Refugiados empreendedores

Salsabil, 34 anos, natural da Síria, chef em São Paulo

Foto: ACNUR / Victor Moriyama

Salsabil teve que deixar a cidade de Douma, na Síria, devido à guerra que persiste no país há mais de nove anos. Sua formação profissional em Farmácia e anos de trabalho permitiram que ela pudesse ter a sua própria drogaria, vivendo bem ao lado de seu marido e filhos. No Brasil desde 2014, Salsabil teve o seu diploma de Farmácia revalidado pela Compassiva, organização parceira do ACNUR, mas trilhou seu caminho por outros rumos.

“Desde que cheguei no Brasil fui atrás do que queria. Revalidei meu diploma, fiz cursos de capacitação profissional com a Migraflix, Empoderando Refugiadas e Mulheres do Brasil. Com todos esses saberes, optei por abrir o meu próprio negócio, o serviço de catering que tem meu próprio nome: Cozinha de Salsabil”, disse com orgulho a empreendedora.

Foi durante a época da graduação na Jordânia que ela começou a produzir e vender pratos típicos aos demais estudantes para reforçar a renda familiar. Todo o talento foi aprimorado no Brasil, onde o serviço de catering prosperava, até a chegada da pandemia.

“Eu conseguia fornecer pratos da cozinha árabe para muitos eventos corporativos em São Paulo. Até já cozinhei ao lado da Paola Carosella, mostrando os segredos de como fazer os deliciosos quibes sírios, mas agora dependo dos pedidos das redes sociais para manter a casa de pé, onde passei a ofertar marmita e comidas congeladas para encomendas familiares”, afirma a incansável chef, que segue acumulando aprendizados.

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Aronny, 35 anos, natural da Venezuela, produtora de queijos em Boa Vista

Foto: Arquivo Pessoal

Aronny é venezuelana, formada em direito na Colômbia e em administração no Brasil. Deixou seu país de origem ainda em 2012 para trabalhar com seu pai na pecuária do norte do país. Com o conhecimento que adquiriam na prática e fazendo cursos para empreendedores em Roraima, criaram com muito esforço a marca Sr. Micho.

“Meu pai me fornece o leite e eu produzo os queijos, de duas variedades, geralmente para abastecer os mercados locais. Mas também soubemos diversificar a nossa clientela para atender diretamente ao público que nos procura, fazendo assim que o queijo saia da fazenda diretamente para mesa do consumidor, fresquinho”, ressalta a produtora.

Com a pandemia, a família passou a trabalhar de forma mais integrada, reduzindo as despesas para poder prover aos consumidores um preço justo, que zele pelo bem-estar da cadeia de produção. Como resultado, novos pedidos chegaram e mesmo em número maior, provando que a estratégia tem dado certo.

“As pessoas que começaram a consumir nossos queijos faziam o pedido de uma peça de cada queijo, mas agora já pedem quilos. É um sinal de que estão gostando e isso é uma questão de orgulho para nós porque fazemos mesmo com muito carinho pelos consumidores e pelos animais”, destaca Aronny.

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Lavi, 27 anos, natural da RDCongo, artista e designer em São Paulo

Foto: Arquivo Pessoal

O mundo das artes em muitos casos reflete as dinâmicas sociais através do olhar do artista. Este diálogo entre a estética e a realidade é evidente na arte de Lavi, artista plástico que desenvolve uma série de projetos gráficos. O artista teve que deixar o seu país de origem, a República Democrática do Congo, antes mesmo de se formar em Artes Plásticas, em 2015, mas aqui no Brasil seu talento é notável nas redes sociais.

“Minha arte reflete as minhas raízes, é uma representação da cultura africana. Aproveito das minhas lembranças e do contexto diverso e de muitas cores da África para retratar através do meu olhar o cotidiano do povo africano, os desafios que enfrentamos, mas também nossas conquistas e valores”, diz o artista.

Lavi já expôs parte de seu trabalho em diversos espaços culturais e centros de arte em São Paulo. Porém, devido ao contexto de pandemia, estes espaços estão fechados e as redes sociais se tornaram o espaço preferido do artista para a divulgação de seus novos trabalhos. Aliás, as telas recém produzidas refletem justamente as imagens globalizadas de rostos com algo em comum: as máscaras de proteção.

“A chegada da epidemia impediu o contato mais direto do público com o ambiente das obras, mas meu atelier segue em contínua produção e adaptação pelo momento em que estamos passando. A grande dificuldade com este cenário é fazer as obras circularem e dialogarem com as diferentes pessoas que tenham interesse, mas as redes sociais podem amenizar essa distância”, afirma o artista que segue ativo, postando suas obras.

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Mouhammad, 32 anos, empresário em São Paulo

Foto: Helena Manfrinato

Empreender não é uma tarefa fácil, ainda mais quando a proposta é ter um espaço físico. O já tradicional restaurante e espaço cultural Majaz, localizado no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, já havia se tornado uma referência de gastronomia palestina pelo cardápio de ingredientes árabes tradicionais com receitas familiares.

