Projeto promove ensino para crianças e adolescentes refugiados

Espaço de educação e proteção da criança e adolescente oferece educação não-formal e assistência social e psicológica nas cidades de Boa Vista e Pacaraima para quem tem entre 3 e 17 anos

Meninas venezuelanas logo após uma manhã de atividades em um dos espaços de educação e proteção da criança e adolescente em Boa Vista. A agenda se repete no período da tarde para atender no contraturno da escola formal. ©ACNUR / Allana Ferreira

Uma das grandes perdas durante o processo de deslocamento forçado se refere à quebra do processo educacional. Crianças e adolescentes que estudavam em seu país de origem e foram obrigados a deixar tudo para trás, inclusive sua escola e tudo o que ela representa, enfrentam dificuldades adicionais durante este processo. Tal situação tem impacto na vida dos jovens que deixaram a Venezuela e buscaram proteção no Brasil.

Para minimizar os efeitos desta situação, o ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) tem apoiado espaços de educação e proteção da criança e adolescente, implementados e coordenados pelo UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) nas cidades de Boa Vista e Pacaraima, em Roraima.

São 23 unidades no estado de Roraima que já atenderam mais de 15,5 mil crianças e adolescentes entre 3 e 17 anos, até junho de 2019.

Os espaços funcionam dentro e fora dos centros de abrigamento emergencial para refugiados e migrantes em Boa Vista e Pacaraima. As atividades educacionais realizadas nos espaços estão alinhadas com a Base Nacional Comum Curricular brasileira e incluem o ensino de língua portuguesa e espanhola, conhecimentos sobre a história e geografia do Brasil, ciências e outras competências, bem como o desenvolvimento de recreação e esportes. O objetivo é preparar as crianças e adolescentes atendidos para ingressarem na escola regular.

“O projeto de ‘educação não formal’ não substitui o ensino da escola formal, mas integra a pedagogia de emergência que é manter a criança e adolescente estudando, mesmo estando fora do sistema escolar formal”, explica Marcela Ulhôa, Oficial de Proteção à Criança em Emergências do UNICEF, em Roraima.

De acordo com o recém lançado relatório global do ACNUR sobre educação, existem em torno de 7,1 milhões de crianças refugiadas no mundo em idade escolar, onde 3,7 milhões não frequentam a escola. Ainda que milhares de crianças e adolescentes venezuelanos estejam matriculados em escolas públicas de Roraima, tal abertura não é suficiente para suprir as demandas de refugiados e migrantes vindos do país vizinho.

O projeto integrado de educação e proteção da criança e do adolescente do UNICEF conta com o apoio financeiro da União Europeia, que tem contribuído para o fortalecimento da resposta aos venezuelanos na região norte do Brasil com projetos que promovem a integração e a convivência pacífica dessas pessoas com a comunidade local, oferecendo proteção a crianças e outras pessoas em situação de vulnerabilidade.

Boa parte do time de professores é formado por profissionais locais: Ismitiely Sousa é professora de biologia. ©ACNUR / Allana Ferreira

Para atender o maior número de crianças e adolescente, as atividades são divididas por grupos de idades. Para Ismitiely Sousa, que é educadora no projeto, um dos maiores desafios é equalizar o ensinamento em turmas com idades tão distintas como é a turma B. “Enquanto alguns estão aprendendo a escrever, outros já fazem cálculos de matemática.”

A educadora explica que por conta da situação no país de origem e a dificuldade do acesso ao ensino, muitos alunos deixam de estudar nas escolas da Venezuela e chegam no Brasil muito desmotivados em retornar ao ensino. Além disso, vários alunos que estão adentrando no sistema público de ensino encontram algumas dificuldades de adaptação por conta da barreira do idioma.

A estratégia educacional dos espaços vem para amenizar essas barreiras e promover a integração das crianças e jovens refugiados e migrantes ao ensino formal, aproximando-os da língua e cultura locais. Elas encontram nos espaços um ambiente de desenvolvimento, aprendizado e muito carinho por parte dos educadores.

Como relata a pequena Maria Eugenia de 9 anos. “O que eu mais gosto são as ‘maestras’, pois elas são muito legais com a gente”. O garoto Josue, de 10 anos completa: “gosto das atividades e das tarefas que a gente faz aqui, que me ajudam a aprender mais”.

“Com a escolinha, os alunos se animam a estudar de novo e se tornam outras crianças” diz Ismitiely, uma das professoras do projeto. ©ACNUR / Allana Ferreira

 

O jovem venezuelano Anderson, de 17 anos, que ainda não está matriculado em uma escola local, atua como voluntário dos educadores durante as atividades para os menores enquanto aprende um pouco de português. “Como ainda não estou estudando e não falo muito português, venho ajudar as professoras e assim vou aprendendo como falar o nome das coisas junto com as crianças.”

Além de proporcionar a continuidade da aprendizagem os espaços também trabalham na proteção das crianças atendidas e de suas famílias. “Além da equipe de educadores, contamos com o serviço de psicólogos e assistentes sociais que dão apoio ao projeto”, explica Marcela.

Anderson ajuda as professoras durante as atividades para crianças menores enquanto tenta aprender um pouco mais de português. ©ACNUR / Allana Ferreira

O conhecimento é a chave para a mudança da vida de qualquer pessoa. Por mais que o ACNUR procure atender as necessidades mais básicas e urgentes da população forçada a se deslocar, a Agência da ONU para Refugiados entende e investe em meios que promovem a maior autonomia dessas pessoas em poderem escolher um futuro melhor. “Crianças precisam de estrutura, rotinas e atividades educacionais e recreativas como parte de seu processo de desenvolvimento. Espaços como esse permitem que elas aprendam, brinquem e reconstruam seu futuro através do conhecimento”, diz Angelica Uribe, oficial de proteção do ACNUR Roraima.

Educação e um futuro melhor é exatamente o que Jenifer, de 38 anos, mãe da pequena Eugenia e mais 4 filhos, sonha para cada um deles. Atualmente a jovem mãe vive em um dos centros de abrigamento emergencial para venezuelanos em Boa Vista, junto com três de seus filhos (de 04, 09 e 19 anos). Para ela “ter a escolinha aqui no abrigo me traz paz, porque sei que eles estão aprendendo – mesmo que não seja numa escola regular.” Jenifer complementa: “meu sonho é que meus filhos tenham educação e futuramente consigam um emprego no Brasil.”

Além de promover conteúdo escolar, o projeto também oferece apoio sociopsicológico às crianças e suas famílias. ©ACNUR / Allana Ferreira