ONU e setor privado se unem para impulsionar contratação de refugiados no Rio de Janeiro

Na 5ª edição do lançamento da plataforma “Empresas com Refugiados”, 60 pessoas se reuniram na sede do WeWork Botafogo para compartilhar boas práticas de integração laboral de refugiados

Pacto Global, ACNUR, governo do Rio de Janeiro e WeWork abrem o evento do lançamento da Plataforma Empresas com Refugiados no Rio de Janeiro © ACNUR/Victoria Hugueney

Rio de Janeiro, 5 de novembro de 2019 – “Somos trabalhadores, temos muitas contribuições para dar. Não queremos só receber assistência, e sim mostrar que temos mãos, mente e coragem para trabalhar, como fazíamos no nosso país.”

Com aplausos de todos os presentes no lançamento da 5ª edição da plataforma “Empresas Com Refugiados”, a fala de Victoria Velasquez, 58, trouxe à tona seu sentimento compartilhado com milhares de refugiados ao se encontrarem em um novo país: o desejo de um trabalho para seguir adiante. Professora de espanhol na Venezuela, a refugiada veio direto para o Rio de Janeiro com a filha e a neta com o dinheiro enviado pelo outro filho, estabelecido no Brasil há dois anos e atualmente cursando doutorado em história na PUC-Rio.

“É um futuro incerto”, completa Victoria. “Mas não tivemos outra opção senão vir para cá. Minha filha infelizmente possui insuficiência renal e precisa fazer hemodiálise três vezes por semana, tratamento que aqui conseguimos realizar”, afirma. “O que me move é que há esperança de viver melhor. Isso é tão importante. Aqui eu sinto isso.”

Enquanto a inserção laboral de Victoria e muitas pessoas refugiadas permanece um desafio no Brasil, com refugiados tendo uma taxa de desemprego alta no país (20%), a Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) em parceria com a Rede Brasil do Pacto Global se reuniram mais uma vez com a sociedade civil, governo brasileiro e refugiados para discutir práticas de integração laboral e trabalho em rede, desta vez no Rio de Janeiro.

Na 5ª edição do lançamento da plataforma Empresas com Refugiados, 60 pessoas se reuniram no espaço da WeWork botafogo durante toda manhã da última sexta-feira (1). Na ocasião, empresas como Sodexo, Fundação Banco do Brasil, Posto LoveStory e Rede Globo apresentaram suas boas práticas de contratação, sensibilização e atuação em rede.

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“Somos trabalhadores, temos muitas contribuições para dar, não queremos só receber assistência, e sim mostrar que temos mãos, mente e coragem para trabalhar, como fazíamos em nosso país,” afirma a venezuelana Victoria Velasquez © ACNUR/Victoria Hugueney

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“Somos trabalhadores, temos muitas contribuições para dar, não queremos só receber assistência, e sim mostrar que temos mãos, mente e coragem para trabalhar, como fazíamos em nosso país,” afirma a venezuelana Victoria Velasquez © ACNUR/Victoria Hugueney

 

Com o objetivo de sensibilizar empresas cariocas para a contratação de refugiados, foram apresentados casos de sucesso que incluem projetos de capacitação profissional, casos de contratação em pequenas e grandes empresas, sensibilização da população brasileira sobre a causa do refúgio e o trabalho da Operação Acolhida nos estados de Roraima e Amazonas. “Da chegada à fronteira até a integração local, é um longo caminho”, destacou o Coronel Urubatã, que apresentou o trabalho do Exército brasileiro no acolhimento de venezuelanos.

O Oficial de Meios de Vida do ACNUR, Paulo Sergio de Almeida, reforçou que a chegada de pessoas de outros países representa a possibilidade de crescimento econômico e desenvolvimento social para o país de acolhida, e que a atuação integrada de diversos atores é chave para que este processo aconteça de forma sustentável.

“Hoje temos no Brasil 189 mil solicitantes de refúgio no Brasil, que juntamente com o número de refugiados já reconhecidos e outros imigrantes não ultrapassa 0,5% da população brasileira, enquanto a média global é de 3%. Isso é muito menos do que em alguns dos países que nos cercam, como é o caso da Colômbia, que já recebeu mais de 1 milhão de venezuelanos”, afirma. “No Brasil, sai mais gente do que entra, já há alguns anos.”

