Com deficiência e empoderadas: Mulheres refugiadas e migrantes recebem capacitação para o mercado de trabalho no Brasil

Venezuelanas refugiadas e migrantes participam de capacitação profissional com o projeto Empoderando Refugiadas no Norte do Brasil. A sala de aula é acessível para cadeirantes e há intérpretes para língua de sinais. © ACNUR/Allana Ferreira

Boa Vista, 03 de dezembro de 2020 – Quem está do lado de fora de um dos abrigos que acolhem pessoas refugiadas e migrantes da Venezuela em Boa Vista (Roraima) não consegue adivinhar a transformação que acontece lá dentro. Mas, neste local, sonhos estão sendo tecidos.

Uma mulher quer trabalhar com computadores. A outra quer um trabalho como assistente de cozinha. O sonho de uma terceira mulher é juntar dinheiro suficiente para pagar pela cirurgia no joelho da filha.

Os sonhos podem parecer banais, mas essas mulheres zelam por eles com grande cuidado.

E quem são essas sonhadoras? Mulheres que fugiram da violência e da crise econômica em seu país de origem, a Venezuela, e buscaram proteção e assistência no Brasil. Elas são parte de um projeto de empoderamento econômico de mulheres. A maioria ainda tem dificuldade com o português e cada uma delas tem deficiência.

“É duro para mulheres refugiadas conseguir empregos. É ainda mais difícil para mulheres com alguma deficiência”, fala Niky Fabiancic, Coordenador Residente da ONU no Brasil. “Essas mulheres precisaram enfrentar enormes desafios para chegar aonde estão”.

O projeto é uma iniciativa do ACNUR, a Agência da ONU para Refugiados, da Rede Brasil do Pacto Global e ONU Mulheres e conta com o apoio de um grupo de empresas empenhadas em contribuir para que o mundo alcance os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. O objetivo é ajudar essas mulheres a conseguirem empregos. Além de oferecer treinamento profissional, o projeto trabalha com parceiros do setor privado para identificar vagas de emprego que possam ser preenchidas por essas mulheres.

O ACNUR e a ONU Mulheres estão ajudando essas mulheres em sua jornada. Elas vivem em Roraima, em abrigos da Operação Acolhida, a iniciativa liderada pelo Governo Federal para apoiar as venezuelanas e os venezuelanos que estão buscando proteção no Brasil. Por meio do projeto Empoderando Refugiadas, o grupo de 20 mulheres participa de cursos de 80 horas no abrigo Pricumã. Elas aprendem sobre a cultura brasileira, empreendedorismo, atendimento ao cliente, vendas, além de habilidades sociais e emocionais.

Muitas dessas mulheres têm alguma deficiência, outras têm mais de 50 anos e outras são LGBTI. Para a realização das atividades com as pessoas com deficiência, o projeto conta com o apoio de Facebook e Iguatemi, e com a parceria da Turma do Jiló – associação social sem fins lucrativos que visa implementar e garantir a Educação Inclusiva. Os cursos de capacitação profissional são realizados em locais com acesso a cadeiras de rodas. Intérpretes de língua brasileira e venezuelana de sinais apoiam as participantes.

“Por meio deste projeto, as mulheres refugiadas com deficiência terão mais ferramentas para construir um futuro no Brasil. A educação e inserção no mercado de trabalho são meios fundamentais para integração destas pessoas refugiadas, beneficiando também o país de acolhida e as empresas parceiras” afirma José Egas, Representante do ACNUR no Brasil. “A deficiência não pode limitar o sonho destas mulheres que superaram barreiras do deslocamento forçado e hoje buscam uma vida em segurança para elas e suas famílias.”

Essas mulheres estão entre os mais de 600 mil refugiados e migrantes que chegaram ao Brasil vindos da Venezuela nos últimos anos. Cerca de 40% deles ainda estão no Brasil, enquanto os outros ou conseguiram voltar para casa ou seguir viagem com destino a outros países. Com o apoio da Operação Acolhida, refugiados e migrantes estão recebendo alimentos, abrigo, acesso à saúde e uma chance de construir uma nova vida no Brasil. Até agora, o governo, em parceria com entidades das Nações Unidas, já ajudou a mais de 45 mil venezuelanos a se estabelecerem em diversos municípios em todo o Brasil, por meio do programa de interiorização. Mais de um quarto dessas pessoas eram mulheres.