“Nosso ambiente é todo diferenciado, em suas diversas linguagens. O cheiro advindo dos pratos que servimos, a equipe de refugiados palestinos, sírios e senegaleses que trabalham conosco, o espaço cultural ‘Ghasan Kanafani’ que temos para exposições e debates, as decorações das paredes com os nomes dos campos de refugiados palestinos… Nosso espaço está fechado, mas nosso atencioso serviço serve aberto”, diz Mouhammad, proprietário do restaurante que existe há mais de dois anos.

Mouhammad chegou ao Brasil em 2014 e devido à epidemia, tem enfrentado o momento mais delicado do seu negócio. Desde a sua abertura, o restaurante inovou na variedade de ofertas dos pratos e temperos árabes, ampliando com o tempo as opções de comidas vegetarianas e veganas, inclusive nas sobremesas. Com as portas fechadas, o jeito foi se adaptar à realidade:

“A situação de quarentena em São Paulo nos levou a montar um sistema de delivery para sobreviver, assim como para manter nossa equipe durante o necessário isolamento social. Ampliamos os canais de contato, provemos o serviço de entrega, ofertamos um prato diferente a cada dia e continuamos com o mesmo gosto pelo negócio”, afirma Mouhammad, esperançoso de que novos clientes se tornem assíduos como os que já provaram (e aprovaram) o cardápio.

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Hernan, 35 anos, natural da Colômbia, chef em São Paulo

Foto: Arquivo Pessoal

Hernan teve que deixar a Colômbia, seu país de origem, devido às ameaças e violência que afetavam não somente seus negócios, mas também impactavam diretamente a vida de sua família. Logo ao chegar em São Paulo e com duas formações técnicas, em engenharia civil e gastronomia, Hernan optou por aquela que toca o seu coração para recomeçar a sua vida no país.

“Eu sempre gostei da gastronomia e tive a oportunidade de trabalhar neste segmento por onde passei: na Colômbia, no Equador e agora no Brasil. Aprendi na teoria e na prática como servir com qualidade nossos clientes, mantendo a tradição de quem somos e por onde passamos”, disse o chef.

O empreendimento Empanadas Cumarito repensou seu modelo de negócio, ampliando o cardápio de entrega que conta com massas pré-assadas ou prontas para o consumo, de muitas variedades, como a famosa combinação de queijo com goiabada na massa de empanada.

“Nossa adaptação para este momento foi utilizar mais as redes sociais como ferramenta e fazer diferentes preparos para quem já quiser consumir ou para assar mais tarde. Quem sabe já almoça alguns sabores e no jantar prova os demais, né?”, sugere Hernan ao lado de Lizeth, sua esposa que é responsável por atender aos pedidos das redes sociais e ajudar no preparo dos alimentos.

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Sylvie, 38 anos, natural da Rep Dem do Congo, chef em São Paulo

Foto: Open Taste/divulgação

A chegada da advogada Sylvie ao Brasil, em 2013, foi complicada. Escondeu-se por 45 dias em um navio cargueiro com seus filhos pequenos, justamente para fugir do contexto de conflito armado em seu país de origem, a República Democrática do Congo. Seu marido havia sido preso e toda a família ameaçada, levando assim à partida.

“Foi difícil ter que partir e deixar tudo o que tínhamos construído para trás, mas pela segurança dos meus filhos, faria e faço de tudo. O acaso foi que me trouxe ao Brasil, não sabia onde aquele navio atracaria”, disse.

Já em São Paulo, Sylvie apostou em seu capital cultural como meio de gerar renda. Passou a fazer palestras, dar aulas de francês, promover encontros culturais e trabalhar com moda e gastronomia, produzindo as delícias dos pratos congoleses para eventos. E este tem sido o meio para ultrapassar as dificuldades da situação atual: promover aulas e palestras motivacionais online.

“Minha história de constante superação é o que me estimula a seguir adiante, tendo como foco compartilhar meus conhecimentos e as experiências que estão em tudo o que faço. A alegria de fazer o que gosto reflete o que entrego, com muito amor e dedicação”, afirma Sylvie. Ela reencontrou seu marido e muitos clientes satisfeitos em seu caminho.

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Carlos e Marifer, 36 e 38 anos, naturais da Venezuela, chefs em São Paulo

Foto: Nossa Janela/divulgação

O casal Carlos e Marifer vive atualmente em São Paulo, mas a situação da Venezuela fez com que eles tivessem que deixar o país em diferentes momentos. O jornalista e a professora de história e geografia sentiram no próprio corpo os desafios que a realidade impôs.

“Nossa trajetória de saída do país envolve perseguições políticas, fome, insegurança, incertezas sobre o dia de amanhã. Mas agora nos cabe olhar para frente, pois o passado nos ensina a ser resistentes diante dos outros desafios que enfrentamos, como a situação que estamos passando de pandemia”, disse Marifer.

Desde a chegada em São Paulo, onde se reentraram na Missão Paz, organização parceira do ACNUR, estipularam planos para se adaptarem à capital paulista. Fizeram aulas de português, cadastraram seus currículos em diferentes entidades de apoio, buscaram a revalidação de diploma e desde o fim de 2017 fundaram o Nossa Janela, um serviço de catering de alimentos orgânicos para eventos.

“Já não temos demandas por eventos, mas agora estamos servindo aos pedidos de famílias que nos contatam pelas redes sociais, entregando refeições e sobremesas orgânicas, com receitas típicas da Venezuela. Também participamos de ações sociais para ajudar quem não tem nem mesmo possibilidade de gerar renda neste momento”, disse Carlos, que recentemente conseguiu trazer seus pais para o Brasil.

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Lucia, 30 anos, natural da Síria chef em Curitiba

Foto: Yasmin Comida Árabe/Divulgação

Além de ser uma mulher multitarefa, a refugiada síria Lucia realiza com primor tudo o que faz. Chegou ao Brasil em 2013 e em pouco tempo se tornou a primeira universitária refugiada formada no Paraná, em arquitetura. Ao lado de seu marido e cunhados, montaram a banda Alma Síria, que já tocou em festivais consagrados e eventos internacionais. Mais recentemente, abriram sua casa em Curitiba para compartilhar a autenticidade gastronomia de Alepo, sua cidade natal na Síria.

“Nós já tínhamos experiência em gastronomia lá na Síria e acreditamos que seria uma oportunidade ter este negócio diferenciado aqui em Curitiba. Abrimos a nossa própria casa para receber grupos de pessoas para jantares temáticos, mas agora a situação é diferente”, afirma.

Por conta da pandemia, a experiência única que era ofertada foi alterada. O que antes envolvia refeições deliciosas acompanhadas pelo famoso café árabe com cardamomo, com música árabe ao vivo, tocada por instrumentos da própria Síria, foram substituídos pelas entregas na casa dos consumidores. Mas os cuidados e atenção no preparo seguem os mesmos.

“Nossa comida é feita com muito amor e alegria. Agora que já não estamos mais atendendo aos grupos por conta da quarentena, é pelo sabor dos alimentos que compartilhamos um pouco do que fazemos com carinho, temperado com a nossa própria história da vida, tornando clientes em amigos”, justifica Lucia, que tem colhido ótimos retornos de quem provou os pratos – e aprovou!

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Jair, 41 anos, natural da Colômbia, chef em São Paulo

Foto: Macondo Raízes Colombianas/Divulgação

Engenheiro mecatrônico de formação, o colombiano Jair chegou no Brasil há sete anos, tendo que escapar do acirramento da violência de Bogotá que já intervinha em seus negócios, na sua da vida de sua família. Na ocasião, Jair trabalhava como subchefe em uma tradicional rede de restaurantes, tendo já se especializado em comida andina.

“Quando cheguei em São Paulo, fiquei impressionado com o tamanho da cidade e com a diversidade gastronômica daqui. Mesmo sendo de países vizinhos, os costumes são bem diferentes e isso traz justamente um tempero especial para quem gosta de cozinhar, como eu”, conta o chef colombiano.

Com sua experiência de já ter trabalhado com grandes nomes da gastronomia, Jair empreendeu seu próprio negócio ao gerenciar um foodtruck que servia um vasto cardápio de pratos típicos do seu país. Com a epidemia, o foodtruck baixou as portas e Jair abriu as janelas para um novo modelo de negócio.

“Minha vida tem sido de deslocamentos, busca por aprendizados, adaptações… E ainda que não traga a segurança sobre como será o dia de amanhã, abre muitas possibilidades para seguirmos nos reinventando. Sigo cozinhando e fazendo entregas da cultura e gastronomia colombiana pelas redes sociais, mas as raízes do gosto pela cozinha não se abalam”, disse o experiente chef.

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Tulin, 29 anos, natural da Síria, professora no Rio de Janeiro

Foto: Felipe Novoa

O trajeto foi longo para que Tulin pudesse chegar até o Brasil: ela teve que deixar Damasco, na Síria, devido à guerra. Estudante de astronomia, Tulin passou pelo Líbano, Malásia e Turquia antes de chegar ao Rio de Janeiro, onde vive atualmente. Ela sonha em dar continuidade aos seus estudos no Brasil.

“Eu tive que partir da Síria para buscar um lugar onde eu pudesse ter a oportunidade de reconstruir a minha vida, para dar continuidade ao que almejo para mim porque não podemos deixar passar os nossos sonhos”, disse.

Tulin tentou empreender diferentes negócios na capital fluminense, mas o que de fato fez seus olhos brilharem foi o ensino de idiomas. A estudante então se tornou professora da ONG Abraço Cultural, onde leciona aulas de inglês, além de aulas particulares de árabe para brasileiros. Recentemente, Tulin passou a promover aulas online para grupos e alunos individuais como forma de se adaptar à quarentena.

“Sempre faço trocas culturais com os meus alunos. Promovo reflexões em favor da singularidade das nossas vidas. São essas trocas, o que temos de diferente, que nos faz reconhecer como pessoas próximas umas das outras”, afirma Tulin. Ela espera dar continuidade aos estudos de astronomia no Brasil e seguir com as aulas de idiomas.

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Liliana, 41 anos, natural da Colômbia, chef em São Paulo

Foto: Giovanny Suarez

Liliana cozinha por paixão desde adolescente, quando ainda vivia na Colômbia. Ela chegou ao Brasil em 2014 para fugir da pressão que os narcotraficantes exerciam sobre moradores e comerciantes da região onde vivia.

Desde sua chegada em São Paulo, Liliana viu na gastronomia a oportunidade de recomeçar a sua vida. Com a ajuda de diversos parceiros do ACNUR de São Paulo, aos poucos seu sonho foi se tornando realidade. Fez curso de português na Missão Paz, frequentou projeto de gastronomia (onde foi premiada!) e está fazendo uma mentoria sobre a adaptação de seu próprio negócio. Até livro Liliana já escreveu! Porém, a realidade da pandemia impactou por completo seu planejamento.

“Assinei o contrato para abrir meu próprio negócio justamente dois dias antes de começar a quarentena em São Paulo. Investi em equipamentos, utensílios, ingrediente… Até a pintura estava novinha. Mas tenho o ímpeto dos brasileiros, de não desistir nunca”, afirma Liliana.

Ainda assim, o cardápio de 15 opções de arepas autênticas colombianas e bebidas típicas seguem disponíveis pelas redes sociais do Arepas Urbanika. Aliás, o próprio cardápio se tornou uma fonte de informação aos consumidores, pois é um guia cultural gastronômico, explicando o que são as arepas, patacón, choripan, entre outros.

“Adaptei alguns ingredientes, mas mantenho o que é tradicional dos pratos colombianos. Também tivemos que adaptar nossos modelos de negócio e nossa vida como um todo, mas vamos sair mais unidos dessa crise, nossos esforços conjuntos sempre valem a pena”, comenta a talentosa e esforçada chef.

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Joanna, 32 anos, natural da Síria, empreendedora em São Paulo

Foto: ACNUR/Victoria Hugueney

Joanna é empreendedora nata. Aliás, está na raiz da família. Seu pai tinha um salão de beleza na Síria, seu país de origem. Um dos tios era gerente de um restaurante e seu irmão era chef de cozinha. Joanna até começou a estudar farmácia, mas o conflito no país e o ímpeto pelo empreendedorismo a fizeram seguir o caminho familiar.

“Sou curiosa e interessada em desenvolver projetos que dialoguem com as realidades que enfrentamos. Acredito que temos muitas soluções que as próprias pessoas refugiadas podem agregar, pois temos conhecimentos e vivências de contextos emergenciais”, disse Joanna, referindo-se aos tempos atuais, de pandemia.

A empreendedora chegou no Brasil em 2015 e começou a atuar como tradutora. Em paralelo criou uma plataforma de comércio online para venda de ingredientes árabes para atender a restaurantes e, na sequência, teve outro projeto selecionado por uma incubadora para o desenvolver. O OpenTaste foi então inaugurado. Trata-se de uma proposta que oferecia uma cozinha semi-industrial para que refugiados possam produzir seus pratos e apresentar aos clientes em um restaurante de São Paulo.

““Com a pandemia, o projeto foi adiado mas migramos os conhecimentos dos chefs refugiados para aulas virtuais, no próprio site do OpenTaste. Já tivemos uma aula incrível de panificação e outras transmissões estarão disponíveis, com chefs de diferentes partes do mundo”, afirma Joanna ao tentar superar os desafios da quarentena.

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Maria Elias, 55 anos, natural da Venezuela, Chef no Rio de Janeiro

Foto: Luciana Queiroz

Maria Elias é uma mulher que, por meio de seu talento na cozinha, uniu continentes. Nascida na Venezuela e filha de libaneses, chegou ao Brasil com sua família em 2015 para reconstruir sua vida no Rio de Janeiro. Antes de ser reconhecida como refugiada no Brasil, Maria Elias já havia visitado o país e se encantado com a atmosfera da capital fluminense.

“A receptividade da população brasileira e o jeito todo descontraído do carioca me ajudaram a não olhar para trás e ter que carregar todo o peso das memórias que ficaram por lá, na Venezuela. A sensação de insegurança que sentia nos últimos anos foi transformada pelo otimismo de unir forças para seguir construindo o caminho para a segurança da minha família”, disse Maria.

Técnica em informática, ela soube aproveitar seus conhecimentos da área para reforçar as vendas online dos pratos únicos que passou a vender pelas redes sociais e Whatsapp. Como os pratos típicos do Líbano são diferentes de todos os demais, excêntricos por toda a ancestralidade no preparo dos alimentos, Maria já tinha conquistado uma fiel clientela na feira em que participava, do projeto Chega Junto.

“Eu gosto como a mistura de sabores das minhas raízes do Líbano, do meu paladar da Venezuela e dos infinitos temperos deste país maravilhoso, o Brasil, somam-se em tudo o que faço. Como sempre tive gosto pela culinária, resolvi investir neste meu talento natural. Agora, neste momento de pandemia, reforcei os contatos online para que as entregas dos pratos sem corantes ou conservantes, mas com muito sabor, sejam mantidos”, disse a orgulhosa chef.

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Soda, 60 anos, natural do Senegal, estilista em São Paulo

Foto: Folhappress/Giovanni Bello

A senegalesa Soda, mais conhecida como “Mama” por toda sua trajetória de comércio no centro de São Paulo, chegou ao Brasil há 13 anos. O longo trajeto ao Brasil não foi fácil, considerando que ela estava à frente para garantir a segurança de sua família.

“Deixamos nosso país pela dificuldade que enfrentamos para sobreviver, pela falta de perspectiva de um futuro que, aqui no Brasil, estou construindo pouco a pouco, ao longo de minha vida, sem deixar de lado minhas lembranças, costumes e tradições”, afirma a estilista.

Mama batalhou muito em São Paulo para que conseguisse ter sua loja própria. Participava de feiras e desfiles de moda para complementar sua renda. Sua principal receita provem da venda na loja física, atualmente fechada, de tecidos, roupas, turbantes, faixas, colares, entre outros produtos das notórias estampas africanas.

“Busco trabalhar de forma sustentável, aproveitando ao máximo todo o tecido na confecção de peças que tenham como marca o corte e o colorido africano. Tudo é feito sob medida, de acordo com o gosto do cliente. Mas com a situação atual, tenho contado com o apoio de meu filho para que os pedidos possam ser feitos pela internet. Novamente, sigo aprendendo com isso”, disse a talentosa profissional.

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Carlos, 58 anos, natural da Venezuela, padeiro no Rio de Janeiro

Foto: Melicia Nieves

O venezuelano Carlos chegou ao Brasil há pouco tempo, cerca de seis meses. Administrador de empresas de formação, por conta da recém-chegada ao país, Carlos já teve que adaptar seu conhecimento para a nova realidade em processo de dupla mudança: chegada a um novo país e quarentena para que todos fiquem em casa, elementos que dificultam o processo de integração.

“Ao chegar aqui ao Brasil, país que sou grato pela acolhida e oportunidades, não perdi tempo e já corri atrás de remodelar meus conhecimentos para arregaçar as mangas e trabalhar: pães, algo que eu adoro e que aprendi a fazer com amor”, disse o padeiro.

Carlos se inscreveu em um curso de panificação e se especializou na produção artesanal, trabalhando com fermentação natural e biológica.

“Ainda não tive a chance de abrir o meu próprio negócio, um antigo sonho que, sendo sonho, não desistirei. Mas também não posso abrir mão de esperar sentado. Cheguei em busca de proteção e olhando adiante, para a realidade mesmo, é poder prover com amor aquilo que eu me dedico a fazer”, conclui Carlos, que está começando nas redes sociais, oferencendo as delícias tem produzido.

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Renee, 48 anos, natural da Guiana, artesã em São Paulo

Foto: Flavia Valsani

Renee chegou ao Brasil em 2011, tendo deixado seu país de origem, a Guiana Inglesa, para estar com seu marido Lambert, refugiado da República Democrática do Congo. Ela se interessou sobre artesanato depois que um vizinho brasileiro lhe apresentou o biscuit – uma massa de modelar artesanal e dali em diante, não parou mais. Renee começou a produzir inúmeros acessórios africanos (como colares, brincos, pulseiras, bolsas, quadros…) e fazer bonecas negras Abayomi – cuja simbologia em iorubá significada aquele que traz felicidade ou alegria.

“Comecei a fazer artesanato como hobby, mas se tornou uma fonte de renda depois que as pessoas começaram a pedir para vender meus produtos. Como gosto muito desta atividade, consegui conciliar o prazer de ser artesã com um negócio que gera receita, sendo esta minha fonte de renda”, disse.

Renee já participou de inúmeras oficinas de artesanato, fazendo cursos de pintura em tecidos, cartonagem, técnicas de patchwork, bordado, pedraria, costura… E como resultado, a combinação de técnica e talento é evidente. Porém, o cenário atual de pandemia da COVID-19 tem derrubado as vendas, já que Renee vendia seus produtos principalmente em feiras e eventos. Mas ela segue confiante de que o apoio conjunto neste momento fortalecerá as relações futuras.

“Em tempos como esses, devemos nos apoiar, mesmo que seja apenas uma palavra de encorajamento, um sorriso ou por ser gentil e, quando possível, compartilhar o que você tem. Muitas outras pessoas também estão passando por dificuldades, mas sairemos dessa ainda mais humanos”.

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Fatima, 45 anos, natural da Síria, chef em São Paulo

Foto: ACNUR/Érico Hiller

Reviralvoltas têm sido uma constante na vida de Fatima. Ela se tornou refugiada antes mesmo de chegar ao Brasil, quando teve que deixar sua cidade natal, Alepo, no norte da Síria, no início dos conflitos no país, em 2011. De lá, ela e sua família foram para a Jordânia, onde viveram por quatro anos à espera do término da guerra – que até hoje não aconteceu.

“Eu trabalhava em uma fábrica de roupas da família como costureira. Ainda menina aprendi os segredos do preparo dos pratos típicos da Síria por acompanhar minha mãe na cozinha. Nunca imaginei que essa vivência me traria os frutos do presente momento”, afirma a mãe de cinco filhos e empreendedora.

Fatima chegou ao Brasil em 2014 e se esforçou muito para que o processo de integração em São Paulo, cidade onde vive com sua família, fosse o mais rápido possível. O bem-estar dos seus filhos ditou toda as mudanças que ela tomou durante o longo caminho em busca de segurança e proteção.

“Quando passamos a entender a cultura daqui, passamos a nos adaptar com mais facilidade. Os meus filhos amam arroz e feijão e isso é reflexo deste sentimento que partilhamos, de estarmos no Brasil com o coração aberto”, disse a atenciosa mãe.

Fatima passou a realizar uma série de cursos e capacitações promovidas pelo ACNUR e seus parceiros. Desde 2017 ela começou a empreender no segmento de gastronomia, atendendo festas e eventos de grande porte com as delícias da cozinha árabe – inclusive com cardápio vegetariano. Mas então a pandemia fez com que ela tivesse que mudar a clientela, passando a se direcionar para as demandas familiares, pelas redes sociais – e sem perder a essência da culinária árabe.

“Aqui no Brasil aprendi a adaptar os temperos que uso, assim como o jeito de preparar os pratos. Como os eventos que atendia antes já não existem mais, revi toda minha estratégia para que, nas redes sociais, eu consiga receber os pedidos e fazer as entregas com o mesmo capricho que minha mãe me ensinou”, diz a chefe de família.

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Ninibe e Leonardo, 40 anos, colombianos, artistas plásticos no Rio de Janeiro

Foto: Luciana Salvatore

Os artistas plásticos Ninibe e Leonardo, colombianos, chegaram ao Brasil no fim de 2015, depois de viajar por mais de 9 mil quilômetros de carro com seus filhos. Partiram da Colômbia para chegar até Copacabana, no Rio de Janeiro, passando pelo Equador, Peru e Bolívia. A arte que tanto inspira o talento dos artistas foi também a causa que os forçou a deixar a Colômbia: sofreram perseguição de grupos paramilitares por realizarem atividades educativas com jovens.

“Partimos para ter nossa liberdade de volta, para podermos nos expressar através da arte. Fizemos uma longa viagem em busca da garantia dos nossos direitos. Agora estamos em um lugar onde podemos nos expressar sem preocupações, onde podemos almejar um futuro em segurança para nossos filhos”, afirma Leo, que é artista plástico há cerca de 20 anos.

O casal montou seu ateliê na avenida Atlântica com a rua Miguel Lemos, em Copacabana, onde turistas e moradores do Rio geralmente transitavam e se encontram com os artistas, antes da pandemia.

“Tínhamos o hábito de interagir com as pessoas, compartilhando nossas técnicas de pinturas e também nossa história de vida e superação. Cada quadro que pintamos leva nossa identidade, nossa paixão pela arte. Nossos pincéis não carregam só tintas, carregam toda nossa história e sonhos”, disse Ninibe, artista que pinta telas desde criança.

As telas que estavam expostas no ateliê agora estão expostas no Instagram dos artistas. São temas variados, pintadas com diversas técnicas, desde pintura clássica tradicional até contemporânea, com tintas óleo, acrílica e aquarela. Tudo de acordo com o pedido dos clientes.

“Novamente estamos nos deparando com um futuro incerto. Chegar ao Rio de Janeiro com nossos filhos foi desafiador, mas superamos as dificuldades. Agora, estamos novamente enfrentando uma nova barreira. Mas temos nossa virtude, mantemos nosso talento e alimentamos a oportunidade de nos reinventar, mantendo o otimismo e compartilhando essa energia”.

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Nour, 32 anos, natural da Palestina, professora de idiomas em São Paulo

Foto: Daniela Segadilha

Nour chegou ao Brasil em 2015. Ele deixou seu local de origem, a Palestina, devido à guerra que persiste na Síria há mais de nove anos. Desde que chegou ao Brasil, Nour passou a integrar a ONG Abraço Cultural, que promove aulas de diferentes idiomas com professores refugiados para brasileiros. Na verdade, são mais do que aulas, o ensino de idiomas neste projeto envolve trocas culturais.

“Eu tenho formação acadêmica como tradutora e já atuava parcialmente como professora de idiomas na Síria. Quando eu comecei a trabalhar no Abraço Cultural, fiquei apaixonada pelo propósito da organização de ensinar como forma de promover experiências de vida”, afirma a professora de inglês e árabe para brasileiros.

Antes mesmo de vir ao Brasil, Nour já planejava ter uma ONG na Síria para promover consultorias de gestão de negócios para o terceiro setor, mas seu plano foi adiado pelo conflito. Em terras brasileiras, além de dar aulas de idiomas, Nour também trabalha no Centro de Referência e Atendimento para Imigrantes (CRAI), que oferece acolhimento e atendimento especializado aos demais refugiados e migrantes da cidade de São Paulo, e é voluntária no Conselho Municipal de Imigrantes.

Atualmente, com a complexa nova realidade imposta pelo novo coronavírus, a preocupação inicial sobre o remanejamento das aulas para garantia da renda e dos aprendizados deu lugar a um novo modelo de gestão, que reforçou a solidariedade entre todas as partes envolvidas.

“Tivemos que adaptar as aulas presenciais para as virtuais. Mas essa experiência vai nos ajudar a crescer profissionalmente e melhorar nossas habilidades técnicas. Os coordenadores da ONG se esforçaram para rapidamente implementar uma infraestrutura adequada.” Nour conta que os alunos mantiveram o interesse pelas aulas e osprofessores ampliaram as referências de ensino, compartilhando mais conteúdos e desenvolvemos novas capacidades. “Nesse momento, nossos esforços individuais devem ser para o bem coletivo e, se por meio da minha aula eu conseguir fazer com que alguém alcance seus sonhos, será uma realização para mim”, completa a palestina.

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Adriana, 33 anos, natural da Venezuela, chef em São Paulo

Foto: Avener Prado

Natural da Venezuela, Adriana é formada em gerência e administração de recursos humanos e chegou ao Brasil em 2016, depois de ter passado pela Colômbia. Além da sua formação profissional, Adriana foi atleta regional de escalada esportiva na Venezuela, tornando-se no Brasil empreendedora de seu próprio negócio: uma loja de café e doces artesanais na região de Perdizes, em São Paulo.

Antes disso, trabalhou como empregada doméstica e também na cozinha de uma grande rede de restaurante, onde cada passo dado a qualificou para alcançar o que almejou. No entanto, o processo não foi fácil. “Fiz amizades por onde passei, mas em momentos tive que me impor como mulher e profissional que sou, para me valorizar. Também ouvi insultos de xenofobia, mas soube responder com respeito porque não estamos aqui por escolha, mas como oportunidade para todos crescermos juntos”.

A poucos dias de completar um ano de empreendimento, o Aromas Café teve que fechar as portas em respeito à quarentena promovida em São Paulo. Novamente, Adriana teve que se reinventar e como ela mesmo diz, “quem é escaladora nunca fica parada”.

Ela ampliou sua presença nas redes sociais e por outros canais de vendas, para facilitar o serviço de delivery dos pedidos que agora são feitos pela internet. Parte da ambientação da loja, com músicas tradicionais de onde viveu, estão sendo agregadas em uma plataforma de música, para que o consumo seja também uma experiência imersiva.

“Estou muito agradecida pela acolhida que o Brasil me deu e gostaria de retribuir com a qualidade dos produtos que eu sirvo, feitos de forma artesanal, com muito carinho para que possam sentir um gostinho do que é a Venezuela, mesmo sem ter estado por lá”, conclui Adriana.

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Pitchou Luamba, 38 anos, natural da República Democrática do Congo

O chef Pitchou em seu restaurante Congolinária, no bairro de Sumaré, em São Paulo. Atualmente o restaurante atende seus clientes por delivery.

Foto: Náthalie Guimarães dos Santos

Pitchou chegou ao Brasil em 2010 em busca de proteção internacional devido aos conflitos armados no seu país de origem, a República Democrática do Congo. Formado em direito, ao chegar no Brasil Pitchou atuou como professor de francês e ator. Em 2014 começou a empreender no Brasil e fundou o Congolinária, um restaurante vegano africano referencial em São Paulo.

“Tornei-me empreendedor no segmento de gastronomia porque me identifiquei com o fato de trazer para os pratos que preparo a cultura – e os gostos variados – tão diversa que temos no Congo”.

O serviço de entrega contempla os pratos tradicionais, preparados de forma artesanal, como as sambusas (uma espécie de esfiha), couve na mwamba (um refogado de couve com pasta de amendoim), pilao (arroz com vegetais e gengibre), pomme soute (batata temperada frita inteira), choux (refogado de repolho) entre outros.

“Como tempero especial, posso dizer que uso as lembranças da minha terra e o fato de sempre querer servir bem a quem tem interesse em saber mais sobre minha cultura”.

Além de ser chef, Pitchou está fazendo mestrado em Relações Internacionais e indica dois ingredientes para que todos possam ser sair bem neste momento: perseverança e foco no trabalho.

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Muna Darweesh, 39 anos, natural da Síria

Muna, refugiada síria, apresenta a vasta variedade de alimentos árabes em um dos serviços prestados antes da pandemia em São Paulo

Foto: Muna/divulgalção

Chegou ao Brasil em 2013, tendo deixado a Síria por conta da guerra. “Ainda que eu tive que sair da Síria sem trazer meus bens, carrego em mim as memórias e boas lembranças que fazem parte das receitas que se misturam com a minha história de vida”.

Formada em literatura inglesa, Muna chegou ao Brasil em 2013 junto com o marido e os quatro filhos pequenos para viver em São Paulo – um, inclusive, autista. “Meu marido era engenheiro naval, e eu, professora de inglês. Arregacei as mangas e tornei minha cozinha meu ambiente de trabalho. Comecei a vender doces na região central de São Paulo e logo ampliei o menu”.

