Interiorização renova sonhos e cria oportunidades para mais 5 mil venezuelanos no Brasil

Estratégia atinge número recorde de beneficiados e oferece novas oportunidades para quem quer permanecer no Brasil

Refugiados venezuelanos posam para foto em seu novo abrigo em Igarassu, Pernambuco. © ACNUR / Allana Ferreira

Eram quatro horas da manhã e muitas pessoas dormiam no abrigo Rondon 2, uma das várias instalações que acolhem refugiados e migrantes venezuelanos em Boa Vista, capital de Roraima. Mas um grupo de aproximadamente 200 pessoas mal conseguia controlar a ansiedade e a animação: dali a poucas horas, iniciaria uma viagem para voltar a trilhar o caminho dos seus sonhos.

Composto por famílias e pessoas solteiras, o grupo embarcou na última quarta-feira (13 de março) em um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) para mais uma rodada da estratégia de interiorização, criada pelo governo brasileiro para reduzir o impacto da chegada de refugiados e migrantes venezuelanos no norte do país e criar novas oportunidades de integração para quem decidiu recomeçar a vida no Brasil.

Apoiado pela Agência da ONU para Refugiados (ACNUR), por entidades da sociedade civil e por outras agências da ONU (como OIM, UNFPA, PNUD e UNICEF), a estratégia de interiorização tem caráter voluntário e acaba de superar a marca de 5 mil beneficiados. Em breve, completará um ano.

“A interiorização é a nossa esperança por melhores oportunidades. Não queremos depender de assistencialismo. Queremos encontrar um trabalho e sustentar nossa família”, diz Alfredo Colón, que estava entre os passageiros do voo da semana passada e foi transferido com a família para Igarassu, em Pernambuco. Todos foram acolhidos num abrigo da ONG Aldeias Infantis, apoiado com recursos do ACNUR e seus doadores.

Alfredo Colón, Rosana Matute e família aguardam para embarcar no avião da Força Aérea Brasileira. © ACNUR / Allana Ferreira

A história de Alfredo cruzou com a de Rosana Matute, hoje sua mulher. Os dois se conheceram na Venezuela há cerca de dez anos. Mas foi na região da rodoviária de Boa Vista, onde ela viveu por três meses logo após chegar ao Brasil, que se reencontraram para reatar o relacionamento e encarar os desafios como uma família.

“Nunca imaginei que encontraria Alfredo novamente, muito menos que me casaria com ele”, se diverte Rosana ao lembrar da história. Ela cruzou a fronteira com dois filhos e, após o casamento, foram acolhidos em um dos abrigos administrado pelo ACNUR e seus parceiros em Boa Vista. Com a chegada de um terceiro filho – este, brasileiro – Rosana e sua família tiveram a oportunidade de participar da estratégia de interiorização.

O casal e seus filhos também estavam no voo da última quarta-feira, que realocou 225 refugiados de Boa Vista para 14 diferentes cidades brasileiras. Por meio da interiorização, o governo brasileiro tem, de forma organizada, transferido venezuelanos que estão em Boa Vista para outras cidades brasileiras. Além de reduzir o impacto deste fluxo nas comunidade de acolhida em Roraima, a estratégia proporciona melhores condições de vida e de integração para os venezuelanos que querem permanecer no Brasil.

Refugiados desembarcam no Aeroporto de Recife. © ACNUR / Allana Ferreira

Participar da interiorização é uma decisão voluntária de cada pessoa. Para viajar, é obrigatório que todas as pessoas estejam com as vacinas em dia e portando os documentos necessários, como solicitação de refúgio ou residência temporária, Cadastro de Pessoa Física e Carteira de Trabalho.

“Agora eu sonho com um futuro melhor para minha família. É isso que precisamos oferecer para nossos filhos”, completa Rosana, que começa sua adaptação à nova vida no abrigo Aldeias Infantis em Igarassu, cerca de 30 quilômetros de Recife.

 

Voos carregados de esperança

A estratégia de interiorização faz parte da Operação Acolhida, criada pelo Governo Federal com apoio de agências da ONU e organizações da sociedade civil para responder ao fluxo de venezuelanos na fronteira em Roraima.

Para Jose Egas, Representante do ACNUR no Brasil, “a iniciativa de interiorização garante proteção efetiva para refugiados e migrantes venezuelanos, uma vez que o estado de Roraima sozinho não tem condições de integrar todos os recém-chegados. Por isso a interiorização é parte dessa resposta e, por ser nacional, envolve outros Estados brasileiros”.