“O projeto Empoderando Refugiadas ajuda a incluir mulheres com deficiência no mercado de trabalho”, afirma Niky Fabiancic. “Isso não é um ato de caridade. É parte com compromisso da ONU de não deixar ninguém para trás. Somos um único mundo, um povo. E seremos cada vez melhores com as contribuições das mulheres com deficiência”.

Carmen Bermúdez, 50 anos © ACNUR/Lucas Novaes

Carmen Bermúdez, 50 anos © ACNUR/Lucas Novaes

“Quero um melhor futuro para meus filhos. Minha meta é poder juntar dinheiro para que minha filha, que também tem nanismo, possa fazer uma operação nos joelhos “, afirma Carmen que cruzou a fronteira para o Brasil há dois anos e busca dar melhores condições de vida a seus filhos que estão na Venezuela. Após alguns meses no Brasil, o dinheiro que trouxe com ela acabou e ela ficou em situação de rua até ir para um abrigo da Operação Acolhida. “Eu quero um trabalho digno, quero que minha família possa dizer que o Brasil e a ONU me ergueram para ser alguém para o futuro. A situação na Venezuela está muito difícil”, conta Carmen. “Esta é uma grande oportunidade que estão me dando. Graças a deus se importaram comigo. Aqui no abrigo até fizeram um tanque para lavar roupa pequeno para que eu pudesse me sentir cômoda. Isso me faz sentir bem”.

Dashly González, 21 anos © ACNUR/Lucas Novaes

Dashly González, 21 anos © ACNUR/Lucas Novaes

“Sou deficiente desde meu nascimento, nasci com uma paralisia em metade do meu corpo. Desde que nasci minha mãe me apoiou e me ensinou que minha deficiência não seria impedimento para que eu pudesse vencer na vida”, diz Dashly, que se emociona ao contar sua história e como sua mãe a ajudou. Na Venezuela, Dashly trabalhou em escolas, lojas de roupa e casas de família. Hoje, ela e sua mãe estão juntas fazendo a capacitação do “Empoderando Refugiadas”, onde sonham com um trabalho mais ao sul do Brasil. Ao pensar no futuro, Dashly espera poder trabalhar na área de computação. Diz que o emprego será o meio de se estabilizar com sua mãe e duas filhas, uma delas com autismo. “Independentemente da minha deficiência, eu tenho meus sonhos e vou alcançá-los”, afirma.

Nelys Gamboa, 56 anos © ACNUR/Lucas Novaes

Nelys Gamboa, 56 anos © ACNUR/Allana Ferreira

“As pessoas com deficiências precisam ser levadas em consideração” conta Nelys, que é cadeirante e é participante da edição atual do projeto “Empoderando Refugiadas”. Ela conta que desde que chegou no Brasil não conseguiu trabalho formal, pois o idioma e a acessibilidade dificultam a busca por emprego. “Espero que as pessoas com deficiência, assim como eu, se levantem”, diz Nelys sobre sua experiência no curso. “O que estou fazendo é dar um exemplo de que é possível. Muitas vezes as pessoas se surpreendem com o que as pessoas com deficiência podem alcançar”. Ainda na Venezuela, Nelys foi auxiliar de cozinha e agora se prepara para encontrar um trabalho nesta área no Brasil. “Espero conseguir vencer, tenho vontade de vencer e vou conseguir”, ressalta Nelys.

 

Assinatura da 5ª edição | 2020

A 5ª edição do Empoderando Refugiadas conta com apoio de Facebook, Unidas, Sodexo, MRV, Uber, Iguatemi e Lojas Renner. O projeto é executado em parceria com a Associação Voluntários para o Serviço Internacional (AVSI Brasil), Operação Acolhida, Círculos de Hospitalidade, Programa de Apoio à Recolocação de Refugiados (PARR), Foxtime, We Work e Grupo Mulheres do Brasil. As metodologias são de Senac Roraima e Aliança Empreendedora.

 

Plataforma Empresas com Refugiados

A plataforma empresascomrefugiados.com.br promove boas práticas empresariais em inclusão de pessoas refugiadas e fornece informações sobre refúgio, materiais de referência, pesquisas e orientação sobre o processo de contratação de refugiados. Dá suporte a empresas de todos os portes e setores que tenham interesse em apoiar a causa e desenvolver projetos para a inclusão de pessoas refugiadas no Brasil.