Adolescente afegã sonha em ajudar a reconstruir seu país

Quarenta anos de conflito levaram milhões de afegãos ao exílio, mas Nadia sonha em voltar para casa para cuidar de seu povo

Pai de Nadia, Abdul Rashid, ao lado de fora da casa da família nas proximidades de Quetta © ACNUR/Ivor Prickett

Como muitos adolescentes ao redor do mundo, Nadia Hamidi é fã de filmes de terror. “Espíritos, sangue. Eu amo tudo isso” ela diz.


O fato de ela não se deixar abalar por tais coisas pode ser útil um dia. Ela é aluna destaque de sua turma do ensino médio e sonha em se tornar uma cirurgiã “para ajudar minha família, ajudar meu país, melhorar as coisas”, afirma.

Nadia tem 17 anos, mas já nasceu refugiada. Seus pais foram forçados a abandonar o Afeganistão há 40 anos, na época da invasão soviética, e a família vive no Paquistão desde então.

Nadia está entre os 2,7 milhões de afegãos registrados como refugiados em todo o mundo. Suas necessidades e as das comunidades que os acolhem foram o foco de uma conferência de dois dias que aconteceu em fevereiro na capital do Paquistão, Islamabad. Entre os participantes estavam o secretário-geral da ONU, António Guterres, o primeiro-ministro do Paquistão, Imran Khan, e o Alto Comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi.

Juntos, o Paquistão e o Irã acolhem 90% dos refugiados afegãos do mundo. Há décadas, ambos os países permitem que refugiados frequentem escolas públicas e tenham acesso aos seus sistemas nacionais de saúde. A conferência tinha como objetivo gerar mais solidariedade internacional e apoio a esses esforços, bem como mais apoio a comunidades anfitriãs como Quetta.

Nadia planeja voltar ao Afeganistão algum dia, mas não ainda. Segundo ela, primeiro seu país precisa de paz. E até lá, ela pretende estudar medicina para poder ajudar a reconstruir o país quando chegar a hora.

“Precisamos de pessoas instruídas no Afeganistão”, diz. “Se não tivermos pessoas instruídas, as coisas não irão melhorar em nosso país.”

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A refugiada afegã Nadia Hamidi (à esquerda) participa de sua aula de informática no Safe from the Start, uma iniciativa apoiada pelo ACNUR nos arredores de Quetta © ACNUR / Ivor Prickett

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Numa rua de Quetta, o pai de Nadia, Abdul Rashid, vende qabli, um prato afegão feito com arroz, frango, passas e cominho © ACNUR / Ivor Prickett

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Pessoas passam por uma movimentada área comercial em Ghousabad, um bairro de Quetta, onde 60% dos residentes são refugiados afegãos © ACNUR / Ivor Prickett

 

Neste fim de semana, Nadia e seu pai, Abdul Rashid, que tem mais de 70 anos, tiveram a chance de conhecer o Alto Comissário quando ele visitou o Baluchistão, antes da conferência.

Falando em inglês, um idioma que aprendeu assistindo televisão, ela contou a ele sobre sua escola, onde é aluna destaque, bem como sobre as aulas de informática no Safe for the Start, um programa para mulheres e meninas apoiado pelo ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados.

Nadia sabe que seu caminho será desafiador, como refugiada e como mulher, mas não se assusta facilmente. “Sei que se quero algo, tenho que trabalhar duro”, diz. “Devo deixar as dificuldades de lado porque quero me tornar algo.”

“Sei que se quero algo, tenho que trabalhar duro”

Em Quetta, o Alto Comissário também se reuniu com vários grupos de afegãos e paquistaneses, incluindo mulheres de ambos os países, que juntas frequentam cursos de confecção de tapetes, bordados, culinária e cabeleireiro. Entre os refugiados, a necessidade de mais oportunidades educacionais, particularmente no nível universitário, foi um tema recorrente.

A insegurança continua sendo o principal obstáculo que impede a volta para casa. “Estou estudsando para poder voltar ao Afeganistão”, disse Mehbooba, uma refugiada de 19 anos que nasceu no Paquistão. “Se a situação estabilizar, eu definitivamente voltarei.”

O fato de Nadia e Mehbooba terem chegado tão longe é uma homenagem a suas famílias e à educação que receberam até agora.

“Quero elogiar o Paquistão por esses esforços, que são sempre difíceis para um país que recebe refugiados”, disse Grandi, “e também quero incentivar a comunidade internacional a fazer mais para compartilhar esse ônus e essa responsabilidade com o povo paquistanês.”

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O Alto Comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, se reúne com mulheres refugiadas afegãs que trabalham para desenvolver suas habilidades de artesanato por meio do programa Safe for the Start, em Quetta, Paquistão © ACNUR / Ivor Prickett

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O Alto Comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, se reúne com refugiadas afegãs no Centro de Treinamento Técnico das Mulheres em Quetta, no Paquistão, onde estão desenvolvendo habilidades para ajudá-las a gerar renda © ACNUR / Ivor Prickett

 

O pai de Nadia também gostaria de voltar ao Afeganistão, país do qual sente muita falta.

“O meu país natal é lindo”, diz, agradecido por ter tido a chance de visitar seu irmão em Kunduz algumas vezes nos últimos anos. Mas a violência contínua e as dificuldades econômicas o impediram de permanecer lá por muito tempo. “Não posso me dar ao luxo de voltar e me estabelecer nessa região. Quando você não tem comida suficiente para se alimentar, você fica grato por apenas ter uma refeição.”

Em Quetta, pelo menos, ele consegue ganhar a vida. Todas as manhãs, sai com um carrinho de qabli, um prato afegão feito com arroz, frango, passas e cominho, para vender na rua. Ele volta para casa tarde da noite, cansado e com os pés doloridos.

“Cabe a Nadia decidir se ela quer se tornar médica”, diz. “Essa escolha é dela. Mas estamos felizes por ela se tornar médica, assim pode construir sua própria vida.”

Ele acrescenta: “Estou fazendo o possível para ajudá-la a seguir estudando. É uma conquista para nós dois.”

Por enquanto, Nadia tem um plano para continuar estudando e trabalhando em seu sonho de se tornar médica. Mas a ideia de se estabelecer no Afeganistão nunca deixa seus pensamentos.

“Se a paz vier, não há lugar mais bonito que o seu próprio país”, diz.