender doces árabes de um amigo, como forma de gerar renda para sustentar sua família, mesmo sem falar português.

“Enxerguei na gastronomia minha identidade, uma forma de me apresentar e de representar o meu país, minha cultural, às pessoas que têm interesse ou mesmo para quem já o conhece a autêntica cozinha árabe da Síria”, diz Kenanh.

O casal participou do programa de televisão Mais Você, na Rede Globo, apresentando a receita tradicional de charutos de uva para Ana Maria Braga. Confira o vídeo aqui.

Leia a história completa de Kenanh e Omar

 

Mohammad, natural da Síria, chef no Rio de Janeiro

© Arquivo pessoal

Quando questionado o porquê de ter deixado seu país natal, a Síria, Mohammad vai direto ao ponto: “Saí de lá pelo motivo que todos já sabem, por causa da guerra”, conta ele, sobre o conflito que assola o país desde 2011. O jovem, que vivia perto de Damasco, chegou ao Rio de Janeiro em 2016.

No Brasil, Mohammad foi trabalhar com um tio que já vivia por aqui. “Começamos vendendo salgado na rua e com o tempo começamos a trabalhar na Feira Chega Junto [projeto de gastronomia promovido pela Junta Local] servindo comidas típicas”, relembra ele, que não dominava português e contava com a ajuda do Google tradutor para se comunicar com os clientes.

As primeiras encomendas foram feitas via Instagram, e os fregueses rapidamente aprovaram os salgados típicos feitos por Mohammad. No menu oferecido pelo talentoso chef é possível encontrar pratos tradicionais como kafta, kebab, falafel, assim como opções vegetarianas e veganas.

Leia a história completa de Mohammad

 

Anas, natural da Síria, chef no Rio de Janeiro

© Arquivo pessoal

Em 2015, Anas chegou ao Brasil vindo da Líbia, onde fez faculdade e depois trabalhou como engenheiro de telecomunicações. Na capital fluminense, ele chegou a buscar emprego na área de formação, mas não conseguiu se recolocar. A solução, conta ele, foi começar a vender suas comidas. Nascia a Simsim Culinária Árabe. Atualmente, Anas produz pastas tradicionais da culinária árabe com ingredientes selecionados, sem conservantes e veganas.

Foram vários testes até chegar nas receitas finais, que são produzidas na cozinha da casa do chef. Seu menu é composto por cinco produtos: hommus clássico (pasta de grão de bico), hommus de beterraba, condimento de pimenta e nozes, babaganoush (pasta de berinjela), e antepasto de pimentão vermelho com melado de romã e semente de gergelim. A aceitação do público foi imediata e marcada por muitos feedbacks positivos.

Leia a história completa de Anas

 

Jana, natural da Síria, chef em Brasília

© Arquivo pessoal

Natural de Damasco, na Síria, a chef Jana encontrou em Brasília um lugar tranquilo para criar suas três filhas, que tinham entre 12 e um ano de idade quando a família se mudou para o Brasil, no ano de 2013, beneficiada por um programa de vistos humanitários para cidadãos afetados pelo conflito sírio, que se arrasta ha 10 anos.

Desde 2014, seu talento na cozinha vem dando frutos: Jana começou a empreender vendendo doces em feiras em Brasília, época em que também recebia encomendas em casa, onde conta com o apoio do marido para tocar o negócio. Em 2015, a família enfrentava sérias dificuldades financeiras, e chegou a pensar em voltar para a Síria. Com a divulgação e com o apoio de amigos, no entanto, a clientela se fortaleceu. De lá para cá, conta Jana, além das encomendas individuais, ela passou a oferecer as delícias que prepara para outros restaurantes, padarias e embaixadas.

Leia a história completa de Jana

 


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