Em pesquisa recente lançada pelo ACNUR, Perfil Socioeconômico de Refugiados no Brasil, os resultados apontam que 93% querem obter a nacionalidade brasileira. “Isso significa que as pessoas querem se integrar neste país,” destaca Paulo Sergio. “O grande desafio é que o índice de desemprego desta população é bastante superior à da brasileira, em torno de 20%. Ainda, percebemos que a maioria das pessoas (80%) recebe de um a dois salários mínimos, o que gera desafios adicionais de acesso a moradia e qualidade de vida”, conclui.

Para Gabriela Almeida, assessora de Direitos Humanos da Rede Pacto Global, “toda nossa experiência de trabalho revela que empresas bem-sucedidas têm a iniciativa de serem diversas, de abrirem as portas para o novo e se manterem atualizadas com o que está acontecendo. O fluxo de venezuelanos na região é um desses fatores de mudança e a absorção dessas pessoas e de outras nacionalidades reflete positivamente em maior engajamento dos funcionários, melhoras na produtividade e dinamismo do ambiente de trabalho.”

“A questão da empregabilidade é o principal fator para que consigamos efetuar a emancipação dessas famílias. Nós fazemos um apelo aos empresários para que possamos abrir seus negócios para o conhecimento da causa e contratação de pessoas, que tem um desejo enorme de trabalhar e contribuir” comentou o coordenador das Aldeias Infantis SOS no Rio, Marcos Gazal Peres. “Desde o início da interiorização, conseguimos 63 vagas de trabalho formal. Isso significa que quase o triplo de pessoas são beneficiadas, pois cada uma dessas vagas ajuda no desenvolvimento de um núcleo familiar diferente.”

Ana Paula Brasil, diretora de responsabilidade social da Rede Globo, apresenta a atuação da emissora alinhada com os Objetivos de Desenvolvimento Social da ONU © ACNUR/Victoria Hugueney

Casos de Sucesso – De campanhas publicitárias a uma novela inteiramente sobre refugiados, a Rede Globo é uma das empresas que embarcou de cabeça no tema desde o Dia Mundial do Refugiado em 2018. “Fomos procurados pelo ACNUR, que nos disse: vocês precisam nos ajudar a contar para o brasileiro quem é um refugiado. E nós topamos o desafio. Porque existe uma traição semântica nessa palavra”, destacou a diretora de responsabilidade social, Ana Paula Brasil. “As pessoas pensam que refugiados são fugitivos. Começamos com uma campanha publicitária, ‘Tudo Começa pelo Respeito’ e depois tivemos a coincidência feliz que foi a novela Órfãos da Terra, e seguimos todo este tempo trabalhando de forma integrativa sobre o tema em diversas plataformas.”

Durante o evento, Ana Paula destacou as diversas iniciativas da emissora engajadas com o tema, como o lançamento do Caderno Globo ‘deslocamentos e refúgios’, falas de refugiados no  REP (Repercutindo Histórias Inspiradoras) e mais recentemente a contratação de venezuelanos como atores da série Segunda Chamada.

“Ajudar as pessoas a entenderem a situação real dos refugiados: essa é uma discussão que diz respeito a todos nós”, “Que tipo de sociedade queremos ser? Entendemos a importância de as pessoas terem consciência de que cada um de nós poderia estar nessa situação.”

Também compartilharam suas práticas bem-sucedidas de integração laboral as empresas WeWork, Sodexo, Fundação Banco do Brasil e o posto combustível LoveStory, cujo dono, Francisco Fernandes, relata o impacto positivo da contratação de venezuelanos. “Quando o cliente percebe que está sendo atendido por alguém de outro país, normalmente a reação dele é de ficar feliz. Isso chama a atenção dele, gera conversa, curiosidade, é algo que marca. A experiência que eu estou tendo é ótima, porque as pessoas são ótimas.”

Também não é diferente a experiência da Sodexo e da Fundação do Banco do Brasil, que fomentam a contratação e capacitação profissional da população refugiada em diversas localidades do país e relatam a força de vontade e alegria das pessoas pela oportunidade de se inserirem economicamente e socialmente no Brasil.

Com realização da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) e da Rede Brasil do Pacto Global, participaram do evento a Organização Internacional para Migrações (OIM), o Estado do Rio de Janeiro (Secretaria de Desenvolvimento e Direitos Humanos), Caritas Arquidiocesana do Rio, Aldeias Infantis, Globo, Fundação Banco do Brasil, Auto Posto Love Story, Sodexo e Operação Acolhida.