Interiorização com emprego garantido: refugiados e migrantes venezuelanos recomeçam a vida em Brasília

A venezuelana Ismenia Elena Beria, de 47 anos, se reinventa e constrói nova vida no Brasil

Após chegar ao Brasil para receber tratamento para um câncer de tireoide, Ismenia ficou 1 ano abrigada em Boa Vista e foi recentemente interiorizada para Brasília, onde começou um novo trabalho em uma cadeia de fast-food. © ACNUR/Victoria Hugueney

Brasília, 30 de setembro de 2020 – A venezuelana Ismenia Elena Beria, de 47 anos, nunca imaginou que suas habilidades de preparar soluções de medicamentos com precisão cirúrgica – especialidade adquirida por sua formação como enfermeira – seriam úteis para qualquer outro emprego fora da área da saúde.

Enquanto vivia bem em sua cidade natal Porto Vaz, no estado Bolívar, ela tampouco imaginara que, algum dia, seria forçada a mudar de profissão e, o pior de tudo, se separar de sua família e deixar o seu país como última alternativa para sobreviver.

“Na Venezuela eu não era rica, mas tinha um bom trabalho, tinha casa, tudo”, afirma Ismenia, que chegou no Brasil em maio de 2019 quando chegou para buscar tratamento contra um câncer de tireoide.

Hoje curada, a solicitante da condição de refugiada trabalha em uma franquia de uma rede de fast-food do grupo Levvo em Águas Claras, no Distrito Federal.

Essa é uma das inúmeras pontes criadas pela interiorização. Desde abril de 2018, mais de 39 mil venezuelanos já foram realocados para 608 cidades do Brasil. Sendo um dos pilares da Força-Tarefa Logística Humanitária da Operação Acolhida (resposta do governo federal ao fluxo de refugiados e migrantes da Venezuela para o Brasil), a modalidade tem se expandindo deste então e contado, cada vez mais, com diversas parcerias de empresas privadas e ONGs.

“A interiorização reflete uma boa prática de como Estado, setor privado, ONGs e organizações internacionais podem trabalhar juntos para encontrar soluções sustentáveis de integração de refugiados e migrantes”, afirma o Representante do ACNUR no Brasil, Jose Egas. “A interiorização não só expande as oportunidades de emprego às pessoas refugiadas e migrantes como também apoia o processo de acolhida no norte do país, já que cria vagas nos abrigos existentes e permite que milhares de pessoas se beneficiam do abrigamento emergencial”, conclui.

E foi isso que aconteceu com Ismenia e outros dez venezuelanos no início do mês. O novo emprego só foi possível graças ao processo de interiorização organizado pela Associação Voluntários para o Serviço Internacional (AVSI Brasil). A ONG, parceira da Agência da ONU para Refugiados, apoia a realocação de venezuelanos abrigados em Boa Vista para outras cidades brasileiras a partir da contratação por empresas privadas.

“Nós entendemos que essa transição merece muita atenção, já que essas pessoas estão saindo de abrigos em Boa Vista e não contam com recursos para arcar com aluguel ou outras despesas neste momento”, explica a gerente do projeto na AVSI Brasil, Thais Braga.

O projeto ‘Acolhidos por meio do trabalho’ prevê moradia temporária equipada e suporte para alimentação diária durante três meses para venezuelanos interiorizados. Os abrigados também têm acompanhamento de um assistente social para apoiá-los na integração com a empresa e na comunidade local durante esse período.

Junto com Ismenia, outros 26 venezuelanos chegaram em Brasília no início de agosto. Onze deles foram selecionados para trabalhar em Brasília, a partir de uma seleção de emprego do grupo Levvo.

O Grupo Levvo foi uma das empresas que viabilizou esse processo para o grupo de venezuelanos. Dentro dos eixos de diversidade da empresa, que inclui em seu quadro de funcionários pessoas com 50 anos ou mais, LGBTI+, pessoas com deficiência, e atualmente 15 pessoas refugiadas e migrantes de diversos países.

Para Juliana Alcântara, Diretora de Gestão da Levvo, promover a diversidade no ambiente de trabalho é essencial para os próprios funcionários. “É muito enriquecedor quando chegam pessoas como a Ismenia, que possuem essa bagagem de vida e experiência. Dá pra notar a mudança que isso gera na equipe”, ressalta.

No novo emprego, Ismenia é a mais velha entre os colegas. Mas já durante o treinamento criou laços com o grupo, que brinca que logo ela será promovida para gerente, graças à sua experiência e profissionalismo.

Para ela, a experiência de encarar este novo desafio, ainda em outro idioma, “é difícil, mas não é impossível”. Apesar de entender o português – e estar aprendendo no dia a dia a se comunicar, ela sente que o ambiente é propício para seu desenvolvimento.

“Eu ainda não sei muito, mas eles me instruem. Aqui, todos trabalham em equipe. Eles acreditam nas pessoas e te dão muita confiança para que você faça o seu trabalho cada vez melhor”, relata. ‘’Eu adorei isso.”

Sua primeira função inclui o preparo de bebidas e sorvetes. “É uma experiência diferente, mas tem uma ciência por trás. Isso é química! Tudo tem sua medida, e isso me lembrou de tudo que eu já sabia. E isso me dá confiança para continuar”, conta.

Trajetória 

A venezuelana Ismenia trabalhav diariamente para garantir a proteção da população que vive no abrigo Rondon 1, em Boa Vista © ACNUR/Tainanda Soares

 

Quando vivia no abrigo Rondon 1, em Boa Vista, Ismenia era líder comunitária do comitê de saúde. Ela ajudava na conscientização dos conterrâneos a realizar a higienização das mãos como prevenção ao coronavírus. © ACNUR/Victoria Hugueney

“Foi bom, foi ruim, foi bonito, de tudo um pouco”, diz Ismenia, ao lembrar do tempo em que viveu em Boa Vista. Mas sua experiência no Brasil começou antes, chegando em Manaus em maio de 2019 para obter tratamento contra o câncer do qual está curada.

Quando chegou a Boa Vista, em julho de 2019, Ismenia foi alocada para o Rondon 1, abrigo temporário para cerca de 500 pessoas. Membra ativa da vida coletiva, Ismenia era uma das líderes do Comitê de Saúde, função a qual dedicava seu tempo como voluntária em diversas ações de prevenção contra o novo coronavírus. Também usava do seu tempo útil para cuidar dos abrigados da terceira idade, realizando rodas de conversas e caminhadas para mantê-los ativos.

Não por menos, ela deixou saudades no Rondon 1, seu lar por um ano e três meses. “Todo mundo chorou quando eu saí do abrigo”, lembra, com emoção. “Mas foi quando cheguei ao abrigo em Boa Vista que entendi a realidade do meu país. Todo o dano causado às pessoas.”

Lá, ainda estão os filhos e o marido, na esperança da fronteira abrir para poderem se reencontrarem. Sem vê-los desde fevereiro, ela manda tudo o que consegue juntar para ajudar a família com as necessidades mais básicas.

Enquanto isso, segue “vencendo um leão por dia”, como ela diz. E, apesar de Brasília não possuir as lindas praias da sua terra natal, das quais sente tanta falta, ela encontrou um sentido diferente na imensidão do azul do céu. “Eu gosto daqui.”