Chegada do inverno preocupa refugiados sírios

Moradores do campo de Bardarash se preparam para o inverno rigoroso. Cerca de 222 milhões de dólares serão necessários para ajudá-los a sobreviver

A refugiada síria Nadira e seus filhos na tenda onde moram, no campo de Bardarash, província de Dohuk © ACNUR / Firas Al-Khateeb

Sentada em uma laje de concreto do lado de fora de sua tenda no campo de Bardarash – lar de mais de 13.000 refugiados recém-chegados do nordeste da Síria – Jamila observa seu filho adotivo Arosh brincando sob o sol fora de estação que ainda aquece esta parte da Região do Curdistão no Iraque (RCI). Mas ela sabe que essa tranquilidade não vai durar.


“Choveu aqui na semana passada, e a água entrou pelo lateral da minha barraca”, disse. “Foi pouca água, mas deu para sentir o clima no campo mudar à medida em que as pessoas percebem onde estão agora e o que estão enfrentando.”

Até o mês passado, Jamila, 50 anos, havia vivido a vida toda em Ras al-Ain, uma cidade na fronteira norte da Síria com a Turquia. Apesar dos longos períodos de dificuldades e insegurança durante os quase nove anos de conflito do país, ela permaneceu em sua casa, mesmo quando outras pessoas da cidade optaram por ir embora.

No entanto, no início de outubro, chegou o dia em que ela não podia mais ficar parada. “Aconteceu no final da tarde, eles começaram a bombardear a cidade”, disse Jamila. “Peguei meu filho e as coisas que podia carregar e saí da cidade com minha irmã e sua família ao entardecer. Quando nos afastamos, vimos corpos ao lado da estrada.”

“Não acho que este será um inverno fácil para nós.”

Jamila passou vários dias perto da fronteira com o Iraque antes fazer a travessia na calada da noite, mantendo Arosh, de oito anos de idade, sempre por perto. Eles foram levados de ônibus junto a centenas de outros recém-chegados ao campo de Bardarash, que fica entre a cidade de Duhok e Erbil.

A mais recente escalada de violência no nordeste da Síria deixou mais de 74.000 pessoas desalojadas de suas casas dentro do país e levou 15.500 refugiados a buscar segurança no vizinho Iraque.

O ACNUR, Agência da ONU para Refugiados, respondeu imediatamente a essa nova emergência, fornecendo proteção e assistência para salvar vidas. Mas a chegada iminente de tempestades de inverno e temperaturas em queda ameaçam agravar uma situação já terrível.

No campo de Bardarash, trabalhando ao lado das autoridades curdas e de ONGs parceiras locais, o ACNUR fornece a todos os refugiados do acampamento uma tenda, itens essenciais como utensílios de cozinha e colchões, além de serviços de saúde e proteção, incluindo apoio psicossocial.

Para ajudar a prepará-los para o inverno que se aproxima, quando a região experimenta chuvas fortes e temperaturas próximas de zero graus, as famílias também recebem cobertores e tapetes térmicos, forros isolantes para tenda, lonas, fogões a querosene e combustível.

Apesar desses preparativos, Jamila ainda sente um pressentimento sobre o próximo inverno. “Estamos seguros agora, mas a segurança não é a única preocupação quando você enfrenta tantos riscos”, diz. “É a primeira vez que moro em uma tenta e não acho que este será um inverno fácil para nós e para muitos outros neste campo”.

Em toda a região, o ACNUR estima que 3,8 milhões de refugiados sírios e iraquianos e deslocados internos precisam de assistência para se preparar para o próximo inverno no Egito, Iraque, Jordânia, Líbano e Síria. Para muitos, este será o nono inverno consecutivo em situação de deslocamento.

O ACNUR necessita de US$ 222 milhões para fornecer assistência a todos os necessitados por meio de seu programa de inverno, que abrange o período de setembro de 2019 a março de 2020. O apoio inclui o fornecimento de itens essenciais de assistência e inverno, bem como assistência sazonal em dinheiro para ajudar as famílias cobrir o custo do aquecimento e outras necessidades durante os meses frios.

“O inverno em uma tenda é difícil.”

“Os preparativos para assistência começaram em setembro e o apoio continuará durante o inverno”, disse o porta-voz do ACNUR, Andrej Mahecic, a repórteres em Genebra na sexta-feira. “Os preparativos incluem entregas de itens essenciais para o inverno, como cobertores térmicos, lonas e roupas quentes”.

Em Bardarash, o medo pela chegada do inverno também é compartilhado por outra mãe solteira que cuida de seus dois filhos pequenos no campo. Nadira, 25 anos, já enfrentou um inverno longe de casa durante os primeiros anos do conflito, quando foi deslocada de sua casa na zona rural de Alepo, então ela sabe o que esperar.

“Eu sei que o inverno em uma tenda é difícil e o clima aqui é severo”, disse. “Estou preocupado que meus filhos fiquem doentes. Várias vezes por noite eles acordam e me dizem que estão com frio, então eu os cubro [com mais cobertores]”.

“Quando chegamos ao acampamento, eles nos deram cobertores, colchões, tapetes de isolamento, aquecedor e querosene”, acrescentou Nadira. “De manhã, quando acordamos, já está frio, mas não quero desperdiçar o querosene. Sei que em breve vai ficar mais frio”.

Você pode ajudar a manter famílias refugiadas aquecidas. Doe agora e forneça toucas, luvas, cobertores térmicos, abrigo e roupas de frio para quem está enfrentando temperaturas extremas.