Atualmente, Muna tem uma variedade de opções que envolve quibes, esfirras de diferentes recheios, falafel e charutos de folha de uva

Como amo cozinhar e os brasileiros adoram comida árabe autêntica, encontrei o que precisava para ajudar a sustentar minha família”.

Muna trabalhava sob encomenda para eventos e feiras, mas com a chegada da nova realidade em São Paulo, diante a epidemia da Covid-19, os eventos foram cancelados e atualmente a família toda depende da renda da Muna Cozinha Árabe para seu auto sustento.

“Como parte de nossa tradição, gosto de cozinhar para muitas pessoas, o que seria um jeito de reviver aqui no Brasil a nossa cultura da Síria”.

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Talal e Gazhal, 47 e 38 anos, naturais da Síria

Foto: Divulgação

O casal Talal e Gazhal chegou ao Brasil em dezembro de 2013 com seus filhos. Talal começou a trabalhar com gastronomia porque não conseguiu atuar em sua área de formação profissional, como engenheiro mecânico. O que a época foi uma decisão emergencial para gerar renda, transformou-se em uma grande paixão.

“A comida que fazemos se tornou um laço cultural e social com as pessoas brasileiras. Essa troca é uma possibilidade de ampliar as experiências entre os povos, por meio da cultura podemos conhecer sobre a cultura e isso é incrível”.

A família já teve um restaurante na zona sul de São Paulo e por uma decisão de gestão decidiram trabalhar com comida para entregas individuais ou para eventos (casamentos, aniversários, etc). Ainda que algumas adaptações foram feitas para satisfazer o paladar do Brasil, a essência da gastronomia árabe da Síria permanece. “Aqui você se alimenta com comida síria de verdade, desde os temperos que fazemos até os ingredientes que usados em cada receita. Cozinhar tem uma forte ligação com as nossas lembranças e por isso a base do que fazemos vem toda de lá (da Síria)”.

Sobre uma dica que o casal dá para quem teve que ficar em casa e se virar para cozinhar é a seguinte: “Cozinhe com o coração, faça com amor. O processo será transformador e o resultado será delicioso”.

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Yilmary, 37 anos, natural da Venezuela

Foto: Divulgação

Yilmary e sua família vivem no Brasil há quatro anos, em São Caetano do Sul (SP). Ela é terapeuta ocupacional de formação e se reinventou no Brasil através da gastronomia, pois não conseguiu um trabalho que conciliasse seu interesse profissional com a atenção necessária aos filhos pequenos. A família teve que deixar a capital da Venezuela, Caracas, por ameaças e tentativas de extorsão de milícias.

Ela começou a empreender depois do sucesso que teve por um prato feito para uma celebração na escola da sua filha. Como foi feito com muito prazer e capricho, estes ingredientes estão em todo o menu que Yilmary oferece – ainda mais pela curiosidade natural que é despertado pela cozinha venezuelana.

“Um prato típico que indico para quem não conhece a gastronomia da Venezuela é a Cachapa, um prato típico, feito a base de milho, que pode ser traduzida como ‘a tapioca venezuelana’. Embora os outros pratos também umas… tentações, como as Arepas”.

Yilmary fez diversos cursos sobre a gastronomia e empreendedorismo fornecidos pelo ACNUR e seus parceiros para entender como gerir seu próprio negócio. Estudou o mercado brasileiro, adaptou seus conhecimentos e literalmente botou mãos na massa. Ela manteve as tradições e os temperos que aprendeu na Venezuela por também ser uma forma de conexão com suas memórias de afeto: a casa que tinha, a companhia dos familiares e amigos, a vida que tinha.

“Os alimentos incorporam a intenção daquilo que fazemos. Por isso é que faço tudo com amor, atendo as demandas com o melhor de mim para entregar a comida mais saborosa que alguém já provou”.

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 Kenanh e Omar, 40 e 35 anos, naturais da Síria

Foto: Ronny Santos/Folhapress

Omar e Kenanh chegaram ao Brasil em 2014. Na Síria, ela trabalhava como farmacêutica e ele como supervisor em uma empresa também do ramo farmacêutico, mas a guerra iniciada em 2011 – e que continua até hoje – forçou-os a deixar o país.

Ao chegar em São Paulo, Omar começou a vender doces árabes de um amigo, como forma de gerar renda para sustentar sua família. E vendia os doces antes mesmo de saber falar português.

“No começo, eu vendia doces de um amigo no centro de Guarulhos. Só sabia uma frase em português: ‘Sou árabe, sírio, não sei falar português. Por favor, me ajude.’ E mostrava os doces. Algumas pessoas compravam, outras não”, comenta Omar.

Com o conhecimento adquirido e trabalhando ao lado de sua esposa, o casal tomou gosto pela gastronomia e começou a preparar os tradicionais maámul, harissa e outras delícias sírias, assim como de pratos tradicionais que se tornaram a fonte de renda da família.

“Enxerguei na gastronomia minha identidade, uma forma de me apresentar e de representar o meu país, minha cultural, às pessoas que têm interesse ou mesmo para quem já o conhece a autêntica cozinha árabe da Síria”, diz Kenanh.

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