O voo da última quarta-feira levou mais de 200 refugiados e migrantes para diferentes cidades brasileiras. Entre elas estão as capitais Recife, São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, João Pessoa, Cuiabá e Porto Alegre.

O clima para o embarque, no saguão do aeroporto de Boa Vista era de alegria. Os ânimos ficaram ainda mais à flor da pele quando os passageiros viram o avião da Força Aérea Brasileira estacionado no pátio. Para muitos, a chance de recomeçar nunca esteve tão próxima.

A venezuelana Flor Antonieta, depois de um ano no Brasil, foi interiorizada para São Paulo, no abrigo da organização Missão Paz. “Eu não podia mais sobreviver em meu país”, conta ela.

Após encarar três meses de extrema vulnerabilidade ao morar na rua, dormindo na Praça Simon Bolívar, no centro de Boa Vista, Flor foi acolhida em um dos abrigos administrado pela Agência da ONU para Refugiados e seus parceiros. Lá, ela conheceu seu parceiro, com quem viajou para São Paulo e para a nova vida.

Flor Antionieta chega com sua família ao abrigo Missão Paz em São Paulo. © ACNUR / Miguel Pachioni

“Vamos ser felizes juntos. Temos um história linda. De agora em diante, eu quero voltar a trabalhar em minha área de formação, como produtora audiovisual”, explica Flor.

Em outra rodada da Operação Acolhida, no próximo dia 23 de março, cerca de cem venezuelanos serão realocados para Dourados, no Mato Grosso do Sul, com vagas de trabalho garantidas pela empresa alimentícia Seara. Neste caso, os participantes do programa serão beneficiados com uma bolsa-auxílio do ACNUR durante o primeiro mês na nova cidade, para que possam cobrir despesas emergenciais – inclusive o primeiro aluguel e a comprar itens básicos – até o pagamento do primeiro salário.

Assim, a estratégia de interiorização chegará à marca de 5,2 mil venezuelanos beneficiados. “O que me mantém motivado é a luta por um futuro melhor para minhas crianças, que já não estudam há dois anos”, conta Robin Jose, outro venezuelano realocado para Pernambuco na última quarta-feira. “Eu peguei este voo pelos meus filhos. Eu sei que quando crescerem, eles serão bons cidadãos trabalhadores”.

Robin Jose e sua família chegam ao novo lar, em Igarassu, em Pernambuco. © ACNUR / Allana Ferreira

ACNUR: expandindo as operações

Mais de 3,4 milhões de refugiados e migrantes venezuelanos encontram-se fora do seu país, de acordo com os dados mais recentes divulgados pela ONU. Os países da América Latina e no Caribe acolhem cerca de 2,7 milhões de venezuelanos à procura de assistência e proteção.

A estratégia de interiorização teve início em abril de 2018 e atualmente envolve 50 cidades diferentes em 17 estados por todo o Brasil. De acordo com o Governo Federal, o Brasil recebeu mais de 200 mil venezuelanos desde 2017, sendo que aproximadamente metade já deixou o país. Dos que ficaram, cerca de 85 mil entraram com solicitação de refúgio, enquanto outros 40 mil receberam vistos de residência temporária.

Venezuelanos contam com ajuda do ACNUR e de outras agências da ONU para a realocação. © ACNUR / Allana Ferreira

Neste cenário, as operações do Sistema ONU foram ampliadas para responder às necessidades dos refugiados e migrantes venezuelanos que foram forçados a deixar seu país. O ACNUR desempenha um papel fundamental nessa estratégia de aumentar o apoio à essa população, especialmente os grupos mais vulneráveis e com maiores necessidades de proteção e assistência.

Por meio de parcerias com o governo federal e com organizações da sociedade civil, o ACNUR atua no monitoramento de fronteira, no registro e documentação de quem chega ao país e na gestão dos abrigos nas cidades de Pacaraima e Boa Vista.

Em relação à estratégia de interiorização, a Agência da ONU para Refugiados identifica os abrigos disponíveis fora de Roraima e realiza melhorias na infraestrutura desses locais, financiando também custos administrativos e a distribuição de itens de assistência emergencial, como colchonetes, beliches, produtos de higiene e artigos de limpeza.

Por meio de um programa de auxílio financeiro, o ACNUR oferece ajuda financeira aos interiorizados para acelerar sua integração nas cidades de destino, criando assim novas vagas nos abrigos e permitindo a realocação de outras pessoas.

Além do ACNUR, outras agências da ONU com a estratégia de interiorização são a Organização Internacional de Migração (OIM), o Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA), o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF).