Campanhas promovem hábitos de saúde em abrigos para indígenas venezuelanos em Roraima

Indígenas Waraos e Eñepá acolhidos em Boa Vista recebem orientações gerais sobre higiene no contexto urbano

Campanha de vermifugação foi uma das iniciativas de conscientização sobre hábitos de higiene para com a população indígena do abrigo Pintolândia ©ACNUR / Allana Ferreira

Um dos grandes desafios dos mais de mil indígenas venezuelanos das etnias Warao e E’ñepás que vivem nos centros de abrigamento emergencial para refugiados e migrantes em Boa Vista e Pacaraima é a adaptação a este novo ambiente – muito diferente das suas comunidades de origem.

Famílias que tiveram que deixar suas comunidades para procurar proteção e refúgio no Brasil passaram a viver em um contexto completamente diferente do que estavam habituados e  precisam se adequar a novos hábitos de alimentação, recreação, moradia e de higiene.

Para apoiar estas comunidades neste processo de adaptação e integração, o ACNUR (Agência da ONU para Refugiados) e a FFHI (Fraternidade – Federação Humanitária Internacional) têm implantado campanhas de conscientização para atrair a atenção destas populações e ajustar seu comportamento e atitude à nova realidade que os cerca.

Em Boa Vista, o abrigo Pintolâdia é dedicado exclusivamente à população indígena. Neste local, ACNUR e FFHI têm realizado um trabalho contínuo de conscientização de práticas de higiene através de campanhas, projetos, e ações educativas.

Cerca de mil indígenas das etnias Warao e E’ñepás vivem atualmente em alguns dos centros de abrigamento emergencial para refugiados e migrantes em Boa Vista e Pacaraima ©ACNUR / Allana Ferreira

Neste abrigo, atividades artísticas têm sido usadas nesta estratégia. A população abrigada é convidada a  a representar seus hábitos de higiene por meio de desenhos, dando margem a uma discussão coletiva e à mudança de hábitos mais adequados à preservação da saúde e à proteção destas pessoas.

A exposição dos desenhos foi acompanhada de uma campanha de vermifugação em parceria com a ADRA, Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais, a ONG Médicos Sem Fronteiras e as equipes da Força Tarefa Logística e Humanitária para Roraima, coordenada pelo Ministério da Defesa.

O acompanhamento e apoio às campanhas de higiene são constantes e realizados pelas equipes de saúde e organizações parceiras como ADRA, MSF e FFHI ©ACNUR / Allana Ferreira

Os resultados da campanha já podem ser notados. Indígenas como Egardo Rivero, da etnia Warao, teve seu desenho exposto enquanto os profissionais de saúde atendiam as pessoas abrigadas no Pintolândia. “Como preparamos nossa comida em fogões a lenha, desenhei uma de nossas mulheres cozinhando. E entendo que quando vamos cozinhar, precisamos que tudo esteja o mais limpo e organizado possível. Ferver as coisas é uma forma de evitar a contaminação dos alimentos”, explica Egardo.

Com 22 anos, o jovem Warao entende que essas informações são importantes para reforçar as condições de saúde dentro do abrigo. “Esse tipo de conscientização é importante principalmente para as crianças e as pessoas mais velhas, que são mais vulneráveis fisicamente. Podemos cozinhar nossa comida, mas precisamos saber como deixar tudo limpo antes e depois das refeições”, diz Egardo.

Desenhos expostos durante a campanha de higiene no abrigo Pintolândia, em Boa Vista (RR) © ACNUR / Allana Ferreira

Em torno de 666 indígenas foram beneficiados nessa ação onde doses de vermífugo foram distribuídas para as pessoas do abrigo. A ação recebeu o apoio financeiro da União Europeia, que investe no fortalecimento da resposta aos venezuelanos na região norte do Brasil, com projetos que promovem a a proteção de populações em maior situação de vulnerabilidade, como os indígenas.

A assistente de campo do ACNUR, Lila Noli, explica que como muitos dos abrigados indígenas vieram de um contexto não urbano, vários deles não tinham informaçoes suficientes de hábitos de higiene adequados ao novo ambiente onde se encontram. “O trabalho de conscientizar a comunidade de como deve ser uma rotina de higiene em um abrigo de contexto urbano é essencial para garantir a saúde da população”, afirma.

Lila Noli é antropóloga e assistente de campo da Agência da ONU para Refugiados, atuando no abrigo indígena Pintolândia ©ACNUR / Allana Ferreira

Lila lembra que esse é um processo contínuo, que cartilhas com informações estão sendo elaboradas, assim como outras iniciativas com a colaboração de artistas indígenas do próprio abrigo, e outras ações que mantenham essa comunicação constante com a população abrigada.”O acompanhamento e suporte é constante e realizado sempre pelas várias equipes de saúde e a equipe da organização parceira ADRA”. Lembra Lila.