Líbano: tragédia, crise e pandemia agravam necessidades da população local e refugiados 

País enfrenta uma das piores crises econômicas da sua história. Segundo o Banco Mundial, mais da metade da população libanesa vive hoje abaixo da linha da pobreza 

O ACNUR pede apoio a Beirute após a explosão © ACNUR/Houssam Hariri

Olhos do mundo inteiro se voltaram para o Líbano após uma trágica explosão no porto de Beirute, capital do país. O país já lutava contra os efeitos de uma grave crise econômica e administrativa. A chegada da pandemia do novo coronavírus acentuou um cenário de vulnerabilidade. Agora, a explosão ameaça provocar um desabastecimento de alimentos que vai afetar a população de todo o país.


Líbano e refúgio

Segundo o relatório Tendências Globais, o Líbano é a nação que abriga a maior população de refugiados per capita do mundo: 1 em cada 6 habitantes é uma pessoa que deixou seu país natal para escapar de guerras e conflitos, e buscou em território libanês uma vida em segurança. No total, o Líbano abriga mais de 925.000¹ refugiados registrados e sob o mandato do ACNUR. A maior parte deles (98%) veio do país vizinho, a Síria, que está em guerra há quase dez anos. Em seguida, estão refugiados vindos do Iraque e do Sudão.  O ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, atua no país para assegurar abrigo, alimento, saúde e educação aos refugiados e às comunidades que os acolhem.

Veja também: Declaração do Alto Comissário da ONU para Refugiados, Filippo Grandi, sobre as explosões em Beirute, Líbano

Além disso, mais de 200 mil refugiados palestinos vivem no país sob o mandato da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente.

 

Pandemia de COVID-19 agrava crise socioeconômica

Altas taxas de desemprego, inflação e depreciação monetária já colocavam em risco o acesso a serviços essenciais pela população libanesa e milhares de refugiados que buscaram refúgio no país. A chegada da pandemia de COVID-19, somada às restrições para conter sua propagação, agravou o cenário de vulnerabilidade enfrentado pela nação.

O apoio mundial ao Líbano e às agências humanitárias presentes no país é mais crucial do que nunca. Em resposta à crise da COVID-19, o ACNUR segue trabalhando para expandir a capacidade de atendimento médico e tratamento de saúde.

No total, o ACNUR já realizou mais de 3.500 testes para COVID-19 em 147 locais em todo o país e participou de obras de expansão e reabilitação de três hospitais públicos. Fornecemos também abrigos com áreas de isolamento, equipamentos hospitalares, leitos de UTI e treinamento para profissionais da saúde. Além disso, distribuímos materiais de higiene para mais de 345.000 refugiados e doamos mais de 10.000 cestas de alimentos.

Comunidade libanesa no Brasil

No final do século passado, porém, foram os libaneses que contaram com o acolhimento da comunidade internacional, em especial, do Brasil. De 1975 a 1990, uma guerra civil destruiu a nação e deixou cerca de 120 mil mortos, segundo números reconhecidos pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Diversas fés coexistem no Líbano – muçulmanos xiitas e sunitas, cristãos ortodoxos, católicos, maronitas e protestantes, drusos, judeus, bahá’ís, budistas, hindus – constituindo também uma multiplicidade de posicionamentos políticos dentro do país.

Com a adoção do Pacto Nacional, em 1943, determinou-se que certos cargos do governo deveriam ser ocupados por indivíduos de grupos religiosos específicos. O presidente da República e o comandante do Exército deveriam ser cristãos maronitas; o primeiro-ministro, um muçulmano sunita; e o presidente do Parlamento, um muçulmano xiita.

O equilíbrio entre as comunidades religiosas, contudo, foi fragilizado com os eventos da política internacional na metade do século XX. A guerra árabe-israelense de 1948 causou o deslocamento em massa de palestinos para o Líbano, modificando a demografia religiosa do país. A Guerra Fria também polarizou ainda mais as comunidades religiosas em campos ideológicos.

As tensões político-religiosas logo desencadearam ataques e massacres pelo país, com os grupos disputando o controle do governo. Em 1978, Israel invadiu o sul do Líbano em ofensiva contra a resistência palestina. Em 1982, os israelenses avançaram até Beirute, causando centenas de mortes. Outros países também participaram ativamente do conflito, como a Síria.

O Brasil recebeu milhões de pessoas que precisaram abandonar suas casas durante este período, oferecendo segurança e um novo começo. Esses migrantes estabeleceram-se principalmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Paraná, formando uma rede familiar de acolhimento para parentes que viviam no Líbano e queriam sair do país por causa do conflito. É justamente no Brasil onde vive a maior comunidade de libaneses no mundo, com uma população maior do que a do próprio Líbano.

Veja também: Libaneses lembram guerra civil que forçou vinda para o Brasil

Após cada cessar fogo e acordo de paz, o povo libanês mostrou incrível resiliência para reconstruir seu país. Mesmo enfrentando suas próprias mazelas, que colocaram o país em uma crise econômica sem precedentes, o Líbano segue sendo refúgio para milhares de pessoas que foram forçadas a deixar seus países.

O ACNUR presta sua solidariedade a população de Beirute e do Líbano e à comunidade libanesa no Brasil neste momento trágico.


O ACNUR segue atuando em mais de 130 países para proteger refugiados, pessoas deslocadas e comunidades que os acolhem.

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